Redação Plenax – Flavia Andrade
Com menos de 9 mil habitantes, município vive aumento de empregos, novos negócios e retorno de antigos moradores antes mesmo do início da produção de celulose
Durante anos, Leandro Rodrigues dos Santos precisou deixar Inocência em busca de oportunidades. Trabalhou em São Paulo e Minas Gerais até perceber que o cenário começava a mudar na cidade onde nasceu e decidiu voltar para casa.
Com a família, ele planejava construir um hotel de 14 apartamentos. A confirmação da fábrica de celulose da Arauco e o aumento da demanda por hospedagem fizeram o projeto crescer antes mesmo de a indústria entrar em operação. O empreendimento passou a ter 28 quartos e hoje emprega sete moradores.
“As pessoas estão voltando. As famílias estão se reunindo de novo”, contou o empresário em depoimento divulgado pela Arauco.
A história de Leandro ajuda a dimensionar, em escala humana, a transformação provocada pelo Projeto Sucuriú. Em uma cidade com menos de 9 mil habitantes, hotéis ampliaram a capacidade, restaurantes estenderam o horário de funcionamento, novos negócios surgiram e milhares de trabalhadores passaram a circular pelo comércio e pelas estradas do município.
O movimento, porém, traz uma equação que vai além da geração de empregos. Quanto maior a atividade econômica, maior também a demanda por moradia, saneamento, saúde, educação, segurança, transporte e mão de obra qualificada.
Uma indústria em escala muito maior que a cidade
A Arauco prevê investimento de US$ 4,6 bilhões na construção da fábrica de celulose, com capacidade projetada de 3,5 milhões de toneladas por ano a partir do fim de 2027.
Em junho, cerca de 60% das obras do Projeto Sucuriú estavam concluídas. Durante o pico da construção, a empresa estima a presença de até 14 mil trabalhadores. Após o início da operação, a previsão é de aproximadamente 6 mil empregos nas áreas industrial, florestal e logística.
O impacto no mercado de trabalho de Inocência já aparece antes da inauguração. Entre janeiro e maio de 2026, o município registrou saldo de 3.471 contratações industriais, conforme os dados reunidos no levantamento que embasa esta reportagem. Somente em janeiro foram 1.081 empregos formais.
A movimentação também alcança os pequenos negócios. Segundo informações divulgadas pela Arauco, um empreendimento do setor de alimentação que começou com três funcionários passou a empregar mais de dez pessoas. A Associação Comercial relatou ainda a abertura de quase duas empresas por semana e a ampliação dos horários de atendimento.
O resultado é uma mudança na dinâmica de uma cidade acostumada a perder moradores para outros centros em busca de estudo e trabalho. Agora, parte desse fluxo começa a se inverter.
Qualificação vira peça central para ocupar as novas vagas
O tamanho da indústria também muda o perfil profissional exigido pelo mercado local. A operação demanda trabalhadores de áreas como elétrica, mecânica, automação, logística, química, segurança, manutenção e operação industrial.
Sem formação suficiente, parte das vagas mais qualificadas pode ser ocupada por profissionais de outras regiões. Para enfrentar esse desafio, o Governo de Mato Grosso do Sul inaugurou, em abril de 2025, uma Casa do Trabalhador em Inocência.
A unidade, vinculada à Funtrab e integrada ao MS Qualifica, atua na intermediação de mão de obra, encaminhamento de candidatos e aproximação entre empresas e trabalhadores.
Na época da inauguração, o município acumulava 1.385 admissões e saldo positivo de 730 empregos no ano. A estrutura também permite que moradores participem de processos seletivos e recebam orientação sem precisar se deslocar para outras cidades.
Outra frente de capacitação é o programa Abrace Este Projeto, desenvolvido pela Arauco em parceria com o Senai. Foram disponibilizadas 560 vagas gratuitas em cursos de automação, celulose e papel, eletrotécnica, logística, mecânica e química, com bolsas mensais de até R$ 1,5 mil. As formações são distribuídas entre Inocência, Paranaíba e Três Lagoas.
Uma feira de profissões realizada em seis municípios da região recebeu mais de 2,3 mil candidatos. A proposta é formar 750 operadores de máquinas e 50 mecânicos para a colheita florestal, além de ampliar a participação de mulheres, pessoas com deficiência e profissionais em transição de carreira.
Segundo Rodrigo Bastos, gestor da região Costa Leste do Senai, a preparação precisa ocorrer antes da abertura definitiva das vagas.
“Inocência está recebendo um dos maiores investimentos do país, com um crescimento previsto na população e na empregabilidade. Nesse cenário, a qualificação profissional é um diferencial”, afirmou.
Mais de 500 alunos estão atualmente em formação para atender à demanda projetada com a entrada da fábrica em operação. A maior concentração está nas áreas de manutenção e operação industrial, com cursos técnicos de Mecânica, Eletrotécnica, Eletromecânica e Automação, além de formações ligadas à Química e à produção de celulose.
Crescimento aumenta pressão sobre moradia e serviços
O mesmo movimento que aumenta a ocupação de hotéis e o faturamento do comércio também amplia a pressão sobre a estrutura urbana.
Mais trabalhadores e moradores significam maior procura por casas, escolas, atendimento médico, saneamento, segurança e assistência social.
A moradia aparece entre os principais desafios. A Arauco iniciou a construção de uma vila com 620 residências destinadas aos futuros trabalhadores da operação industrial, com entrega prevista para o segundo semestre de 2027.
A estrutura pode reduzir parte da pressão sobre o mercado imobiliário, mas tem alcance específico: atende trabalhadores vinculados à empresa e não substitui políticas habitacionais voltadas a comerciantes, prestadores de serviços, funcionários de outras empresas e famílias de menor renda.
No saneamento, está previsto investimento de R$ 5 milhões para ampliar a Estação de Tratamento de Esgoto, elevando a capacidade de atendimento de aproximadamente 5,4 mil para 11,7 mil habitantes. O material que embasa esta reportagem, porém, ressalva que o estágio atual da obra ainda precisa ser confirmado.
O Plano Estratégico Socioambiental do Projeto Sucuriú prevê R$ 85 milhões em ações relacionadas a saúde, educação, assistência social, segurança pública, habitação, transporte, trabalho e renda, saneamento, ordenamento territorial e conservação ambiental.
Outra frente, estimada em R$ 9,2 milhões, contempla uma nova sede para o Cras, uma Casa de Passagem e a ampliação do Centro Educacional Infantil Professor Olivalto Elias. A capacidade da unidade deverá passar de 868 para 948 alunos, com entregas previstas para o primeiro semestre de 2027.
“Essas intervenções mostram que a chegada da indústria não afeta apenas seus empregados. A população flutuante e os novos moradores ampliam a demanda por creches, saúde, proteção social e infraestrutura urbana”, afirmou Eduardo Riedel.
O desafio de fazer a riqueza circular pela região
Outro ponto que começa a ganhar importância é a participação das empresas locais na cadeia econômica criada pelo projeto.
Grandes empreendimentos podem movimentar bilhões de reais, mas parte significativa dos fornecedores e serviços pode estar concentrada fora do município. Para ampliar a participação regional, o programa Conexão Arauco, desenvolvido com participação do Sebrae e da Prefeitura de Inocência, qualificou 71 empresas para atuar como fornecedoras do projeto.
Segundo balanço divulgado no fim de 2025, a iniciativa havia movimentado R$ 95 milhões em negócios.
O resultado mostra o potencial de integração entre a indústria e a economia local, mas também abre questões sobre quanto desses recursos permanece efetivamente em Inocência, quais serviços são contratados de empresas do município e quantos empregos são gerados a partir dessas relações comerciais.
Infraestrutura precisa acompanhar a transformação
O crescimento de Inocência também exige investimentos na estrutura que conecta a cidade à região.
O Governo de Mato Grosso do Sul participa de intervenções na MS-377, principal acesso à fábrica, além da pavimentação de um trecho da MS-316 entre Inocência e Paraíso das Águas.
Em abril de 2025, o município recebeu ainda um novo aeródromo, com investimento anunciado de aproximadamente R$ 20 milhões. A estrutura conta com pista de pouso e decolagem, taxiway, pátio para aeronaves e equipamentos de segurança operacional.
A transformação de Inocência, portanto, acontece em duas frentes simultâneas: de um lado, a indústria amplia empregos, negócios e circulação de renda; de outro, o município precisa expandir a infraestrutura pública para atender uma população que tende a crescer.
A fábrica pertence à Arauco, mas os efeitos de uma população maior vão muito além dos limites do empreendimento. Estradas, escolas, unidades de saúde, moradias, saneamento, segurança e assistência social passam a ser ainda mais demandados.
“O objetivo não pode ser apenas comemorar os empregos temporários da construção. É preciso preparar a transição para 2027, quando o canteiro começará a dar lugar à operação permanente”, afirmou Riedel.
Uma cidade que já começa a mudar antes da fábrica
A experiência de Inocência mostra que os efeitos de um grande investimento industrial podem começar muito antes da primeira tonelada de celulose sair da fábrica.
O município já registra aumento de empregos, abertura de empresas, maior circulação de trabalhadores e expansão de serviços. Ao mesmo tempo, surgem desafios relacionados à moradia, infraestrutura urbana, saneamento e qualificação profissional.
Para moradores que passaram anos longe, a mudança tem um significado ainda mais direto.
Leandro saiu de Inocência para encontrar oportunidades em outros estados. Quando decidiu voltar, encontrou uma cidade em transformação. O hotel que a família imaginava com 14 quartos precisou ser ampliado para 28 e já emprega sete pessoas.
A fábrica está prevista para começar a produzir no fim de 2027. Até lá, o desafio de Inocência será transformar o impulso provocado pela construção em um crescimento capaz de permanecer depois que o grande canteiro de obras deixar de ser parte da paisagem.

