Redação Plenax – Flavia Andrade
Falta da vitamina não se manifesta apenas por anemia e pode provocar formigamento, alterações de equilíbrio, memória e cognição; diagnóstico precoce reduz risco de danos permanentes
A deficiência de vitamina B12 pode passar despercebida durante meses ou até anos antes de apresentar sinais claros. Embora seja frequentemente associada à anemia, a falta do nutriente também pode afetar o sistema nervoso e provocar sintomas como formigamento, perda de sensibilidade, alterações de equilíbrio, dificuldade de concentração e problemas de memória.
A vitamina B12, também chamada de cobalamina, é essencial para a formação das células do sangue, a síntese do DNA e o funcionamento adequado do sistema nervoso. O nutriente também participa da manutenção da mielina, estrutura que reveste e protege as fibras nervosas.
Segundo o National Institutes of Health (NIH), a deficiência pode atingir cerca de 3,6% dos adultos nos Estados Unidos, enquanto níveis considerados insuficientes são mais frequentes. A ocorrência também tende a aumentar em determinados grupos, especialmente entre idosos e pessoas com problemas de absorção intestinal ou ingestão inadequada de vitamina B12.
No Brasil, a ausência de estudos populacionais abrangentes dificulta estimar a prevalência nacional. Na prática clínica, entretanto, a deficiência é uma preocupação especialmente para pessoas com fatores de risco relacionados à alimentação, ao envelhecimento e à absorção do nutriente.
Por que a vitamina B12 é importante?
A B12 é uma vitamina hidrossolúvel que atua em processos fundamentais do organismo. Entre suas funções estão a formação das células sanguíneas, a síntese do DNA e a manutenção das células nervosas. A deficiência pode levar à anemia megaloblástica e também provocar manifestações neurológicas.
Um dos motivos pelos quais o problema pode permanecer oculto por bastante tempo é a capacidade do organismo de armazenar grandes quantidades da vitamina, principalmente no fígado. Dessa forma, quando a ingestão diminui ou a absorção é prejudicada, os sintomas podem levar anos para aparecer.
Como ocorre a absorção?
A absorção da vitamina B12 envolve diferentes etapas. A vitamina presente nos alimentos é liberada com a participação do ácido gástrico e, posteriormente, se liga ao chamado fator intrínseco, uma proteína produzida no estômago.
O complexo formado chega ao intestino delgado, onde a B12 é absorvida. Alterações no estômago ou no intestino podem, portanto, comprometer esse processo e provocar deficiência mesmo quando a alimentação contém quantidades adequadas do nutriente.
Sintomas podem aparecer de formas diferentes
Os sinais da deficiência variam conforme a intensidade e a duração do quadro. Entre os sintomas possíveis estão:
cansaço e fraqueza;
palidez;
falta de ar;
palpitações;
dificuldade de concentração;
formigamento ou dormência nas mãos e nos pés;
alterações de sensibilidade;
problemas de equilíbrio;
dificuldade de memória;
alterações cognitivas;
mudanças de humor e depressão;
inflamação da língua.
A deficiência prolongada pode provocar danos neurológicos. Um ponto importante é que alterações no sistema nervoso podem ocorrer mesmo quando o paciente não apresenta anemia megaloblástica.
Por isso, sintomas neurológicos persistentes, principalmente quando associados a fatores de risco, devem ser avaliados por um profissional de saúde.
Quem está mais sujeito à deficiência?
Alguns grupos apresentam maior risco de desenvolver deficiência de vitamina B12. Entre eles estão:
Idosos: alterações relacionadas à produção de ácido gástrico podem dificultar a absorção da B12 presente naturalmente nos alimentos.
Veganos e alguns vegetarianos: a vitamina B12 está naturalmente presente principalmente em alimentos de origem animal. Pessoas que não consomem esses alimentos precisam avaliar fontes fortificadas ou suplementação adequada.
Pessoas submetidas à cirurgia gastrointestinal ou bariátrica: procedimentos que alteram o estômago ou o intestino podem prejudicar a absorção da vitamina.
Pacientes com doenças gastrointestinais: doença celíaca, doença de Crohn e outras condições que comprometem o intestino delgado podem aumentar o risco.
Pessoas com anemia perniciosa: nessa doença autoimune, o organismo não produz adequadamente o fator intrínseco necessário para a absorção da vitamina B12.
Usuários prolongados de metformina: o medicamento utilizado no tratamento do diabetes está associado a alterações nos níveis de B12, especialmente com o uso prolongado.
Usuários de inibidores da bomba de prótons: medicamentos como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol reduzem a acidez gástrica e também estão associados a maior risco de deficiência em determinados pacientes.
A exposição ao óxido nitroso, inclusive em uso recreativo, também pode interferir no metabolismo da vitamina B12 e está associada a manifestações neurológicas em determinadas situações.
Gestantes, lactantes, crianças e adolescentes também merecem atenção quando existe ingestão inadequada ou alguma condição que prejudique a absorção.
Diagnóstico exige avaliação individualizada
A deficiência de B12 não deve ser diagnosticada apenas pela presença de sintomas ou por um único exame. A avaliação costuma considerar histórico clínico, alimentação, medicamentos utilizados, fatores de risco e resultados laboratoriais.
A dosagem sérica de vitamina B12 é geralmente utilizada na avaliação inicial. Em situações nas quais o resultado está baixo ou em uma faixa limítrofe, o médico pode solicitar exames complementares, como o ácido metilmalônico, que é um marcador mais sensível do status da vitamina. A homocisteína também pode aumentar na deficiência, mas sofre influência de outros fatores e é menos específica.
Por isso, um resultado isolado não deve ser interpretado sem considerar o contexto clínico do paciente.
Tratamento depende da causa
Quando a deficiência é confirmada, o tratamento consiste na reposição de vitamina B12. A dose, a duração e a forma de administração dependem da causa, da gravidade e da capacidade de absorção do paciente.
Em alguns casos, a reposição oral é suficiente. Quando existe comprometimento importante da absorção, anemia perniciosa ou deficiência grave, a administração por via intramuscular pode ser indicada. Doses orais elevadas também podem ser eficazes em determinadas situações, segundo avaliação médica.
Mais do que repor a vitamina, é fundamental identificar por que a deficiência ocorreu. Sem tratar ou controlar a causa, o problema pode voltar.
Alimentação ajuda na prevenção
A vitamina B12 está naturalmente presente em alimentos de origem animal, como:
carnes;
peixes e frutos do mar;
frango;
ovos;
leite e derivados.
Alguns alimentos de origem vegetal podem conter B12 quando são fortificados, como determinados cereais e produtos nutricionais. Para pessoas que não consomem alimentos de origem animal, a suplementação ou o consumo adequado de alimentos fortificados pode ser necessário.
A recomendação diária para adultos é de 2,4 microgramas de vitamina B12, com necessidades maiores durante a gestação e a amamentação.
A prevenção, entretanto, não significa que todas as pessoas devam fazer suplementação por conta própria. Indivíduos com fatores de risco devem conversar com um profissional de saúde sobre a necessidade de avaliação laboratorial e reposição.
E quando a B12 aparece alta no exame?
A vitamina B12 apresenta baixa toxicidade e não possui um limite superior de ingestão estabelecido pelo NIH por falta de evidências de efeitos adversos em doses elevadas. Ainda assim, um nível sanguíneo alto não deve ser interpretado automaticamente como sinal de que a pessoa está consumindo vitamina em excesso.
Resultados elevados podem ter diferentes explicações e precisam ser analisados de acordo com o contexto clínico. Por isso, alterações persistentes nos exames também merecem avaliação médica.
Atenção aos sinais
Por ser capaz de permanecer armazenada no organismo por longos períodos, a deficiência de vitamina B12 pode evoluir silenciosamente. O problema ganha importância quando surgem sintomas neurológicos, que podem ocorrer mesmo sem anemia e, em casos prolongados, deixar sequelas.
Cansaço persistente, formigamentos, alterações de equilíbrio, dificuldades cognitivas ou outros sintomas compatíveis não significam necessariamente deficiência de B12, mas justificam avaliação profissional quando persistentes, especialmente em pessoas que fazem parte dos grupos de risco.
Importante: a suplementação de vitamina B12 não deve substituir a investigação da causa dos sintomas. A indicação, a dose e a forma de tratamento devem ser definidas por profissional de saúde.

