Redação Plenax – Flavia Andrade
Grandes investimentos ampliam a oferta de empregos e transformam municípios, mas avanço também aumenta a demanda por qualificação profissional e infraestrutura
Aos 19 anos, Geovana Santos Silva começa a projetar o futuro profissional sem precisar deixar Inocência, cidade onde nasceu e cresceu. Desde setembro de 2025, ela cursa Técnico em Celulose e Papel no Senai e tem contato, em laboratórios e equipamentos que reproduzem ambientes industriais, com uma profissão diretamente ligada à transformação econômica que ocorre no município.
A construção da fábrica de celulose da Arauco mudou o mercado de trabalho local e abriu para jovens como Geovana uma possibilidade que, até pouco tempo, não existia na mesma proporção: preparar-se para disputar uma vaga qualificada dentro da própria cidade.
“Quero aproveitar as oportunidades que surgem com o crescimento do setor e me preparar para o futuro. A cidade está crescendo e as expectativas são as melhores possíveis. Estou absorvendo todo conhecimento na teoria e na prática. É incrível ter este contato com laboratório, equipamentos que reproduzem o ambiente industrial. Quero garantir o emprego e seguir me qualificando dentro do segmento”, afirma.
A trajetória da estudante traduz um dos desafios do novo ciclo econômico de Mato Grosso do Sul: fazer com que os grandes investimentos que chegam ao Estado se convertam não apenas em fábricas, obras e números de empregos, mas também em oportunidades para os trabalhadores que já vivem nos municípios onde esses empreendimentos são instalados.
É nesse cenário que a gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, apresenta políticas de atração de investimentos associadas à qualificação profissional e à infraestrutura. A proposta, segundo o governo, é ampliar as condições para que trabalhadores formados no próprio Estado ocupem parte das vagas geradas pelas novas indústrias e cadeias produtivas.
Quase 20 mil empregos formais em 2025
Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com saldo positivo de 19.756 empregos formais, alcançando 689.951 vínculos com carteira assinada, segundo os dados apresentados no texto-base. O número representa crescimento de 2,91% em relação ao ano anterior.
A geração de empregos não ficou concentrada em uma única atividade. A construção civil liderou o saldo anual, com 5.873 novas vagas, seguida pelos serviços, com 4.835, pela indústria, com 4.536, pelo comércio, com 3.258, e pela agropecuária, com 1.256.
Os números mostram uma economia que amplia sua diversidade de atividades, mas também colocam em evidência uma questão que ganha importância com a chegada de novos empreendimentos: a disponibilidade de trabalhadores preparados para ocupar as funções que exigem maior qualificação.
Inocência é um exemplo desse processo.
Nos primeiros meses de 2025, o município registrou 1.385 admissões e saldo positivo de 730 empregos, ficando entre os maiores geradores de vagas de Mato Grosso do Sul naquele período. A expansão do mercado de trabalho também levou à instalação de uma unidade da Casa do Trabalhador, com a proposta de aproximar empresas e profissionais.
Geovana representa uma parcela da população que tenta ingressar nesse mercado por meio da formação técnica. Em vez de apenas acompanhar o crescimento econômico do município, ela busca adquirir as competências exigidas pela indústria que está se instalando na região.
Vale da Celulose transforma perfil dos municípios
A cadeia florestal é uma das expressões mais visíveis dessa mudança.
Em 2025, Mato Grosso do Sul tinha aproximadamente 1,75 milhão de hectares de florestas plantadas, área mais de cinco vezes superior à registrada dez anos antes. Os investimentos previstos para o setor podem superar R$ 70 bilhões até 2028.
Os efeitos, porém, não ficam restritos às fábricas. Produção florestal, transporte, manutenção industrial, alimentação, hospedagem, comércio e fornecimento de serviços passam a integrar uma cadeia que, no início de 2025, já reunia mais de 14,9 mil empregos diretos e cerca de 12 mil indiretos.
Em Inocência, o projeto da Arauco foi aprovado com investimento estimado em US$ 4,6 bilhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 25 bilhões na cotação divulgada em 2025. A unidade deverá alcançar capacidade de produção de 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano.
Em Bataguassu, outro empreendimento prevê investimento de US$ 4 bilhões, com estimativa de aproximadamente 10 mil empregos durante as obras e cerca de 3 mil postos na fase de operação.
Em maio de 2025, uma lei estadual oficializou a denominação Vale da Celulose e autorizou políticas integradas relacionadas ao desenvolvimento sustentável, logística e qualificação profissional.
A dimensão dos investimentos, no entanto, traz um desafio comum aos períodos de expansão acelerada: a criação de postos de trabalho não significa, necessariamente, que as vagas serão ocupadas por moradores locais.
“A criação de empregos, porém, não elimina automaticamente as desigualdades locais. Grandes obras atraem profissionais de outras regiões quando os municípios não dispõem de trabalhadores qualificados em quantidade suficiente. Essa é uma preocupação constante de nossa parte”, afirma Riedel.
A experiência de Geovana evidencia justamente essa diferença. A instalação de uma indústria cria novas oportunidades, mas estar preparado para ocupá-las depende de formação profissional compatível com as necessidades do empreendimento.
Investimentos movimentam outros setores
A expansão da indústria de celulose é apenas uma parte da transformação econômica em curso no Estado.
Em maio de 2025, Mato Grosso do Sul reunia uma carteira estimada em R$ 105 bilhões em investimentos privados anunciados ou em andamento.
Além da cadeia florestal, o movimento envolve segmentos como bioenergia, avicultura, suinocultura, citricultura, produção de amendoim, processamento de alimentos, logística e comércio exterior.
Para a doutora em economia do desenvolvimento Laís de Azevedo, o impacto de um grande empreendimento ultrapassa os empregos criados diretamente pela empresa.
“Uma indústria, uma planta de processamento ou um grande empreendimento precisa contratar fornecedores, transportadoras, serviços de manutenção, alimentação, hospedagem, tecnologia, construção civil e diversos outros serviços. Grande parte dessas demandas pode ser atendida por pequenas e médias empresas locais”, explica.
O aumento da renda também tende a produzir efeitos sobre o comércio e os serviços.
“Quando novos empregos são criados, as famílias passam a consumir mais no comércio, nos serviços e no setor imobiliário. Esse movimento beneficia desde pequenos comerciantes até profissionais autônomos”, afirma a economista.
Nesse processo, o impacto de um grande investimento pode se espalhar por diferentes segmentos da economia local, indo além dos trabalhadores empregados diretamente pela indústria.
Informalidade ainda é um desafio
O crescimento do emprego formal, entretanto, não elimina as fragilidades do mercado de trabalho.
Em 2025, 62,8% da população ocupada de Mato Grosso do Sul estava no mercado formal, enquanto 37,2% permanecia na informalidade.
Isso significa que a abertura de novas vagas representa apenas uma parte do desafio. A qualidade do emprego, a estabilidade, a remuneração e a possibilidade de construir uma trajetória profissional também são fatores que interferem nos efeitos do crescimento econômico sobre a população.
Outro ponto está relacionado às diferentes fases dos grandes empreendimentos.
Durante a construção das fábricas, a demanda por mão de obra costuma ser elevada e inclui funções temporárias. Com o início da operação, porém, o perfil das vagas se modifica e aumenta a procura por profissionais técnicos e especializados.
Sem qualificação adequada, trabalhadores que encontraram oportunidades durante as obras podem enfrentar dificuldades para permanecer na cadeia produtiva quando o empreendimento entra em funcionamento.
“Por isso, as políticas de qualificação precisam alcançar também adultos que deixaram a escola, informais, mulheres que desejam retornar ao mercado e moradores de cidades pequenas”, afirma Riedel.
Crescimento também pressiona infraestrutura
Os efeitos da chegada de grandes empreendimentos ultrapassam o mercado de trabalho. O aumento da população e da circulação de trabalhadores eleva a demanda por moradia, saúde, educação, transporte, saneamento, segurança e outros serviços públicos.
Em municípios pequenos, essas mudanças podem ocorrer em ritmo acelerado, pressionando aluguéis, comércio e infraestrutura urbana.
O poder público passa, portanto, a lidar com duas demandas simultâneas: criar condições para receber novos investimentos e preparar as cidades para os impactos provocados por esse crescimento.
Nesse contexto, a política apresentada pela gestão Riedel associa atração de empresas, infraestrutura e qualificação profissional. A proposta é fazer com que a instalação de uma indústria produza efeitos também sobre os fornecedores, trabalhadores e serviços existentes nos municípios.
Para famílias que enfrentam despesas crescentes com aluguel, alimentação, transporte e crédito, a conquista de um emprego mais qualificado pode representar uma mudança significativa na organização do orçamento e na perspectiva de estabilidade financeira.
O desafio de aproximar vagas e trabalhadores
Com quase 20 mil novos postos formais registrados em 2025, Mato Grosso do Sul entra em uma etapa em que a discussão sobre emprego passa também pela capacidade de preparar trabalhadores para as oportunidades que estão sendo abertas.
Isso envolve identificar antecipadamente as profissões demandadas pelos novos empreendimentos, oferecer cursos nos municípios onde os investimentos estão concentrados, criar caminhos para quem precisa retomar os estudos e aproximar empresas e trabalhadores.
“Mato Grosso do Sul já demonstrou capacidade para atrair grandes investimentos. A etapa seguinte é fazer com que essa mudança apareça no salário, na estabilidade e na trajetória profissional de quem vive no Estado”, afirma Riedel.
Em Inocência, Geovana ainda está no início desse percurso. Sua expectativa está ligada não apenas à instalação de uma indústria de grande porte no município, mas à possibilidade de construir a formação necessária para ocupar uma posição dentro da nova economia que se desenvolve ao seu redor.
O laboratório onde ela aprende hoje reproduz parte do ambiente industrial que poderá encontrar no futuro.
É nessa distância entre a chegada do investimento e a preparação de quem vive no município que está um dos principais desafios do novo ciclo econômico de Mato Grosso do Sul: transformar o crescimento das cidades em oportunidades profissionais capazes de alcançar também a população que já estava nelas antes da chegada das grandes fábricas.

