Redação Plenax – Flavia Andrade
História de empreendedora de Campo Grande mostra como capacitação pode ajudar a transformar conhecimento em trabalho, renda e liberdade de escolha
Durante anos, Cleysla Marques Galindo dividiu a rotina entre o trabalho no comércio e o desejo de construir uma atividade própria. Moradora do bairro Tijuca, em Campo Grande, ela trabalhava de segunda a sábado e aproveitava o pouco tempo disponível para produzir e vender doces, porta-joias, velas aromáticas e outros produtos para amigos e familiares.
A ideia de empreender existia, mas faltava tempo para fazer o negócio crescer.
“Eu sempre quis trabalhar para mim mesma, mas não conseguia focar de verdade porque trabalhava de segunda a sábado. Meu dia era todo dedicado à empresa e eu não tinha tempo para divulgar o meu trabalho.”
A mudança começou no início deste ano, quando, aos 26 anos, Cleysla decidiu deixar o emprego com carteira assinada. Ela fez um curso para atuar como designer de unhas e também passou a investir em uma loja de cestas presenteáveis. O próximo desafio era encontrar maneiras de conquistar clientes e divulgar os serviços.
Foi por indicação de um amigo que conheceu o curso gratuito de Ferramentas de Marketing Digital, oferecido pela Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab), em parceria com o Senac.
“Conheci várias ferramentas e estratégias de vendas online que eu não conhecia. Esse curso foi essencial para que eu conseguisse trabalhar para mim mesma.”
A capacitação passou a fazer parte da rotina do novo negócio. Cleysla começou a utilizar estratégias de divulgação, produzir vídeos e investir em tráfego pago nas redes sociais.
Seis meses depois de deixar o emprego formal, ela atende clientes em casa como designer de unhas e continua trabalhando com as cestas presenteáveis.
A mudança, segundo ela, não se resume à renda.
“Hoje eu tenho tempo e qualidade de vida. Se precisar desmarcar um horário para visitar minha mãe ou resolver alguma coisa, tenho essa liberdade.”
A trajetória de Cleysla representa uma questão que vai além de uma história individual: para muitas mulheres, ter acesso à qualificação pode ser um dos caminhos para ampliar as possibilidades de inserção no mercado de trabalho, geração de renda e autonomia financeira.
Em Mato Grosso do Sul, políticas de qualificação profissional, intermediação de mão de obra e incentivo ao empreendedorismo vêm sendo articuladas pelo Governo do Estado, sob a gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição.
Mulheres avançam no mercado, mas desigualdades continuam
Entre 2015 e 2025, a força de trabalho feminina cresceu 20,5% em Mato Grosso do Sul, praticamente o dobro do avanço registrado entre os homens, de 10,3%. A participação das mulheres no mercado chegou a 57,2%, percentual superior à média nacional.
O avanço, porém, convive com obstáculos históricos. As mulheres ainda enfrentam diferenças salariais, menor participação em cargos de liderança e uma distribuição desigual das tarefas domésticas.
Em média, elas dedicam 21,4 horas por semana ao trabalho dentro de casa. Entre os homens, são 11 horas.
Diante desse cenário, entre 2025 e 2026 foram desenvolvidas iniciativas específicas voltadas à qualificação feminina, incluindo a adesão ao Programa Mulheres Mil, a criação do MS Qualifica Digital, a intermediação de oportunidades pela Funtrab e a ampliação das condições de acesso ao FCO Mulheres Empreendedoras.
Para Riedel, o desafio está em avaliar não apenas a quantidade de pessoas capacitadas, mas os resultados produzidos depois da formação.
“O desafio é avançar além do número de inscrições e certificados e acompanhar quantas mulheres efetivamente conseguem emprego, permanecem no mercado ou tornam seus negócios sustentáveis”, explica o governador.
Qualificação precisa estar ligada às oportunidades
Em março de 2025, o Governo do Estado e o Sebrae anunciaram cursos presenciais e on-line voltados à qualificação profissional, ao empreendedorismo e à independência financeira em Campo Grande e outros oito municípios.
A descentralização das atividades facilita o acesso de quem vive fora da Capital, mas a formação profissional precisa estar acompanhada de oportunidades concretas para que o conhecimento adquirido se transforme em trabalho.
Essa é uma das propostas do Programa Mulheres Mil, iniciativa federal executada em Mato Grosso do Sul com participação da Secretaria de Estado de Educação e da Funtrab. O Estado aderiu à nova etapa do programa em abril de 2025, reunindo ações de escolaridade, qualificação profissional e inclusão de mulheres em situação de vulnerabilidade.
Em novembro, participantes de um curso de recepcionista realizado no Jardim Aeroporto, em Campo Grande, receberam orientação profissional, cadastraram currículos na Funtrab e algumas deixaram a atividade com entrevistas de emprego agendadas. O balanço divulgado, entretanto, não informa quantas participantes foram efetivamente contratadas.
“Quando formação e intermediação caminham juntas, cresce a possibilidade de gerar renda”, afirma Riedel.
O mercado de trabalho sul-mato-grossense fechou 2025 com saldo positivo de 19.756 empregos formais. A construção civil teve o maior saldo de novas vagas, seguida por serviços, indústria, comércio e agropecuária.
As mulheres, entretanto, continuam concentradas em determinados segmentos. Os serviços respondem por 65% da ocupação feminina, enquanto o comércio representa 18,8% e a indústria, 15,1%.
Cursos e mercado de trabalho mais próximos
Uma das estratégias adotadas para aproximar formação profissional e demanda por mão de obra é o MS Qualifica Digital, lançado pela gestão estadual em abril de 2025.
A plataforma reúne cursos, vagas de emprego, currículos, empresas e instituições de ensino com a proposta de orientar a qualificação de acordo com as necessidades do setor produtivo.
Nos primeiros meses daquele ano, a Funtrab contabilizou mais de 125 mil atendimentos, quase 50 mil encaminhamentos e mais de 10 mil trabalhadores inseridos no mercado de trabalho. Os números divulgados, porém, não apresentam recorte por gênero.
A ausência dessa informação limita uma análise mais precisa sobre o alcance das políticas entre diferentes grupos de mulheres.
“Sem essa divisão, não é possível saber em que medida mães, mulheres mais velhas, vítimas de violência e trabalhadoras afastadas do emprego formal estão alcançando as oportunidades”, afirma Riedel.
Para a economista Daniela Teixeira, a qualificação profissional tende a produzir resultados mais efetivos quando está diretamente relacionada às necessidades das empresas.
“A qualificação precisa estar ligada às vagas reais e conectada ao contexto e às expectativas do empregador”, explica.
Ela também destaca que características como comprometimento, responsabilidade e postura profissional ganharam relevância nos processos seletivos.
No caso de Cleysla, a aplicação do conhecimento adquirido foi imediata. As técnicas aprendidas durante o curso passaram a fazer parte da rotina de divulgação do negócio.
“Hoje consigo alcançar pessoas que se tornam minhas clientes através das redes sociais. Aprendi a fazer tráfego pago, criar vídeos com mais alcance e divulgar melhor o meu trabalho.”
Para as mulheres, o trabalho continua depois do expediente
A entrada ou permanência no mercado de trabalho também é influenciada por fatores que ultrapassam a qualificação profissional.
Responsabilidades relacionadas aos filhos e à família continuam recaindo de forma desigual sobre as mulheres. Consultas médicas, amamentação, cuidados cotidianos e incompatibilidade de horários podem dificultar tanto o retorno ao emprego quanto a permanência nele.
“Essa necessidade de conciliar o trabalho com os cuidados dos filhos ainda pesa bastante”, afirma Daniela.
Nesse contexto, o empreendedorismo aparece como alternativa para mulheres que buscam maior flexibilidade. A opção, entretanto, não elimina os riscos relacionados à renda e à sustentabilidade de um negócio próprio.
Em Mato Grosso do Sul, 171.825 empresas são comandadas por mulheres, o equivalente a 44,9% dos negócios, segundo levantamento divulgado em março de 2026. A presença feminina é maior nos setores de comércio, serviços e agropecuária.
Entre março de 2025 e fevereiro de 2026, uma parceria entre a Secretaria de Estado da Cidadania e o Sebrae realizou ações de empreendedorismo e inclusão produtiva em 19 municípios. As atividades também alcançaram mulheres indígenas, quilombolas, mães de pessoas com deficiência e integrantes de famílias atípicas.
A diversidade dos públicos evidencia que as políticas de inclusão produtiva precisam considerar diferentes realidades e obstáculos.
“A política deve combinar capacitação, acesso a mercados, orientação de gestão e crédito adequado ao porte de cada negócio”, afirma Riedel.
Crédito pode ajudar a transformar projetos em negócios
Outra frente de apoio ao empreendedorismo feminino envolve o acesso ao crédito.
Em março de 2026, foram ampliadas as condições do FCO Mulheres Empreendedoras. Além das empresas nas quais as mulheres detêm a maioria do capital, passaram a ser contemplados negócios administrados ou dirigidos por elas.
Para Daniela Teixeira, o crescimento do empreendedorismo feminino produz efeitos que ultrapassam a atividade econômica individual, alcançando famílias e comunidades. Ainda assim, mulheres continuam menos presentes em setores tradicionalmente masculinos e em posições de liderança.
“O esforço das mulheres ainda é significativamente maior quando comparado ao dos homens. Elas precisam permanecer no mercado de trabalho, conciliar os cuidados com os filhos e superar barreiras que ainda existem”, analisa.
A qualificação, portanto, é apenas uma parte da equação. Sobrecarga doméstica, acesso insuficiente a creches, custos de transporte, discriminação por idade e jornadas incompatíveis também interferem na permanência das mulheres no mercado.
Autonomia financeira também significa liberdade de escolha
A relação entre geração de renda e autonomia também passou a integrar políticas estaduais voltadas à proteção das mulheres.
Ter renda própria não impede, por si só, situações de violência doméstica, mas pode ampliar as condições para que uma vítima deixe o agressor, mantenha a própria moradia, sustente os filhos e reorganize a vida. Essa dimensão econômica foi incorporada ao Programa Protege.
A estratégia considera que conhecer direitos e canais de denúncia pode não ser suficiente quando a dependência financeira dificulta a decisão de romper com uma situação de violência.
Por isso, o desafio das políticas públicas passa a ser acompanhar a trajetória completa das beneficiárias: da capacitação à entrevista de emprego, da contratação à permanência no mercado e, no caso das empreendedoras, do acesso ao crédito à sustentabilidade do negócio.
“Não basta contar inscrições, certificados, currículos ou propostas de crédito. É necessário medir contratação, salário, permanência no emprego, sobrevivência dos negócios e mudança efetiva na vida das beneficiárias”, afirma Riedel.
Para Cleysla, a transformação começou quando a decisão de empreender encontrou uma ferramenta que ajudou a torná-la possível.
“Saí da loja, comecei a empreender e não parei mais. Hoje consigo trabalhar 100% para mim mesma.”
A história mostra que uma capacitação não cria sozinha um negócio nem elimina os desafios de trabalhar por conta própria. Mas pode oferecer conhecimento, ampliar possibilidades e ajudar uma decisão a ganhar sustentação.
No fim desse percurso, o resultado da política de qualificação não está apenas no certificado entregue ao final de um curso. Está na possibilidade de transformar conhecimento em renda e renda em autonomia para escolher os próprios caminhos.

