*Por Arruda Comunicação
Candidata a deputada federal pelo PSOL propõe políticas públicas pensadas a partir da realidade de quem vive fora dos grandes centros
A distância entre as pessoas e os serviços públicos é um dos pontos que atravessam as propostas de Gleycielli Nonato Guató para a Câmara dos Deputados. Candidata a deputada federal pelo PSOL, a liderança indígena do povo Guató apresenta medidas voltadas especialmente às mulheres, aos jovens, à saúde e à educação no interior de Mato Grosso do Sul, tendo como eixo a descentralização das políticas públicas.
Segundo Gleycielli, construir políticas a partir do interior significa considerar as condições concretas de quem vive em cidades pequenas, comunidades rurais, aldeias, assentamentos e regiões de fronteira.
“Construir políticas públicas a partir do interior significa parar de imaginar o Brasil apenas a partir das capitais. O Brasil também está nas cidades pequenas, nos assentamentos, nas comunidades rurais, nas aldeias, nas regiões de fronteira, nas margens dos rios e nos lugares onde muitas vezes o Estado chega por último”, afirma.
Proteção e autonomia para mulheres do interior
Entre as propostas está o Programa Nacional Mulheres do Interior, que prevê casas de acolhimento regionalizadas, fortalecimento da Patrulha Maria da Penha, atendimento psicológico e medidas de incentivo à autonomia econômica. A proposta parte da avaliação de que mulheres que vivem fora dos grandes centros enfrentam obstáculos adicionais para acessar a rede de proteção, como distância, falta de transporte, dependência financeira e medo de exposição em cidades pequenas.
“Uma mulher não consegue romper um ciclo de violência apenas com uma orientação para denunciar. Ela precisa saber: ‘Se eu denunciar, para onde eu vou? Como vou sustentar meus filhos? Quem vai me proteger?’. É essa rede que o Estado precisa garantir”.
A proposta considera ainda as especificidades de mulheres que vivem em comunidades rurais, assentamentos, aldeias e regiões de fronteira.
Primeiro emprego sem precisar deixar a cidade
Para a juventude, Gleycielli propõe o Programa Nacional Primeiro Trabalho do Interior, com bolsas de formação, cursos técnicos e profissionalizantes, incentivo às empresas que contratem e formem jovens e estímulo ao empreendedorismo. A plataforma também prevê o fortalecimento da presença dos Institutos Federais no interior.
“Eu gostaria de mudar uma realidade muito comum: a do jovem que termina a escola e escuta que, para ter futuro, precisa ir embora. O problema não é o jovem querer conhecer o mundo. O problema é ele não ter a opção de permanecer, se quiser”, pontua.
A proposta contempla diferentes caminhos profissionais, incluindo tecnologia, formação técnica, empreendedorismo, audiovisual, cultura, turismo, economia criativa e produção rural.
Saúde: reduzir a distância entre o paciente e o atendimento
Na saúde, a proposta é criar o Programa Nacional de Saúde das Regiões de Difícil Acesso, com telemedicina, ambulâncias e transporte sanitário adequado, descentralização de exames especializados e mutirões planejados para reduzir filas. “O principal obstáculo é a distância, mas não é somente a distância física. É a distância entre a pessoa e o direito de ser atendida”.
Gleycielli ressalta que as medidas devem funcionar de forma articulada e que a telemedicina não substitui o atendimento presencial, mas pode aproximar especialistas de regiões onde eles não estão disponíveis diariamente.
“Eu defendo uma saúde que olhe para o mapa do Brasil e entenda que o direito à vida não pode depender do CEP. O interior precisa de estrutura permanente, profissionais, transporte e planejamento regional”.
Educação para reconhecer o Brasil real
Outra proposta é o Programa Escola da Diversidade Brasileira, que prevê o cumprimento efetivo da Lei 11.645, formação de professores, produção de materiais didáticos com participação indígena e expansão dos Institutos Federais no interior.
Como mulher indígena Guató, escritora e educadora, Gleycielli defende que a história e a cultura dos povos indígenas estejam presentes na escola durante todo o ano, evitando abordagens estereotipadas ou restritas a datas comemorativas.
“Os povos indígenas não são apenas parte da história do Brasil. Nós somos povos do presente, com línguas, culturas, conhecimentos, territórios, artistas, cientistas, escritores, professores, lideranças e diferentes formas de viver”.
A proposta também considera a diversidade regional. Em Mato Grosso do Sul, Gleycielli defende que estudantes conheçam a história e o presente dos povos Guató, Terena, Kadiwéu, Guarani, Kaiowá, Kinikinau e de outros povos que fazem parte do estado.
Políticas pensadas a partir de quem vive no território
Nascida em Coxim, Gleycielli afirma que sua trajetória como escritora, cineasta, educadora e produtora cultural influenciou diretamente sua maneira de formular as propostas. “Eu conheço a força de quem produz cultura sem estrutura, de quem precisa viajar para buscar oportunidades, de quem enfrenta dificuldades para acessar serviços básicos e de quem tem talento, mas não encontra políticas públicas que considerem sua realidade”.
Conforme a candidata, interiorizar políticas públicas não significa enxergar os municípios apenas como locais que precisam receber recursos, mas reconhecer sua capacidade de produzir conhecimento, cultura, trabalho e soluções.
“O interior também produz conhecimento, cultura, trabalho, ciência, alimentos, arte e soluções. Eu quero levar essa visão para a política federal. Uma política que escute os municípios, que dialogue com as comunidades e que compreenda que o desenvolvimento não pode ficar concentrado”, conclui.

