Redação Plenax – Flavia Andrade
Especialistas alertam que condição crônica ainda é frequentemente confundida com obesidade e linfedema; avanços tecnológicos ampliam as opções terapêuticas e melhoram a qualidade de vida das pacientes
Dor constante nas pernas, sensação de peso, hematomas frequentes e aumento desproporcional do volume dos membros inferiores são sintomas que fazem parte da rotina de milhares de mulheres brasileiras. Em muitos casos, esses sinais estão relacionados ao lipedema, uma doença crônica que ainda é pouco conhecida e frequentemente confundida com obesidade ou outras alterações vasculares, dificultando o diagnóstico e o início do tratamento adequado.
No Dia Nacional da Saúde, celebrado em 5 de agosto, especialistas reforçam a importância da informação e do diagnóstico precoce como ferramentas essenciais para reduzir a progressão da doença e ampliar a qualidade de vida das pacientes.
Doença pode atingir mais de 12% das mulheres brasileiras
Um estudo publicado no Journal Vascular Brasileiro estima que 12,3% das mulheres adultas no Brasil apresentam sintomas compatíveis com alta probabilidade de lipedema. O levantamento foi incorporado ao Consenso Brasileiro de Lipedema, elaborado pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), que classifica a condição como uma importante questão de saúde pública.
Segundo o consenso, um dos principais desafios é ampliar o conhecimento da doença tanto entre profissionais da saúde quanto na população, reduzindo o elevado índice de subdiagnóstico.
Lipedema vai além do excesso de peso
O lipedema é uma doença caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura, principalmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços.
Ao contrário da obesidade, essa gordura apresenta resistência à perda de peso, mesmo quando a paciente mantém alimentação equilibrada e pratica atividades físicas regularmente.
Além do aumento do volume dos membros, os sintomas mais comuns incluem:
Dor ao toque;
Sensação constante de peso nas pernas;
Inchaço;
Facilidade para o aparecimento de hematomas;
Limitação funcional em estágios mais avançados.
A doença também costuma ser confundida com o linfedema, condição provocada pelo acúmulo de líquido no sistema linfático, além de doenças venosas, o que contribui para o atraso no diagnóstico.
Para a cirurgiã plástica Patrícia Lyra, especialista em lipedema, esse atraso interfere diretamente na evolução da doença.
“O maior desafio hoje não é apenas tratar o lipedema, mas fazer com que ele seja reconhecido precocemente. Muitas mulheres passam anos acreditando que o problema está relacionado apenas ao excesso de peso, quando, na realidade, convivem com uma doença crônica que exige uma abordagem específica.”
Tratamento prioriza qualidade de vida
Nos últimos anos, o tratamento do lipedema passou por uma importante mudança de conceito.
Se anteriormente o foco recaía principalmente sobre a estética, atualmente o objetivo é reduzir a dor, preservar a mobilidade, melhorar a funcionalidade e proporcionar mais qualidade de vida às pacientes.
As diretrizes da SBACV recomendam um tratamento multidisciplinar, que pode incluir:
acompanhamento nutricional;
prática regular de atividade física;
fisioterapia;
terapia compressiva;
controle dos processos inflamatórios;
procedimentos cirúrgicos, quando houver indicação clínica.
Segundo Patrícia Lyra, a cirurgia deixou de ser vista apenas como um procedimento estético.
“Hoje entendemos que o principal objetivo é devolver funcionalidade, reduzir dor, preservar a mobilidade e melhorar a qualidade de vida da paciente. A melhora estética é consequência desse processo.”
Novas tecnologias tornam procedimentos mais seguros
O avanço da medicina regenerativa e das tecnologias cirúrgicas também tem contribuído para a evolução do tratamento do lipedema.
Equipamentos de alta precisão permitem procedimentos menos traumáticos, preservando estruturas vasculares e linfáticas, reduzindo a resposta inflamatória e acelerando a recuperação.
Estudos brasileiros também apontam benefícios de novas técnicas de lipoaspiração voltadas ao tratamento da doença.
Pesquisa desenvolvida por especialistas da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre avaliou procedimentos assistidos por tecnologia de última geração e observou redução do tempo cirúrgico, menor perda sanguínea, diminuição da dor no pós-operatório e retorno mais rápido às atividades cotidianas.
Para a especialista, a incorporação dessas tecnologias representa uma mudança importante na prática cirúrgica.
“Quanto mais precisas forem as tecnologias utilizadas, menor tende a ser o trauma cirúrgico, proporcionando mais segurança e uma recuperação mais rápida para as pacientes.”
Informação continua sendo a principal aliada
Apesar dos avanços terapêuticos, especialistas ressaltam que o maior desafio ainda é fazer com que o lipedema seja reconhecido precocemente.
Quanto mais cedo ocorre o diagnóstico, maiores são as possibilidades de controlar a progressão da doença, reduzir complicações e oferecer um tratamento individualizado, capaz de preservar a funcionalidade e melhorar a qualidade de vida.
Para os profissionais que atuam na área, ampliar o conhecimento da população sobre o lipedema é fundamental para que menos mulheres convivam durante anos com dores, limitações físicas e impactos emocionais provocados por uma doença que, quando identificada precocemente, pode ser tratada de forma mais eficaz.

