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Metade dos estudantes brasileiros diz não ver debate antirracista nas escolas, aponta estudo inédito

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Redação Plenax – Flavia Andrade

Pesquisa revela distância entre discurso de professores e percepção dos alunos sobre desigualdade racial em sala de aula

Um estudo inédito divulgado nesta terça-feira (26) revelou que cerca de metade dos estudantes brasileiros afirma não perceber discussões sobre desigualdade racial dentro das escolas, apesar da existência de leis que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena.

O levantamento “Desigualdade racial na Educação Básica: a percepção de estudantes e professores a partir do Saeb 2023” aponta que a educação antirracista ainda não se consolidou de forma efetiva no ambiente escolar brasileiro.

A pesquisa foi desenvolvida a partir de dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), em parceria com instituições como o Núcleo de Pesquisa Afro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), além dos institutos Alana e Geledés.

Debate racial ainda é pouco percebido pelos alunos

Segundo o estudo, aproximadamente 50% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio dizem não reconhecer o debate sobre desigualdade racial nas aulas.

Os dados contrastam com a percepção dos professores. Enquanto 81,6% dos docentes do ensino fundamental e 71,6% do ensino médio afirmam abordar o tema “sempre” ou “muitas vezes”, menos da metade dos alunos reconhece essa prática.

Para os pesquisadores, o descompasso mostra que a aplicação das políticas de educação antirracista ainda ocorre de forma desigual e limitada.

Escolas privadas apresentam maior percepção de ausência do tema

O levantamento também revelou diferenças entre redes pública e privada.

Nas escolas particulares, 60,8% dos estudantes afirmam não perceber discussões sobre desigualdade racial, índice superior ao registrado na rede pública.

A percepção também varia conforme o perfil racial dos estudantes. Alunos brancos são os que mais relatam ausência do debate em sala de aula, em comparação a estudantes pretos, pardos e indígenas.

Especialistas apontam falhas na aplicação das leis

As leis 10.639/2003 e 11.645/2008 determinaram a inclusão da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena no currículo escolar brasileiro.

Segundo a socióloga Flávia Rios, pesquisadora do Cebrap e professora da Universidade de São Paulo (USP), houve avanços nos últimos 20 anos, mas a implementação ainda depende de iniciativas isoladas de governos, gestores e professores.

Ela afirma que a legislação ainda não foi universalizada nas escolas brasileiras e que falta integração do tema em diferentes disciplinas.

“A educação antirracista precisa ser permanente e transversal, não apenas pontual”, defendem os pesquisadores.

Especialistas defendem fiscalização e formação continuada

Entre as recomendações do estudo estão:

ampliação da formação de professores;
fiscalização do cumprimento da legislação;
fortalecimento de políticas públicas educacionais;
aumento da diversidade racial no corpo docente;
uso de materiais pedagógicos voltados às relações étnico-raciais;
criação de espaços permanentes de diálogo nas escolas.

A coordenadora do programa de Educação e Pesquisa do Instituto Geledés, Suelaine Carneiro, afirma que ainda falta monitoramento efetivo das políticas educacionais.

Ela também destaca a necessidade de engajamento de professores não negros no debate racial.

Discussão ainda aparece de forma pontual nas escolas

Famílias ouvidas pela pesquisa relatam que o tema costuma surgir de forma episódica, especialmente em datas como o Dia da Consciência Negra.

A servidora pública Juliana Couto, mãe de duas meninas negras, afirma que as filhas já sofreram preconceito e defende maior presença de professores negros nas escolas.

Apesar disso, ela reconhece avanços em relação às gerações anteriores.

“Quando eu era criança, praticamente não existia debate racial nas escolas. Hoje, pelo menos, o tema começou a ganhar espaço”, afirmou.

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