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O amor também alimenta: o que o Ayurveda pode nos ensinar sobre aquilo que nutre além da comida

Foto: Divulgação

Por Nina Habib, terapeuta ayurvédica e fundadora da Taila Veda

Quando pensamos em nutrição, quase imediatamente pensamos em comida. Proteínas, carboidratos, vitaminas, minerais, qualidade dos ingredientes, quantidade de nutrientes. Mas uma das coisas mais interessantes que aprendi estudando Ayurveda é que nem tudo aquilo que nos nutre chega até nós pela boca. Nós também recebemos o mundo pelos olhos, pelos ouvidos, pela pele, pelo olfato e pela mente. Uma conversa entra. Uma música entra. Um toque entra. Um ambiente entra. Uma relação entra. E, de alguma maneira, tudo aquilo que recebemos precisa ser processado por nós. É por isso que, quando falamos de alimentação pela visão do Ayurveda, seja interessante fazer uma pergunta maior: do que uma vida é alimentada?

Existe um conceito importante no Ayurveda chamado Ahara, normalmente traduzido como alimento. Mas a compreensão ayurvédica da nutrição não termina no momento em que colocamos alguma coisa no prato. O que ingerimos precisa ser digerido, transformado e assimilado. É aí que aparece outro conceito central: Agni, nossa capacidade de transformação. Podemos comer o alimento considerado mais nutritivo do mundo, mas aquilo que realmente participará da construção do organismo dependerá também da capacidade que temos de processá-lo. Essa é uma mudança de perspectiva muito interessante: o Ayurveda não pergunta apenas “o que entrou?”, mas também “o que você conseguiu transformar daquilo que recebeu?”. Essa mesma pergunta pode ser levada para além da comida. Pense em quantas coisas recebemos ao longo de um único dia. Notícias, mensagens, imagens, ruídos, cobranças, conversas, expectativas, preocupações, carinho, silêncio, beleza, conflitos. Nosso corpo pode estar sentado diante de uma refeição, mas nossa mente continua processando uma quantidade enorme de experiências. É por isso que gosto de pensar que viver também é uma forma de ingestão. Estamos continuamente deixando alguma coisa do mundo entrar em nós.

Os textos do Ayurveda dão grande importância aos sentidos porque eles são nossas portas de contato com o ambiente. Aquilo que vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos e experimentamos não é indiferente à mente. Existe, inclusive, uma inteligência no cuidado com os sentidos: perceber a qualidade dos estímulos aos quais nos expomos, o excesso, a falta e a maneira como eles nos afetam. Hoje podemos passar horas escolhendo cuidadosamente os ingredientes de uma refeição e, ao mesmo tempo, consumir estímulos que nos deixam inquietos durante todo o dia. Cuidamos da qualidade da comida, mas raramente pensamos na qualidade daquilo que estamos oferecendo à mente. É nesse ponto que o amor pode ser compreendido também como uma forma de nutrição. Não porque o Ayurveda proponha substituir alimento por afeto, mas porque ser nutrido é uma experiência maior do que receber nutrientes. Há dias em que uma conversa nos sustenta. Há momentos em que estar perto de alguém nos devolve uma sensação de segurança. Há refeições cujo valor parece estar tanto no que havia no prato quanto em quem estava sentado à mesa. Quem nunca percebeu que a mesma comida pode ser vivida de maneiras completamente diferentes dependendo do ambiente em que é consumida?

Isso também nos ajuda a entender por que o Ayurveda não observa uma refeição apenas pelos ingredientes. Importam o momento, a fome, a capacidade digestiva, a quantidade, a combinação dos alimentos e também a maneira como comemos. Comer correndo, discutindo, trabalhando ou profundamente distraído não produz necessariamente a mesma experiência que sentar, perceber o alimento e estar presente. Nutrição não é apenas composição. É relação. Existe ainda um conceito ayurvédico especialmente bonito para essa reflexão: Ojas. Tradicionalmente, Ojas é descrito como a essência mais refinada da nutrição dos tecidos, associado à vitalidade, estabilidade e sustentação da vida. Para chegar até ele existe uma longa sequência de transformação. O alimento não se torna imediatamente tecido; precisa passar por diferentes processos de digestão, assimilação e construção. Essa imagem nos lembra que aquilo que verdadeiramente nos sustenta costuma ser resultado de algo que conseguimos receber e integrar profundamente.

Essa ideia também ajuda a compreender por que algumas experiências pareçam nutritivas e outras, apesar de intensas, nos deixem esgotados. Nem tudo o que desejamos nos nutre. Nem tudo o que nos estimula nos sustenta. Isso vale para a comida, mas também oferece uma reflexão interessante sobre relações. Existem vínculos construídos sobre intensidade constante e existem vínculos nos quais o corpo encontra espaço para descansar. Existem conversas que terminam e nos deixam leves; outras continuam dentro de nós por horas. Existem ambientes em que conseguimos respirar de outra maneira. Existem pessoas perto das quais não precisamos permanecer o tempo inteiro em defesa. Quando pensamos no amor dessa forma, ele deixa de ser apenas uma emoção romântica e passa a ocupar um território muito maior. Amor pode estar em preparar uma comida para alguém. Pode estar em ouvir sem interromper. Pode estar no cuidado entre pais e filhos, entre irmãos, amigos, parceiros. Pode estar no toque, na presença, no silêncio compartilhado. E pode estar também na forma como escolhemos aquilo que oferecemos diariamente a nós mesmos.

Assim, uma das perguntas mais importantes sobre alimentação não seja, portanto, apenas “o que você come?”, mas também: o que você escuta todos os dias? O que vê? Com quem convive? Como são suas refeições? Quanto silêncio existe na sua rotina? Que tipo de conversa ocupa sua mente antes de dormir? Quais relações oferecem espaço para você existir sem permanecer em alerta? O que, na sua vida, realmente deixa você nutrido depois que termina? O Ayurveda me ensinou que não basta colocar algo dentro do corpo para que aquilo se torne parte de nós. É preciso conseguir digerir, transformar e assimilar. Existe uma sabedoria enorme nessa ideia quando aplicada à vida. Não somos feitos apenas daquilo que comemos. Somos atravessados também pelo que vemos, pelo que ouvimos, pelo que tocamos, pelas pessoas com quem convivemos e pelas experiências que repetimos.

Por isso, quando alguém me pergunta o que significa se nutrir pela visão do Ayurveda, penso que a resposta não cabe inteira em um prato. Uma boa alimentação importa profundamente. Um Agni equilibrado importa. A qualidade dos alimentos importa. Uma vida verdadeiramente nutritiva também precisa de descanso, presença, beleza, vínculos, segurança, silêncio, toque e afeto. Porque há alimentos que chegam pela boca. E há coisas que alimentam uma vida inteira sem nunca terem passado por ela.

Sobre Nina Habib:

Nina Habib é terapeuta ayurvédica, escritora e fundadora da Taila Veda. Com estudos e imersões na Índia e formação em Wellness & Nutrition pela Harvard Medical School, dedica-se ao estudo e à difusão do Ayurveda, aproximando seus conhecimentos tradicionais da vida contemporânea.

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