Redação Plenax – Flavia Andrade
Investimento de mais de R$ 1 bilhão em Nova Alvorada do Sul prevê processamento do grão para produção de etanol, óleo e proteína animal
Durante décadas, Mato Grosso do Sul produziu muito mais milho do que conseguia consumir internamente. Para produtores como o engenheiro agrônomo José Luiz Casarin, que atua há 46 anos no campo, isso significava colocar o grão na estrada e arcar, direta ou indiretamente, com o custo de transportá-lo para outros estados.
“Produzimos em torno de 12 milhões de toneladas de milho e o consumo era de aproximadamente 2 milhões. Nosso milho praticamente todo precisava sair para outros estados, principalmente Santa Catarina, e o custo desse frete, no fim, recaía sobre o produtor”, relata.
A realidade começa a mudar com a expansão das indústrias de etanol de milho no Estado. Em Nova Alvorada do Sul, a Atvos iniciou a implantação de uma unidade integrada à estrutura já existente de produção de etanol a partir da cana-de-açúcar. O investimento supera R$ 1 bilhão e a fábrica terá capacidade para processar até 642 mil toneladas de milho por ano.
Durante a construção, a previsão é mobilizar cerca de 2 mil trabalhadores. Após o início das operações, a unidade deverá gerar pelo menos 100 empregos diretos permanentes, além de oportunidades indiretas em setores como transporte, manutenção, armazenagem, logística e fornecimento de matéria-prima.
A iniciativa faz parte de um movimento de industrialização que busca ampliar o valor agregado da produção dentro do próprio Mato Grosso do Sul. A estratégia combina produção agrícola, geração de energia, biocombustíveis e desenvolvimento de novas cadeias produtivas.
Mais opções para comercializar o milho
Produtor de soja e milho em Nova Alvorada do Sul, Casarin acompanha de perto os efeitos da expansão das usinas de etanol sobre o mercado regional.
Segundo ele, o aumento do número de compradores reduziu a dependência de empresas de outros estados e ampliou as alternativas de comercialização para os agricultores.
“Com mais procura pelo milho, a oferta fica mais equilibrada e isso se reflete no bolso do produtor, com melhores condições de preço. Não ficamos tão dependentes de cooperativas e outros cerealistas e se abriu uma nova possibilidade de comercialização”, afirma.
Na segunda safra de 2025/2026, Mato Grosso do Sul cultivou aproximadamente 2,2 milhões de hectares de milho. Em julho de 2026, a estimativa de produção chegava a 11,139 milhões de toneladas.
Sozinha, a futura unidade da Atvos poderá consumir cerca de 642 mil toneladas do grão por ano, volume equivalente a aproximadamente 5,8% da produção estadual projetada para o ciclo.
Além do impacto sobre o volume comercializado, a instalação de uma indústria próxima às áreas produtoras pode modificar a logística da cadeia. Com um comprador regional, parte do milho pode percorrer distâncias menores antes de ser processada.
Atualmente, Mato Grosso do Sul conta com três usinas de etanol de milho em operação: duas da Inpasa, em Dourados e Sidrolândia, e a Neomille, em Maracaju. A unidade da Atvos deverá ser a quarta do Estado.
No último ciclo divulgado, Mato Grosso do Sul produziu aproximadamente 5 bilhões de litros de etanol, sendo 44% provenientes do milho. Com a entrada da nova capacidade, a participação do cereal na produção estadual poderá ultrapassar a metade.
Milho vira combustível, óleo e alimento animal
O processamento industrial amplia o aproveitamento do grão. Além do etanol, a unidade de Nova Alvorada do Sul deverá produzir aproximadamente 183 mil toneladas de DDG por ano, coproduto rico em proteína utilizado principalmente na alimentação animal, além de cerca de 13 mil toneladas de óleo de milho.
A estimativa de produção de etanol chega a 273 milhões de litros anuais quando a planta estiver operando em plena capacidade.
Para Casarin, a diversificação representa uma oportunidade para outras atividades ligadas ao agronegócio.
“Essas indústrias não produzem apenas etanol. O DDG é um aliado muito interessante para os confinamentos e também pode ser utilizado na formulação de outras rações”, explica.
A nova cadeia pode beneficiar transportadoras, oficinas, empresas de manutenção, laboratórios, fabricantes de ração e produtores de carne, aves e suínos.
Assim, o milho deixa de ser apenas uma commodity destinada a outros mercados e passa a alimentar diferentes segmentos dentro do próprio Estado.
Integração entre cana, milho e biometano
A nova unidade será integrada à Unidade Santa Luzia, que já produz etanol e energia a partir da cana-de-açúcar. A estrutura existente poderá ser compartilhada com a operação de milho, enquanto a biomassa da cana será utilizada como fonte de energia para o processamento do cereal.
A integração também permite ampliar o período de funcionamento do complexo e reduzir a ociosidade durante a entressafra da cana.
Segundo o CEO da Atvos, Bruno Serapião, o milho será complementar à cana e poderá ser integrado a outras rotas de produção, como o biometano.
O grupo também anunciou uma fábrica de biometano para o complexo de Nova Alvorada do Sul. O investimento supera R$ 350 milhões e prevê o aproveitamento de resíduos da produção sucroenergética, como vinhaça e torta de filtro.
A unidade deverá produzir aproximadamente 28,3 milhões de metros cúbicos de biometano por ano. Parte do combustível poderá substituir o diesel utilizado pela própria empresa no transporte pesado.
A expectativa é reduzir o consumo em cerca de 25 milhões de litros de diesel por ano e evitar a emissão de 40 mil a 50 mil toneladas de dióxido de carbono.
Com isso, o complexo deverá concentrar diferentes fontes de energia e produtos: etanol de cana, etanol de milho, bioeletricidade e biometano.
Qualificação será decisiva para os empregos
Embora a construção da fábrica deva gerar um pico de aproximadamente 2 mil postos de trabalho, a operação permanente terá uma estrutura menor, com previsão inicial de pelo menos 100 empregos diretos.
A diferença entre os dois momentos coloca a qualificação profissional como um dos principais desafios para que os benefícios da industrialização permaneçam na região.
A operação de uma planta desse porte demanda profissionais como operadores, eletricistas, mecânicos, técnicos em automação, especialistas de laboratório, trabalhadores de logística, segurança e manutenção.
Em Nova Alvorada do Sul, mais de 300 alunos já são atendidos pelo Senai em cursos relacionados a áreas como elétrica, mecânica, eletrônica, automação e logística.
Para o gerente regional Sul do Senai, Otávio Justa, o avanço da agroindústria e da bioenergia aumenta a demanda por profissionais preparados para lidar com tecnologias mais sofisticadas.
“Nova Alvorada do Sul apresenta uma forte presença dos setores de agroindústria e bioenergia, segmentos vitais que lideram a agenda de descarbonização e inovação no Estado. Esse cenário exige uma mão de obra cada vez mais qualificada para operar tecnologias de vanguarda”, afirma.
Em 2025, a taxa de empregabilidade dos alunos dos cursos técnicos do Senai/MS ultrapassou 85%.
Para o governador Eduardo Riedel, a formação profissional precisa acompanhar o ritmo dos investimentos.
“A indústria chega ao município; transformar esse investimento em mobilidade social é nosso objetivo, viabilizando o acesso da população local aos empregos gerados”, afirma.
Investimento privado depende de estrutura pública
Os investimentos nas usinas são privados, mas o governo estadual atua na criação das condições necessárias para a instalação e expansão dos empreendimentos.
Entre as frentes estão incentivos, segurança jurídica, infraestrutura, licenciamento ambiental e programas de qualificação profissional.
Na entrega da licença de instalação da unidade da Atvos, Riedel destacou a combinação entre energia, produção, emprego e formação profissional.
O licenciamento ambiental também prevê medidas para prevenir, reduzir ou compensar eventuais impactos sociais e ambientais. O Imasul designou equipe técnica para acompanhar projetos relacionados ao setor sucroenergético.
Com população estimada em 23.409 habitantes em 2025, Nova Alvorada do Sul já possui uma economia fortemente ligada à agricultura e à bioenergia. A chegada de novos empreendimentos tende a aumentar a circulação de trabalhadores, caminhões, fornecedores e prestadores de serviços.
O movimento, porém, também pode pressionar setores como moradia, trânsito, saúde, segurança e infraestrutura urbana.
Costa Rica também está no radar
A estratégia de expansão da Atvos inclui ainda Costa Rica, onde a empresa mantém operações com cana-de-açúcar.
Um projeto de unidade de etanol de milho no município prevê investimento superior a R$ 1 bilhão e capacidade para consumir aproximadamente 400 mil toneladas do cereal por ano.
O empreendimento, contudo, ainda está em uma etapa anterior à unidade de Nova Alvorada do Sul e depende da evolução de processos como licenciamento, definição de cronograma e configuração final do projeto.
A diferença entre os estágios reforça que investimentos anunciados não representam, necessariamente, produção ou geração de empregos já efetivadas.
Industrialização ainda precisa virar resultado
Em Nova Alvorada do Sul, a pedra fundamental marca o início de um projeto cuja construção deverá durar aproximadamente dois anos. Até a entrada em funcionamento da unidade, projeções de produção, empregos e arrecadação ainda dependerão da conclusão do empreendimento.
Também será necessário observar como a nova demanda afetará os preços e a origem do milho, a logística regional e o mercado para os coprodutos gerados pela indústria.
O desafio é fazer com que o processo de industrialização ultrapasse os limites das usinas e alcance produtores, trabalhadores, comerciantes e famílias dos municípios envolvidos.
Para Casarin, que durante décadas acompanhou o milho sul-mato-grossense percorrer longas distâncias em busca de compradores, a mudança já é perceptível.
Em vez de apenas enviar matéria-prima para fora do Estado, Mato Grosso do Sul passa a ampliar sua capacidade de transformar o grão dentro de suas próprias fronteiras.
Se os investimentos forem concluídos conforme o planejado e a formação profissional acompanhar a expansão industrial, uma parcela cada vez maior do milho produzido no Estado poderá permanecer na região e gerar valor antes de chegar ao consumidor final.

