Redação Plenax – Flavia Andrade
Percentual é mais de quatro vezes superior ao registrado nas linhas com taxas controladas; custo médio dos financiamentos quase dobrou entre 2021 e 2025
O aumento do custo do crédito rural tem pressionado o orçamento dos produtores e ampliado os riscos de endividamento no campo. Um levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, mostra que a inadimplência nas operações contratadas a juros de mercado chegou a 17,6% em agosto de 2026. Nas linhas com taxas controladas, o índice foi de 3,8%.
A diferença acompanha uma mudança no perfil do financiamento agropecuário brasileiro. De acordo com o estudo, a taxa média das novas operações de crédito rural contratadas por pessoas físicas passou de 6,3% ao ano, em 2021, para 12,2% em 2025.
No mesmo intervalo, a despesa anual estimada com juros aumentou 191%, saltando de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, em valores corrigidos pela inflação.
O levantamento, que analisa o endividamento rural entre 2013 e 2026, também identificou uma expansão significativa das operações contratadas a taxas de mercado. Em 2013, elas representavam 5% das contratações rurais. Em 2025, essa participação chegou a 40%, ampliando a exposição dos produtores às oscilações dos juros.
Diante desse cenário, o planejamento financeiro ganha importância antes da contratação de novos financiamentos. Para Romário Alves, CEO da Sonhagro, rede especializada em soluções de crédito rural, a escolha deve considerar as necessidades da propriedade e a capacidade de pagamento, e não apenas o valor disponibilizado pela instituição financeira.
Segundo o executivo, taxas de juros, prazos, garantias e condições de amortização interferem diretamente no custo final da operação. Também é necessário avaliar o ciclo produtivo, a previsão de receitas e os compromissos financeiros já assumidos.
Finalidade do crédito influencia o planejamento
Outro cuidado está na escolha da modalidade de financiamento. As linhas de custeio são destinadas às despesas necessárias à produção, como compra de sementes, fertilizantes e outros insumos. Já as operações de investimento podem financiar máquinas, equipamentos, estruturas de armazenagem e melhorias na propriedade.
Cada modalidade possui regras específicas, que variam conforme a instituição financeira, a origem dos recursos e o enquadramento do produtor.
Na comparação entre propostas, também é importante observar o Custo Efetivo Total (CET), quando aplicável. O indicador reúne os juros e demais encargos da operação e permite avaliar com maior precisão o valor efetivamente pago pelo financiamento.
O calendário de vencimentos merece atenção especial. As parcelas precisam estar alinhadas ao período de comercialização da produção e à entrada dos recursos no caixa da propriedade. Quando os pagamentos vencem antes do recebimento das receitas, podem surgir dificuldades financeiras mesmo em atividades com perspectivas positivas de retorno.
Diferenças entre atividades também afetam a capacidade de pagamento
O estudo do Cepea identificou comportamentos distintos entre os segmentos agropecuários. Entre 2021 e 2025, os preços reais dos grãos recuaram 28%, enquanto os da pecuária registraram alta de 12%.
Essa diferença ajuda a explicar por que produtores de atividades distintas podem apresentar capacidades de pagamento diferentes, mesmo diante de condições semelhantes de financiamento.
Nesse contexto, organizar as informações financeiras da propriedade é uma medida importante para reduzir riscos. O levantamento das despesas, a projeção de receitas, a avaliação de contratos em andamento e a comparação de propostas de diferentes instituições ajudam a identificar as condições mais adequadas para cada necessidade.
O acompanhamento financeiro também deve continuar depois da liberação dos recursos. Alterações nos custos de produção, nos preços de comercialização e no calendário de recebimentos podem exigir ajustes no planejamento.
Caso o produtor perceba dificuldades para cumprir os pagamentos, a orientação é procurar a instituição credora antes do vencimento e verificar as alternativas disponíveis, respeitando as regras de cada operação.
Com juros mais elevados e diferenças expressivas entre as modalidades de crédito, a decisão de financiar uma nova safra exige planejamento antecipado. Mais do que conseguir acesso aos recursos, o produtor precisa avaliar se o investimento terá condições de gerar receitas suficientes para cobrir os custos e cumprir os compromissos assumidos.

