Redação Plenax – Flavia Andrade
Produção de gado movimenta mais de R$ 5 bilhões em MS e políticas estaduais apostam em certificação, rastreabilidade e incentivos para conciliar atividade econômica e conservação
Para o pecuarista pantaneiro Leonardo Leite de Barros, preservar o Pantanal significa proteger não apenas a vegetação e os animais, mas também as pessoas que vivem e trabalham na planície. Integrante da quarta geração de uma família ligada à pecuária, ele aponta a falta de estradas, escolas e estruturas de saúde como fatores que dificultam a permanência das famílias na região.
“Nossas crianças não conseguem mais viver no Pantanal. Estão indo para as cidades que circundam a planície, longe dos pais e, muitas vezes, enfrentando grandes dificuldades”, afirma.
A questão social se soma ao desafio ambiental e econômico de manter a pecuária em uma região marcada pelos ciclos de cheia e seca. Em Mato Grosso do Sul, o Pantanal reúne mais de 4,2 milhões de bovinos, cerca de 22,7% do rebanho estadual. Em 2024, a comercialização de bois e bezerros movimentou mais de R$ 5 bilhões, segundo diagnóstico das cadeias pecuárias do Pantanal divulgado pela Semadesc.
Nesse cenário, o governo estadual, comandado por Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição em 2026, tem defendido medidas como manejo adequado, certificação, rastreabilidade, assistência técnica e valorização econômica da vegetação nativa como instrumentos para a atividade.
A proposta é associar a produção a mecanismos capazes de diferenciar a carne produzida segundo determinados protocolos ambientais e sanitários, criando possibilidades de remuneração adicional para os produtores.
Uma atividade moldada pelos ciclos do Pantanal
A pecuária está presente no Pantanal há cerca de três séculos e uma parcela importante da atividade permanece concentrada na cria de bezerros, posteriormente destinados à engorda e ao abate em outras regiões.
O sistema tradicional foi desenvolvido em grandes áreas de pastagens nativas e exige adaptação constante às condições da planície. O nível das águas, a disponibilidade de pasto e os períodos de seca influenciam diretamente o manejo do rebanho.
“O Pantanal é uma região preservada, com uma atividade econômica secular graças a uma série de fatores. A pecuária se desenvolveu sem a necessidade de suprimir vegetação, porque as grandes extensões de pastagens nativas sempre viabilizaram a criação de gado”, afirma Leonardo.
Segundo o pecuarista, o conhecimento acumulado pelas famílias pantaneiras permitiu desenvolver formas de produção adaptadas aos ciclos naturais.
“Ao longo dos séculos desenvolvemos processos produtivos compatíveis com a preservação e com a produção extensiva de bezerros. O Pantanal é uma grande maternidade de animais silvestres e de bezerros, e o homem pantaneiro é apaixonado pela terra e pelas suas vacas”, diz.
A experiência tradicional, porém, não significa que toda atividade pecuária seja automaticamente sustentável. Lotação excessiva, degradação de pastagens, abertura inadequada de áreas e manejo incorreto do fogo podem comprometer tanto a produção quanto o ambiente.
Dados do MapBiomas mostram que, em 2024, 85% das pastagens da Planície Pantaneira apresentavam baixo ou médio vigor vegetativo. O indicador é uma medida da condição da vegetação das áreas classificadas como pastagem e aponta a necessidade de atenção ao manejo dessas áreas.
Produzir mais sem ampliar a pressão
A busca por eficiência também tem alterado as estratégias adotadas por produtores. Leonardo afirma que, diante do aumento dos custos, algumas propriedades passaram a priorizar a produtividade do rebanho em vez de simplesmente aumentar a quantidade de animais por área.
“A solução não foi aumentar a carga animal por hectare, mas produzir mais bezerros por vaca apascentada”, afirma.
Entre as medidas citadas estão investimentos em genética, sanidade, bem-estar animal e melhoria das pastagens.
Para o produtor, o manejo adequado também pode contribuir para reduzir o acúmulo de matéria seca e, consequentemente, parte do risco associado aos incêndios.
“A introdução de pastagens mais atrativas ao gado ajudou a reduzir a incidência de incêndios. Os grandes desastres normalmente estão ligados ao acúmulo de matéria seca que deixa de ser consumida pelos herbívoros. O boi pantaneiro, além de produzir carne, presta um importante serviço ambiental para a planície”, afirma.
O manejo, entretanto, depende de controle da lotação, conservação das áreas naturais, proteção dos recursos hídricos e prevenção do fogo.
Certificação transforma boas práticas em incentivo
Uma das estratégias adotadas pelo Governo de Mato Grosso do Sul é o Programa de Incentivo à Produção de Carne Bovina Sustentável e Orgânica do Pantanal.
O programa prevê incentivo fiscal para produtores que atendem requisitos relacionados à produção, certificação e identificação do rebanho. Na modalidade Pantanal Orgânico, o benefício corresponde a 67% do imposto devido nas operações internas com bovinos certificados e identificados conforme as regras do programa.
A iniciativa também prevê a identificação individual do rebanho e busca estimular produtos certificados por empresas independentes acreditadas pelo Inmetro.
Leonardo, que também atua como CEO da Bio Carnes, trabalha com produção e comercialização de carnes orgânicas certificadas. Segundo ele, a propriedade utiliza criação extensiva e práticas relacionadas à produção orgânica.
“A pecuária pantaneira vai muito além da produção de alimentos. Ela é uma importante aliada da conservação ambiental. A criação extensiva tradicional, associada às boas práticas de manejo e à certificação, mostra que é possível produzir carne de alta qualidade preservando um dos biomas mais importantes do planeta”, afirma.
O acesso aos programas, porém, exige adequação documental, acompanhamento técnico e certificação. O próprio governador reconhece que ampliar o número de produtores participantes ainda é um dos desafios.
“A certificação ainda precisa alcançar mais produtores. Esta é uma lacuna a ser sanada”, afirma Riedel.
Rastreabilidade ganha espaço na cadeia da carne
Outro instrumento considerado estratégico é a rastreabilidade, que permite acompanhar a origem e a movimentação dos animais ao longo da cadeia produtiva.
Além da importância sanitária, o mecanismo pode ser utilizado para comprovar a origem da produção e atender exigências ambientais e comerciais de determinados mercados.
No diagnóstico das cadeias pecuárias do Pantanal, apresentado pela Semadesc, estão entre as propostas a criação de selos de origem, ampliação da rastreabilidade, valorização do couro, habilitação de frigoríficos e pagamento por serviços ambientais. O plano também contempla outras atividades, como criação de ovinos e equinos, apicultura, piscicultura e manejo de jacarés.
A diversificação aparece como uma possibilidade de reduzir a dependência exclusiva da pecuária bovina e ampliar as fontes de renda das propriedades.
Ciência ajuda a medir a sustentabilidade
A Embrapa Pantanal desenvolveu a ferramenta Fazenda Pantaneira Sustentável (FPS) para avaliar a sustentabilidade da atividade pecuária no Pantanal sul-mato-grossense.
A metodologia considera dimensões ambientais, econômicas e sociais e utiliza indicadores relacionados, entre outros aspectos, ao manejo das pastagens, bem-estar animal, biodiversidade e gestão da propriedade.
Estudos recentes da Embrapa também apontam práticas de manejo de pastagens nativas e cultivadas que podem contribuir para a conservação, a adaptação climática e a redução das emissões de metano na pecuária pantaneira.
A proposta amplia a avaliação da propriedade para além da quantidade de animais ou da produção de carne. O desempenho econômico passa a ser analisado junto a indicadores ambientais e sociais.
O desafio de fazer a conservação chegar à renda
A criação de mecanismos de incentivo procura estabelecer uma relação direta entre conservação e retorno econômico. Para o produtor, a lógica é que manter a vegetação, adotar boas práticas, rastrear o rebanho e certificar a produção possa representar uma vantagem comercial ou tributária.
O diagnóstico elaborado para as cadeias pecuárias do Pantanal também inclui o pagamento por serviços ambientais entre as medidas propostas para fortalecer a atividade.
Ao mesmo tempo, a ampliação desse modelo depende de assistência técnica, acesso à certificação, infraestrutura, conectividade, crédito e mercados dispostos a reconhecer a origem e as características da produção.
O cenário climático aumenta a complexidade. Alterações no regime de chuvas, períodos de seca, incêndios e cheias afetam a disponibilidade de pastagem e podem elevar os custos de manejo.
Para Leonardo, a conservação também precisa considerar as condições de vida das famílias que permanecem no território.
“Houve melhorias importantes com investimentos em estradas, que facilitaram o acesso, mas ainda faltam escolas e postos avançados de saúde”, afirma.
No Pantanal, a discussão sobre o futuro da pecuária passa, portanto, por diferentes dimensões: produção, conservação ambiental, renda, infraestrutura e permanência das comunidades. O desafio colocado pelas políticas de incentivo e pelos produtores é fazer com que essas dimensões avancem de forma articulada, transformando boas práticas ambientais em valor econômico sem romper com a dinâmica natural e social da planície.

