Redação Plenax – Flavia Andrade
Avanço envolve os 79 municípios e combina formação de professores, acompanhamento da aprendizagem e ações de apoio às escolas; histórias de alunos mostram que vínculo e acolhimento também fazem parte do processo
Antes de conseguir juntar letras e formar palavras, Luiz Otávio precisou superar uma dificuldade mais básica: permanecer na escola.
Aluno do 1º ano da Escola Estadual Ulisses Serra, em Campo Grande, em 2025, ele enfrentou dificuldades de adaptação e chorava com frequência nos primeiros dias. Para a mãe, Nilza de Souza Benevides, o acolhimento oferecido pela professora alfabetizadora Anna Paula Pedrozo foi fundamental para que o menino se integrasse à rotina escolar.
“Ele chorava bastante e teve muitos problemas no começo. Ela soube acolhê-lo e trazê-lo para o mundo escolar”, relata.
A experiência ajuda a traduzir, no cotidiano de uma sala de aula, um dos principais desafios da alfabetização: garantir que a criança tenha condições de aprender e permaneça vinculada à escola durante esse processo.
Em Mato Grosso do Sul, a política estadual de alfabetização reúne os 79 municípios por meio do MS Alfabetiza, programa criado para fortalecer o trabalho das redes de ensino nos primeiros anos do Ensino Fundamental.
Os resultados mais recentes apontam avanço. O percentual de crianças alfabetizadas ao final do 2º ano passou de 47,4% em 2023 para 55,8% em 2024 e chegou a 66% em 2025, segundo os indicadores apresentados pelo Estado.
Apesar da evolução, o número também evidencia o desafio que permanece: cerca de um terço das crianças ainda não alcançou o padrão esperado de alfabetização na idade adequada.
Alfabetização começa antes das primeiras palavras
O Indicador Criança Alfabetizada considera a aprendizagem ao final do 2º ano do Ensino Fundamental. Para atingir o padrão esperado, o estudante precisa demonstrar habilidades como ler palavras, frases e pequenos textos, localizar informações, compreender sentidos básicos e produzir textos simples.
O domínio dessas habilidades influencia diretamente as etapas seguintes da trajetória escolar. Quando a criança apresenta dificuldades de leitura e escrita, o problema pode repercutir também no aprendizado de outras áreas, como matemática, ciências e história.
Na sala de aula, porém, o processo está longe de ser uniforme.
Professora concursada há 21 anos e com mais de uma década de experiência em turmas de 1º e 2º ano, Anna Paula explica que o primeiro passo é identificar o nível de aprendizagem de cada estudante.
“Realizo uma avaliação diagnóstica para conhecer a realidade de cada aluno e, em seguida, proponho atividades diferenciadas que favoreçam a participação de todos”, afirma.
As diferenças entre os estudantes podem estar relacionadas às experiências que tiveram antes e durante a chegada à escola. Enquanto algumas crianças convivem desde cedo com livros, histórias e adultos que acompanham as atividades escolares, outras têm na escola o primeiro contato sistemático com práticas de leitura e escrita.
Nesse cenário, fatores sociais e familiares também podem interferir no ritmo de aprendizagem.
No caso de Luiz Otávio, a mãe afirma que o trabalho pedagógico desenvolvido pela professora foi decisivo para o desenvolvimento do filho.
“A pedagogia dela é muito boa. Ela ensinou muito bem o Luiz Otávio e ajudou bastante no desenvolvimento dele”, conta Nilza.
A relação entre as duas ganhou outro capítulo: atualmente, a mãe é aluna de Anna Paula no magistério.
“Tenho muito a agradecer à professora Anna Paula. Hoje tenho o prazer de estudar com ela e de tê-la como minha professora”, afirma.
Formação de professores é uma das estratégias
Para lidar com diferentes níveis de aprendizagem dentro da mesma turma, o MS Alfabetiza também aposta na formação continuada dos profissionais da educação.
Segundo Anna Paula, esses momentos permitem que os professores compartilhem experiências e conheçam novas estratégias para o trabalho em sala.
“Ter um momento de pausa para realizar uma formação específica em alfabetização é fundamental. Ao dialogar com as colegas, percebo que nossas angústias são as mesmas”, relata.
Para ela, a troca entre profissionais ajuda a ampliar as possibilidades pedagógicas.
“Quando ficamos focadas apenas na própria sala, torna-se mais difícil implementar novas intervenções. No programa, conseguimos compartilhar experiências e conhecer caminhos didáticos viáveis para aplicar com os alunos.”
Entre as referências trabalhadas está o conceito de “alfaletrar”, que associa o aprendizado do sistema de escrita às situações concretas de leitura e produção de textos.
“Não se trata de um método rígido ou exclusivo. A proposta é ensinar letras, sons e o sistema de escrita ao mesmo tempo em que a criança vivencia práticas reais de leitura e escrita no cotidiano”, explica a professora.
Programa reúne os 79 municípios
Instituído em 2021, o MS Alfabetiza funciona em regime de colaboração entre o Governo de Mato Grosso do Sul e os 79 municípios.
A estratégia envolve formação de professores e gestores, avaliação e monitoramento da aprendizagem, fortalecimento da gestão escolar, distribuição de materiais complementares e cooperação entre as redes de ensino.
A proposta é reduzir as diferenças de estrutura e capacidade entre os municípios e oferecer suporte para que as redes possam enfrentar os desafios da alfabetização de forma articulada.
Em 2025, o Prêmio Escolas Destaque destinou R$ 3,6 milhões para reconhecer unidades com bons resultados e apoiar escolas que ainda precisavam avançar. Ao todo, 30 escolas selecionadas tiveram previsão de receber R$ 80 mil cada, enquanto outras 30 unidades apoiadas receberiam R$ 40 mil.
Além do reconhecimento, a iniciativa busca aproximar escolas com desempenhos diferentes e estimular a troca de experiências pedagógicas.
Para a coordenadora estadual do MS Alfabetiza, Maria Gorete Siqueira Silva, o avanço dos indicadores está relacionado ao fortalecimento das práticas pedagógicas e da gestão escolar.
“Os resultados refletem no avanço da alfabetização das crianças, no fortalecimento das práticas pedagógicas, no aperfeiçoamento da gestão escolar e na consolidação de uma cultura de acompanhamento e uso dos resultados educacionais para a tomada de decisões”, afirma.
Índice chega a 66% em 2025
A evolução dos indicadores mostra a dimensão do avanço registrado em Mato Grosso do Sul.
Em 2023, 47,4% das crianças estavam alfabetizadas na idade adequada. No ano seguinte, o índice subiu para 55,8%. Em 2025, chegou a 66%, conforme resultado divulgado em março de 2026.
O crescimento registrado entre 2023 e 2024 foi de 17% em termos proporcionais e colocou Mato Grosso do Sul entre os estados com maior evolução naquele período, três pontos acima da meta estadual de 52,8%.
Na divulgação do resultado de 2025, o Governo de Mato Grosso do Sul e 43 municípios receberam o Selo Ouro Nacional do Compromisso com a Alfabetização.
O governador Eduardo Riedel atribuiu o desempenho ao trabalho conjunto entre Estado, municípios e profissionais da educação.
“Educação é um dos focos da nossa gestão”, afirmou.
Os indicadores, entretanto, representam apenas uma parte do processo. Entre uma meta estadual e uma criança que aprende a ler existe uma rede formada por professores, coordenadores, gestores e famílias.
É na sala de aula que a política pública precisa se transformar em aprendizagem.
Alfabetização influencia toda a trajetória escolar
O impacto da alfabetização ultrapassa os primeiros anos do Ensino Fundamental.
Uma criança que não domina leitura e escrita pode enfrentar mais dificuldades para compreender conteúdos, continuar aprendendo e avançar nas diferentes etapas da educação.
Quando a defasagem permanece sem intervenção, pode contribuir para dificuldades posteriores na trajetória escolar e profissional.
Por isso, o MS Alfabetiza também prevê ações voltadas a estudantes do 3º ao 5º ano que chegaram a essas etapas sem desenvolver as habilidades esperadas de leitura e escrita.
Alfabetizar na idade adequada, portanto, não representa apenas cumprir uma etapa escolar. Significa oferecer à criança uma ferramenta fundamental para que possa continuar aprendendo e, no futuro, escolher seus próprios caminhos.
O desafio agora é alcançar quem ainda não foi alfabetizado
O avanço de 47,4% para 66% representa uma mudança significativa no indicador estadual, mas também coloca um novo desafio para Mato Grosso do Sul: alcançar as crianças que ainda permanecem abaixo do padrão esperado.
A média estadual pode esconder diferenças entre municípios, escolas e diferentes contextos educacionais, incluindo áreas urbanas, rurais, comunidades indígenas e regiões de fronteira.
Para reduzir essas desigualdades, será necessário manter o acompanhamento individualizado, fortalecer a formação dos professores, ampliar o apoio às escolas e utilizar os resultados das avaliações para identificar onde estão as maiores dificuldades.
Também será preciso garantir que o avanço no indicador seja acompanhado pelo desenvolvimento de habilidades cada vez mais complexas. Estar alfabetizado é apenas o ponto de partida para ampliar fluência, vocabulário, interpretação e capacidade de produção textual.
O salto para 66% mostra que Mato Grosso do Sul avançou, mas os aproximadamente 34% que ainda não alcançaram o padrão esperado mantêm aberta uma questão central para a política educacional: como garantir que cada criança tenha a oportunidade de aprender no tempo adequado?
Para Luiz Otávio, essa trajetória começou muito antes de conseguir ler sozinho. Começou quando encontrou na escola um ambiente capaz de acolhê-lo e ajudá-lo a permanecer.
No fim, números como 66% representam muito mais do que um indicador. Por trás de cada ponto percentual existe uma criança que aprendeu a decifrar palavras, compreender textos e ampliar as possibilidades de interpretar o mundo ao seu redor.

