Redação Plenax – Flavia Andrade
Artista, escritora e cineasta defende mais investimentos no interior, valorização da cultura indígena e fortalecimento da economia criativa como instrumentos de desenvolvimento regional
Para Gleycielli Nonato Guató, candidata a deputada federal pelo PSOL, falar sobre cultura é também discutir desenvolvimento, identidade, memória e geração de oportunidades. Nascida e criada em Coxim, no norte de Mato Grosso do Sul, a artista, escritora, educadora, atriz, cineasta e produtora cultural construiu sua trajetória a partir do interior do Estado e, agora, pretende levar essa experiência para o debate nacional.
Entre suas principais propostas para a Câmara dos Deputados está a descentralização dos recursos federais destinados à cultura, com o objetivo de ampliar o acesso de municípios do interior a políticas públicas e oportunidades de financiamento.
Uma das propostas apresentadas por Gleycielli é o Programa Brasil das Culturas Vivas, que prevê a destinação direta de parte dos recursos federais da cultura aos municípios do interior, por meio de editais permanentes e iniciativas voltadas à valorização da cultura indígena, das comunidades quilombolas, dos povos de terreiro e dos artistas populares.
A proposta aponta como possíveis fontes de financiamento recursos do Fundo Nacional de Cultura, da Política Nacional Aldir Blanc e da Lei Rouanet.
Para Gleycielli, a cultura deve ser entendida como uma política capaz de transformar territórios e fortalecer comunidades.
“Tudo pode contribuir para aldear a política. A cultura, a literatura, o cinema e a educação podem transformar vidas, proteger o nosso bioma e transformar a maneira como as pessoas enxergam a nossa existência.”
Do interior para o cenário nacional
A própria trajetória da candidata é apresentada como exemplo da produção cultural que nasce longe dos grandes centros. Em Coxim, Gleycielli atuou como professora e participou de iniciativas artísticas e coletivas, construindo uma carreira que posteriormente ultrapassou as fronteiras do município.
Na literatura, publicou livros, participou de festivais e integrou iniciativas nacionais de circulação literária. No audiovisual, esteve envolvida em produções como Índia do Rio, A Voz de Guadakan e Mapago.
Também presidiu o Fórum Estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul e participou de diferentes espaços de discussão e participação cultural.
A experiência reforça uma das principais bandeiras de sua plataforma: criar condições para que artistas, produtores, coletivos e comunidades possam produzir e desenvolver seus projetos sem precisar deixar o interior em busca de oportunidades nas capitais.
“Eu acredito que a cultura, a literatura, o cinema e a educação são ferramentas para transformar vidas. Quando fortalecemos essas áreas, fortalecemos também as pessoas, suas histórias, suas identidades e os territórios onde elas vivem”, afirma.
Economia criativa como vetor de desenvolvimento
A descentralização dos recursos aparece associada a outra proposta: o Programa de Incentivo à Economia Criativa do Pantanal.
A iniciativa prevê ações de estímulo a atividades como turismo cultural, audiovisual, gastronomia, artesanato e tecnologia. A intenção é ampliar o papel da cultura na geração de emprego e renda e transformar a identidade cultural e ambiental do Pantanal em uma oportunidade de desenvolvimento regional.
Na visão da candidata, investir na economia criativa significa reconhecer que a produção cultural também movimenta cadeias econômicas e pode criar novas perspectivas para quem vive no interior.
“Na literatura, no cinema e na educação, aprendemos que a força está na construção coletiva das histórias. A cultura é uma forma de transformar vidas e também de transformar a maneira como as pessoas enxergam a nossa existência.”
Cultura indígena no centro das políticas públicas
A valorização dos povos indígenas ocupa espaço central nas propostas de Gleycielli. Como liderança do povo Guató, ela defende que comunidades tradicionais tenham participação efetiva na construção das políticas que impactam seus territórios e suas culturas.
O Programa Brasil das Culturas Vivas prevê incentivos específicos para a produção indígena, além de iniciativas voltadas a comunidades quilombolas, povos de terreiro e artistas populares.
Para Gleycielli, a política cultural precisa reconhecer a diversidade de histórias, conhecimentos e formas de expressão existentes no país.
“A política precisa compreender que existem muitas culturas, muitas histórias e muitas formas de construir conhecimento. A nossa voz precisa estar dentro dessas decisões.”
A proposta, portanto, não se limita à distribuição de recursos. Também busca ampliar o protagonismo das comunidades tradicionais na produção e na preservação de suas próprias narrativas.
Mais oportunidades fora dos grandes centros
A experiência de quem produz cultura no interior está no centro da defesa pela descentralização. Para Gleycielli, muitos artistas e produtores ainda enfrentam dificuldades para acessar editais, recursos e estruturas de apoio porque grande parte das oportunidades está concentrada nas capitais e nos grandes centros.
Levar recursos diretamente aos municípios seria, nesse sentido, uma forma de fortalecer os agentes culturais em seus próprios territórios e permitir que novas produções surjam a partir de diferentes regiões do Estado.
“Eu venho do interior. Eu sei o que significa construir cultura longe dos grandes centros. Por isso acredito que o interior também precisa ter acesso às políticas públicas, aos recursos e às oportunidades para contar suas próprias histórias.”
A proposta também relaciona cultura, turismo, tecnologia e economia criativa como áreas capazes de gerar novas oportunidades para Mato Grosso do Sul, especialmente em regiões com forte identidade cultural e ambiental.
No centro da plataforma está uma visão de cultura como direito, memória, identidade e instrumento de desenvolvimento. Para Gleycielli, levar essa perspectiva de Coxim para Brasília significa defender que as políticas culturais nacionais sejam construídas também a partir das realidades de quem vive e produz longe dos grandes centros.
A aposta é que, ao ampliar o acesso a recursos e fortalecer os territórios, mais artistas, comunidades e iniciativas possam permanecer em suas regiões, contar suas próprias histórias e transformar cultura em oportunidade de futuro.

