*Por Marcelo Hilário
O desperdício agrícola não começa quando o pulverizador entra na lavoura. Ele pode surgir semanas ou meses antes, quando uma amostra de solo representa mal o talhão, uma recomendação desconsidera a variabilidade espacial ou uma máquina distribui sementes e fertilizantes de maneira diferente do planejado. É nesse contexto que a tecnologia de aplicação, associada à Agricultura de Precisão, ganha relevância. Mais do que simplesmente utilizar menos insumos, trata-se de aplicar o que é necessário, na dose adequada, no local e no momento corretos.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) define a Agricultura de Precisão como um conjunto de ferramentas e tecnologias voltadas ao gerenciamento da variabilidade espacial e temporal da unidade produtiva, com o objetivo de aumentar o retorno econômico e reduzir impactos ambientais. Entre essas ferramentas estão a amostragem georreferenciada, os mapas de diagnóstico e recomendação, a aplicação em taxa variável e os sistemas de posicionamento e monitoramento.
A primeira etapa, portanto, é conhecer a variabilidade existente dentro da propriedade. Informações de solo, relevo, produtividade, imagens e histórico de manejo podem revelar diferenças importantes entre regiões de um mesmo talhão. Quando essas diferenças são agronomicamente relevantes e estáveis, podem ser utilizadas para definir estratégias específicas de manejo.
Na fertilização, por exemplo, uma dose uniforme pode resultar em excesso onde a fertilidade já é suficiente e em deficiência onde a necessidade é maior. Um estudo realizado durante cinco safras em dois pomares comerciais de citros de 25 hectares, em São Paulo, avaliou justamente os efeitos da fertilização em taxa variável. Os pesquisadores utilizaram mapas de fertilidade do solo e de produtividade para estabelecer as recomendações.
Os resultados mostraram redução de 34% e 29% na energia incorporada aos fertilizantes nos dois pomares e diminuição de aproximadamente 20% a 70% no excedente de nutrientes, dependendo do nutriente analisado. O resultado econômico, porém, foi diferente entre as áreas: houve aumento de 34,7% no lucro em um pomar, enquanto no outro ocorreu redução de 8,5%. O estudo foi publicado na revista Biosystems Engineering, em 2020.
Esse resultado é importante porque mostra que tecnologia não é sinônimo automático de economia. A existência de variabilidade, por si só, não basta. É preciso que ela seja diagnosticada com qualidade, que exista uma recomendação agronômica capaz de tratá-la e que o benefício obtido seja suficiente para compensar o custo da tecnologia.
A mesma lógica vale para a semeadura. Em experimentos conduzidos pela Embrapa em propriedades comerciais de Mato Grosso e Paraná, a quantidade de sementes foi ajustada de acordo com características distintas dos talhões, utilizando ferramentas de Agricultura de Precisão. Na safra de 2023, os experimentos registraram ganhos de produtividade de até 8% no milho e 3% no algodão. O trabalho foi conduzido no formato on-farm, em condições reais de produção, em parceria entre unidades da Embrapa e a Bosch.
Análise detalhada
O dado mais importante, entretanto, não é o percentual de ganho isoladamente, mas o princípio por trás dele: aumentar a população de plantas em toda a propriedade não significa necessariamente produzir mais. A estratégia de precisão, segundo a instituição de pesquisa, busca identificar onde determinado material ou população apresenta maior capacidade de resposta e adequar a quantidade de sementes a esse potencial.
Depois do diagnóstico e da prescrição, vem uma etapa igualmente importante: a execução. Um mapa pode estar tecnicamente correto, mas não produzir o resultado esperado se a máquina não conseguir reproduzi-lo no campo. GNSS e RTK permitem maior precisão de posicionamento e repetibilidade das operações. Controladores de taxa variável transformam a prescrição em comandos para o equipamento, enquanto sensores de vazão, pressão, rotação e população ajudam a acompanhar o que está acontecendo durante a operação.
A telemetria e os mapas do tipo as-applied acrescentam outra camada importante: a possibilidade de verificar o que realmente foi executado. Isso muda a forma de enxergar a regulagem das máquinas. A calibração deixa de ser apenas uma etapa operacional e passa a fazer parte da gestão do desperdício. Um dosador desregulado, um sensor impreciso, um bico desgastado ou uma diferença entre a velocidade real e a informada pelo sistema podem comprometer uma prescrição que, no papel, estava correta.
Na pulverização, essa precisão assume outra dimensão. Não basta acertar a dose do produto. É necessário fazer com que a calda alcance o alvo de maneira adequada. Tamanho de gotas, ponta, pressão, velocidade, altura da barra e condições meteorológicas interferem no resultado. A Embrapa trata a regulagem e a calibração dos pulverizadores, a manutenção dos equipamentos e o controle de perdas por deriva e evaporação como elementos importantes da tecnologia de aplicação.
Pesquisas também mostram como pequenas mudanças na configuração do equipamento podem alterar o comportamento da pulverização. Estudo publicado na Pesquisa Agropecuária Brasileira avaliou a deriva e o espectro de gotas de dicamba aplicado com diferentes pontas e formulações e demonstrou que a interação entre esses fatores interfere nas características da pulverização.
Por isso, falar em tecnologia de aplicação é falar de um sistema. Não adianta ter um bom mapa se a máquina não consegue executá-lo. Da mesma forma, não adianta contar com equipamentos sofisticados se a recomendação agronômica foi construída a partir de um diagnóstico inadequado.
A integração entre máquinas e sistemas de gestão tende a ampliar ainda mais essa capacidade. A norma ISO 11783 estabelece padrões para a comunicação entre tratores, implementos e sistemas eletrônicos, incluindo a troca de informações entre o Task Controller e os sistemas de gestão agrícola.
Evolução tecnologica
A próxima fronteira está na utilização de sensores em tempo real, algoritmos e inteligência artificial para reduzir o intervalo entre observar uma condição, tomar uma decisão e executar uma ação. Um estudo publicado em 2023 na revista Computers and Electronics in Agriculture avaliou um sistema automatizado que utilizava espectroscopia visível e infravermelha próxima para estimar a fertilidade do solo em tempo real e ajustar a taxa de semeadura.
No experimento, o sistema apresentou 87,5% de eficiência no controle da taxa de sementes desejada. A semeadura variável utilizou 86,4 mil sementes por hectare, contra 90 mil no sistema uniforme, e resultou em aumento de 4,4% na produtividade e de €91 por hectare na margem bruta. Os autores ressaltam que se tratou de um experimento realizado em uma única área e em um único ano, portanto os resultados não devem ser extrapolados automaticamente para outras condições.
Mas a evolução tecnológica traz também uma responsabilidade: não confundir automação com inteligência agronômica. Um sistema pode executar uma prescrição com enorme precisão e, ainda assim, produzir um resultado ruim se a recomendação estiver errada. Por isso, a principal mudança proporcionada pela tecnologia de aplicação não está simplesmente na capacidade de aplicar mais rápido ou utilizar menos produto. Está na possibilidade de medir, decidir, executar e avaliar.
O produtor passa a ter condições de saber não apenas quanto aplicou, mas onde aplicou, por que aplicou determinada quantidade e qual foi o resultado obtido. Isso permite substituir decisões baseadas exclusivamente em médias por estratégias construídas a partir da realidade de cada área.
A tecnologia de aplicação, nesse sentido, começa antes da máquina. Começa na qualidade da informação utilizada para tomar a decisão. E, quanto melhor essa informação, maior a possibilidade de colocar cada quilo de fertilizante, cada litro de produto ou cada semente exatamente onde pode gerar retorno agronômico. É assim que a Agricultura de Precisão deixa de ser apenas uma ferramenta tecnológica e passa a ser, de fato, uma ferramenta de gestão do desperdício.
*Químico Industrial, Mestre em Agronomia e Químico de Pesquisa e Desenvolvimento da Sell Agro.

