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Ferrovia e rodovias redesenham logística da celulose e abrem novas oportunidades em MS

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Novos terminais, ramal ferroviário privado e concessão de 870 quilômetros de rodovias ampliam a infraestrutura para acompanhar o crescimento da indústria de celulose

Em Aparecida do Taboado, no leste de Mato Grosso do Sul, caminhões carregados de celulose chegam diariamente a um terminal ferroviário, onde a carga é retirada das carretas, organizada e transferida para vagões que seguem até o Porto de Santos, em São Paulo.

A operação reúne motoristas, operadores, mecânicos, soldadores, maquinistas e profissionais de diferentes áreas em uma cadeia que depende de precisão e integração entre rodovia e ferrovia. Para George Gavioli Santos, Analista de Operações Logística da Suzano, que trabalha há cinco anos na empresa, a rotina exige organização, controle, segurança e trabalho em equipe.

“Tenho orgulho de fazer parte dessa história e pretendo continuar me qualificando para crescer cada vez mais dentro da Suzano”, afirma.

A experiência de George também revela uma transformação que vai além do transporte de cargas. Com a expansão da indústria de celulose, Mato Grosso do Sul passou a enfrentar o desafio de ampliar sua infraestrutura logística para acompanhar o aumento da produção.

Sob a gestão do governador Eduardo Riedel, candidato à reeleição, investimentos públicos e privados vêm sendo direcionados a diferentes modais de transporte. Em fevereiro de 2026, foi assinado o contrato da Rota da Celulose, concessão de aproximadamente 870 quilômetros de rodovias. Paralelamente, está em implantação um ramal ferroviário privado de cerca de 45 quilômetros entre a fábrica da Arauco, em construção em Inocência, e a Malha Norte.

Os projetos têm características diferentes, mas atendem a uma mesma necessidade: garantir que a produção industrial do Estado chegue aos portos com mais segurança, eficiência e previsibilidade.

Onde caminhão e trem se encontram

Aparecida do Taboado ocupa uma posição estratégica nesse sistema por estar conectada à Malha Norte, que segue em direção a São Paulo.

A Suzano inaugurou o terminal intermodal do município em 2017 para escoar parte da produção de Três Lagoas. A Eldorado Brasil também utiliza uma estrutura ferroviária na cidade.

Nesse modelo, os dois modais funcionam de forma complementar. A celulose sai das fábricas por caminhão e, nos terminais, é descarregada, armazenada temporariamente e transferida para os trens, responsáveis pelos trajetos mais longos até o litoral.

“Ver essa integração funcionando de forma sincronizada mostra a relevância dessa atividade para toda a cadeia produtiva”, resume George.

A eficiência dessa operação também tem reflexos no cotidiano. Atrasos de caminhões podem comprometer o fluxo de cargas, enquanto problemas na circulação dos trens podem aumentar a concentração de produtos nos terminais. Para os motoristas, a qualidade das estradas e o tempo de espera também fazem parte dessa equação.

A expansão da logística movimenta ainda atividades que ficam fora dos terminais, como oficinas, alimentação, hospedagem, transporte de trabalhadores, segurança e manutenção ferroviária.

Novas profissões surgem ao redor dos trilhos

A manutenção dos vagões é uma das etapas essenciais para manter a operação em funcionamento. Em Aparecida do Taboado, Bruno da Silva Santos atua há dois anos na supervisão da ANX, onde coordena uma equipe formada por soldadores, mecânicos e profissionais administrativos.

“Minha principal responsabilidade é garantir que todas as atividades sejam executadas com qualidade, agilidade e segurança, assegurando a disponibilidade dos vagões para a operação ferroviária”, explica.

Para ele, cada reparo realizado está diretamente ligado ao funcionamento de toda a cadeia logística.

“Cada serviço realizado ajuda a garantir que o transporte ferroviário aconteça de forma segura e sustentável”, afirma.

Assim como George, Bruno destaca a participação de trabalhadores da própria região.

“Tenho orgulho de ver profissionais da região desenvolvendo suas carreiras em diferentes funções e contribuindo diretamente para o crescimento do terminal.”

A expansão da infraestrutura, portanto, também cria demanda por profissionais qualificados e pode estimular pequenos negócios e serviços nos municípios envolvidos.

Ferrovia chega mais perto das fábricas

Em Inocência, a implantação de um ramal privado de aproximadamente 45 quilômetros deverá criar uma conexão direta entre a fábrica da Arauco e a Malha Norte. O investimento anunciado é de cerca de R$ 1,2 bilhão.

Quando a unidade entrar em operação, a previsão é de uma produção anual de 3,5 milhões de toneladas de celulose, que poderá ser transportada pelos trilhos até o Porto de Santos.

A principal diferença em relação ao modelo tradicional está no ponto de embarque. Com o ramal, os vagões poderão ser carregados dentro do próprio complexo industrial.

“Isso reduz a necessidade de transportar toda a produção por rodovia até um terminal mais distante e pode diminuir custos, consumo de combustível e a circulação de veículos pesados em trajetos longos”, explica Riedel.

A mudança pode representar também impactos para quem utiliza as rodovias. A redução do número de caminhões em determinados trechos pode contribuir para diminuir o desgaste do pavimento e os riscos associados ao tráfego de veículos pesados.

A Eldorado Brasil também estuda uma ligação direta entre sua fábrica em Três Lagoas e a Malha Norte. O projeto, porém, ainda depende de decisões empresariais, regulatórias e ambientais e não está em execução.

Rodovias continuam essenciais

A expansão ferroviária não diminui a importância das rodovias para a cadeia produtiva. A madeira utilizada pelas indústrias continua sendo transportada principalmente por caminhões, que dividem as mesmas estradas com trabalhadores, moradores, ambulâncias, ônibus escolares e comerciantes.

Nesse cenário, a Rota da Celulose reúne trechos das rodovias MS-040, MS-338, MS-395, BR-262 e BR-267. A concessão prevê 30 anos de contrato e aproximadamente R$ 10,1 bilhões em investimentos, operação e manutenção.

Entre as intervenções previstas estão 115 quilômetros de duplicações, 457 quilômetros de acostamentos, 245 quilômetros de terceiras faixas e 38 quilômetros de contornos urbanos. Ao final das intervenções, a previsão é de que os 870 quilômetros concedidos tenham acostamentos.

Na prática, essas estruturas têm funções diretamente relacionadas à segurança viária. Acostamentos oferecem espaço para paradas emergenciais, terceiras faixas facilitam ultrapassagens e contornos urbanos podem retirar o tráfego pesado das áreas centrais dos municípios.

As obras serão executadas ao longo do período de concessão. A duplicação da BR-262 entre Campo Grande e Ribas do Rio Pardo, por exemplo, tem investimento estimado em R$ 600 milhões e previsão de execução entre o segundo e o sexto ano do contrato.

A Agência Estadual de Regulação acompanha a execução e o cumprimento dos prazos.

Para Riedel, a concessão também exigirá fiscalização permanente.

“A gestão será avaliada pela capacidade de fiscalizar prazos, corrigir atrasos e garantir que a infraestrutura atenda à produção sem ignorar quem utiliza as mesmas estradas para trabalhar, estudar ou procurar atendimento médico”, afirma.

Crescimento econômico exige infraestrutura

A expansão da indústria de celulose representa geração de empregos, arrecadação, novos serviços e oportunidades, mas também aumenta a pressão sobre a infraestrutura existente.

Mais fábricas significam maior circulação de cargas e podem ampliar o movimento de caminhões, pressionar travessias urbanas e elevar os riscos em determinados trechos quando as estradas não acompanham o ritmo do crescimento.

Por isso, os efeitos da logística ultrapassam questões como custo e tempo de transporte. Para quem mora nas regiões cortadas pelas rotas, a infraestrutura também interfere no deslocamento diário, no acesso a serviços e na segurança.

Para um trabalhador, isso pode significar o tempo necessário para chegar ao emprego. Para uma ambulância, o percurso até um hospital. Para um comerciante, o movimento de pessoas na região. Para o caminhoneiro, a possibilidade de completar a viagem com segurança e retornar para casa.

“A integração entre rodovia e ferrovia pode tornar Mato Grosso do Sul mais competitivo, mas seu resultado também será medido pela redução de acidentes, pela conservação das estradas e pelos empregos criados nos terminais e serviços locais”, afirma Riedel.

Enquanto toneladas de celulose deixam Aparecida do Taboado diariamente em direção ao litoral, trabalhadores como George acompanham de perto uma cadeia formada por trilhos, caminhões e máquinas, mas também por qualificação profissional, geração de empregos e novas perspectivas.

O desafio para os próximos anos será fazer essa estrutura crescer na mesma velocidade da produção, sem transformar os corredores de desenvolvimento em áreas de risco. A eficiência da economia depende de uma logística capaz de transportar mais, mas o desenvolvimento também precisa chegar a quem vive e trabalha às margens dessas rotas.

É nesse encontro entre infraestrutura, segurança e oportunidade que os grandes investimentos deixam de ser apenas números e passam a transformar a vida nos municípios de Mato Grosso do Sul.

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