Redação Plenax
Além de Campo Grande, filme será exibido em Cuiabá, Bonito e em São Luís do Maranhão
Nascido a partir das vivências do povo Guató em Mato Grosso do Sul, o curta-metragem “Mapago” inicia uma trajetória por importantes festivais de cinema do país. Após a pré-estreia no Museu da Imagem e do Som (MIS-MS), em Campo Grande, que acontece nesta sexta-feira (26), às 19h, o filme terá estreia nacional na Mostra Competitiva de Curtas do 23º Festival de Cinema de Cuiabá – Cinemato (2 de julho), segue para o Bonito CineSur (julho) e também integra a programação do Festival Guarnicê de Cinema, em São Luís (MA), um dos mais tradicionais eventos audiovisuais do Brasil, em agosto.
Dirigido por Marcus Teles e escrito por Gleycielli Nonato Guató e Marcus Teles, “Mapago” apresenta uma narrativa marcada pela ancestralidade, pelo pertencimento e pela resistência indígena contemporânea. O filme carrega uma singularidade rara no audiovisual brasileiro: suas duas protagonistas, Gleycielli Nonato Guató e Serena MC, são mulheres indígenas Guató em contexto urbano também fora das telas, fazendo com que suas próprias vivências atravessem a narrativa e fortaleçam a autenticidade da obra.
Com 24 minutos de duração, o curta acompanha Fagunda, uma mulher Guató que carrega as marcas do afastamento de seu território ancestral, e sua filha Serena, jovem artista que encontra no funk e no hip hop caminhos para afirmar sua identidade indígena na cidade. Entre memórias, ausências e resistências, mãe e filha buscam manter viva a conexão com sua ancestralidade enquanto enfrentam os desafios da vida urbana.
“O filme Mapago foi feito com essa força ancestral dentro do contemporâneo. São mulheres de periferia, são mulheres que sofrem com a desculturalização da sua cultura, perder a cultura e tentar manter a cultura ao mesmo tempo. Isso dá a força dessa linha de que nós podemos ser indígenas em qualquer lugar, no asfalto ou na mata. Nós somos indígenas em qualquer território, porque todo território é nosso”, afirma Gleycielli.
Durante décadas, os povos indígenas foram retratados pelo cinema brasileiro a partir do olhar de não indígenas. Para Gleycielli, Mapago representa uma mudança histórica nesse processo. “Quando eu era criança, eu não me via em filmes, eu não me via em literatura, não me via na arte. Hoje nós temos a oportunidade de falar por nós na literatura, no cinema, na arte em geral. Temos a oportunidade de ser protagonistas de nossas próprias histórias. Nós estamos aqui, estamos produzindo sobre nós, estamos escrevendo sobre nós e estamos em todos os lugares”.
A narrativa também evidencia uma realidade pouco conhecida pelo grande público: a existência dos Guató em áreas urbanas. Considerado extinto por diferentes momentos da história oficial, o povo segue vivo e espalhado por diversos territórios.
“Reexistir agora é o caminho que nós temos. Nós Guató já fomos considerados extintos três vezes e ainda somos extintos dentro da memória coletiva cultural do nosso estado, que acha que não existe Guató. Estamos espalhados por todos os territórios porque fomos obrigados a sair de nossa terra. O asfalto também é território”, reflete a roteirista.
O filme presta ainda uma homenagem a Dona Neguinha, reconhecida por registrar o último canto conhecido na língua Guató. “Mais do que justo homenagear este canto ancestral, homenagear essa voz ancestral para fortalecer as vozes atuais. Dona Neguinha não é passado. Dona Neguinha é presente e é futuro”, destaca Gleycielli.
Para o diretor Marcus Teles, a trajetória que o filme começa a percorrer representa uma conquista coletiva para o audiovisual produzido fora dos grandes centros. “Somos uma produção do interior do interior, sem distribuidora e sem a estrutura que normalmente acompanha grandes produções. Ver Mapago alcançar festivais importantes e compartilhar espaço com obras vindas de centros que já possuem uma cadeia cinematográfica consolidada é, por si só, uma grande vitória”.
Segundo ele, a escolha do Cinemato como estreia nacional possui um significado especial por sua relação direta com a história do povo Guató. “Mato Grosso e Mato Grosso do Sul concentram a presença histórica e contemporânea do povo Guató. Apresentar o filme pela primeira vez em Mato Grosso, um dos territórios que guardam a memória e a ancestralidade desse povo, é algo profundamente simbólico”.
Ao longo da produção, o diretor percebeu que o projeto ultrapassava os limites de uma obra de ficção. “Ficou claro que Mapago não era apenas um filme. Ele havia se tornado também um espaço de encontro entre diferentes gerações, de preservação da memória e de afirmação da resistência cultural dos povos indígenas”.
Além de Gleycielli e Serena MC, o elenco reúne nomes como Suzie Guarani, filha da histórica liderança indígena Marta Guarani, e o ator Fernando Cruz, uma das referências das artes cênicas sul-mato-grossenses.
Para Marcus, levar essa história para festivais nacionais é uma oportunidade de ampliar o debate sobre a diversidade indígena contemporânea e sobre a produção audiovisual realizada em Mato Grosso do Sul.
“Ainda existe uma visão muito limitada sobre quem são os povos indígenas e como vivem na contemporaneidade. Mapago contribui para romper esses estereótipos ao apresentar personagens indígenas enfrentando desafios atuais, sem perder a conexão com sua ancestralidade, sua memória e sua identidade”.
O diretor acredita que o filme dialoga com experiências universais. “Mapago não é apenas um filme sobre o povo Guató. No fundo, ele fala sobre pessoas que, mesmo obrigadas a se adaptar a pressões externas e a contextos muitas vezes adversos, seguem preservando sua essência, sua memória e sua identidade”.
Antes mesmo de iniciar sua trajetória pelos festivais, “Mapago” já vem encontrando o público em diferentes regiões de Mato Grosso do Sul. O curta tem sido exibido em escolas públicas estaduais, onde tem recebido uma recepção calorosa de estudantes, professores e comunidades escolares, ampliando o diálogo sobre identidade, pertencimento, ancestralidade e a presença indígena na sociedade contemporânea.
Este projeto conta com incentivo da PNAB (Programa Nacional Aldir Blanc), do Governo Federal, através do MinC (Ministério da Cultura), executado pelo Governo do Estado, por meio de edital da FCMS (Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul).
SERVIÇO
Pré-estreia de Mapago
Data: 26 de junho
Horário: 19h
Local: Museu da Imagem e do Som (MIS-MS)
Endereço: Avenida Fernando Corrêa da Costa, 559 – Vila Carvalho – Campo Grande (MS)
Estreia nacional
23º Festival de Cinema de Cuiabá – Cinemato
2 de julho
19h20
Mostra Competitiva de Curtas

