Redação Plenax – Flavia Andrade
Mercado chinês, usinas flex e novas tecnologias ampliam as oportunidades comerciais e fortalecem a cultura como alternativa para a segunda safra
O sorgo ganha espaço no agronegócio brasileiro e começa a atrair o interesse de novos mercados consumidores. Tradicionalmente utilizado na alimentação animal, o grão passa a conquistar oportunidades na produção de etanol e no comércio internacional, especialmente com a ampliação das exportações para a China. A combinação entre demanda crescente, evolução tecnológica e maior competitividade pode levar a área cultivada no país a dobrar até 2035.
Segundo Enilson Nogueira, consultor e analista de mercado agrícola vinculado ao Grupo Tático de Aumento de Produtividade (GETAP) e à consultoria Céleres, a expansão está relacionada principalmente à abertura de novos canais de comercialização.
Um dos destaques são as usinas flex, que utilizam diferentes matérias-primas na fabricação de etanol, incluindo cana-de-açúcar e grãos. Em regiões como o Vale do Araguaia, em Mato Grosso, além de áreas de Goiás, Maranhão e Bahia, o sorgo surge como alternativa para complementar o milho, sobretudo em locais onde as condições climáticas aumentam os riscos da segunda safra.
Mais adaptada a períodos de menor disponibilidade de água, a cultura pode oferecer maior estabilidade produtiva em determinadas condições. Outro fator que favorece sua utilização é o preço, geralmente entre 10% e 15% inferior ao do milho, segundo o especialista.
O potencial de consumo também chama a atenção. Em uma indústria com demanda de 30 milhões de toneladas de grãos, a substituição de apenas 5% desse volume por sorgo representaria um mercado de 1,5 milhão de toneladas, equivalente a quase 30% da produção brasileira da cultura.
China amplia oportunidades para o grão brasileiro
Além da demanda interna, o mercado internacional passou a representar uma nova frente de crescimento. A habilitação de exportadores e armazéns brasileiros para comercializar sorgo com a China abriu caminho para ampliar a presença do produto nacional em um dos principais mercados consumidores do cereal.
Maior consumidor mundial de sorgo, o país asiático utiliza o grão tanto na alimentação animal quanto na fabricação de bebidas tradicionais, como o baijiu, destilado produzido a partir de cereais.
A ampliação das vendas externas também pode contribuir para melhorar a formação de preços no mercado brasileiro. Com referências comerciais vinculadas às exportações, o sorgo ganha novas possibilidades de negociação e aumenta sua competitividade em relação ao milho.
Para os produtores, a diversificação dos compradores representa uma oportunidade de reduzir a dependência de um único segmento. Além das indústrias de alimentação animal, o grão passa a contar com alternativas de comercialização junto a exportadores e usinas de etanol.
Exportações podem saltar para 2 milhões de toneladas
As projeções para o ciclo 2025/26 apontam que as exportações brasileiras de sorgo podem atingir aproximadamente 2 milhões de toneladas. No período anterior, o volume ficou próximo de 100 mil toneladas.
Se confirmada, a estimativa representará um crescimento expressivo e poderá estimular novos investimentos na produção. O volume projetado corresponde a uma área equivalente a quase 400 mil hectares, dependendo da produtividade das lavouras.
O avanço das vendas externas, associado ao consumo das usinas brasileiras e de outros mercados, fortalece as perspectivas para a expansão da cultura.
Atualmente estimada em cerca de 2,2 milhões de hectares, a área plantada com sorgo poderá dobrar até 2035, conforme a avaliação de Enilson Nogueira. A projeção considera a continuidade do crescimento da demanda e dos investimentos em tecnologia.
Com essa expansão, o cereal poderá figurar entre as três culturas mais importantes do país em área plantada, considerando a produção de grãos, ampliando sua participação especialmente na segunda safra.
Avanço tecnológico melhora produtividade
A evolução das sementes e das técnicas de manejo também contribui para aumentar a competitividade do sorgo. Durante muitos anos, a oferta limitada de materiais genéticos e de tecnologias específicas restringiu o potencial produtivo da cultura e dificultou sua consolidação como alternativa ao milho.
Esse cenário começou a mudar nos últimos cinco anos, período em que o aumento das perspectivas de mercado estimulou empresas a ampliar os investimentos em desenvolvimento de sementes e soluções de manejo.
Segundo o consultor, algumas lavouras já alcançam produtividades entre 130 e 140 sacas por hectare na segunda safra, aproximando-se dos resultados obtidos pelo milho em determinadas condições de cultivo.
A combinação entre produtividade, custos de produção e maior tolerância a períodos de menor disponibilidade hídrica torna o sorgo uma opção para propriedades localizadas em regiões com maior risco climático. A cultura também permite diversificar o planejamento agrícola e ampliar as alternativas de comercialização.
Com a presença de compradores de diferentes segmentos, a decisão de plantio passa a considerar não apenas o desempenho agronômico, mas também as oportunidades de mercado disponíveis em cada região.
Premiação vai reconhecer produtores de sorgo
O crescimento da cultura também começa a ganhar espaço em iniciativas de valorização dos agricultores. O GETAP (Grupo Tático de Aumento da Produtividade) anunciará, no final de novembro, durante evento em Indaiatuba (SP), os primeiros vencedores da premiação Sorgo.
A iniciativa pretende reconhecer os resultados alcançados no campo e destacar produtores que contribuem para o desenvolvimento da cultura no Brasil, em um momento de ampliação das oportunidades comerciais e tecnológicas para o cereal.

