Redação Plenax – Flavia Andrade
Especialista em Ciências Sociais explica como comunidades digitais exploram solidão e insegurança de jovens, enquanto algoritmos podem ampliar a exposição a discursos de misoginia
Uma busca por mais autoestima, disciplina ou confiança pode ser a porta de entrada para jovens que acabam encontrando comunidades digitais associadas à chamada “machosfera”. O termo reúne diferentes grupos e influenciadores que discutem masculinidade, relacionamentos e gênero e que, em alguns casos, transformam experiências como solidão, rejeição e insegurança em discursos de ressentimento contra as mulheres.
Segundo o professor Lucas de Souza, dos cursos de Ciências Sociais da UNIASSELVI, comunidades como “Red Pill”, MGTOW e “incels” apresentam diferenças entre si, mas compartilham determinadas interpretações sobre as relações entre homens e mulheres.
Para o especialista, o ponto de aproximação não está simplesmente no fato de reunirem homens solteiros ou insatisfeitos com relacionamentos, mas na construção de explicações específicas para frustrações pessoais.
“O ponto principal é a produção de uma interpretação distorcida da masculinidade e das relações de gênero. Esses discursos transformam experiências muito complexas, como a solidão, rejeição, insegurança, dificuldade econômica, ausência de vínculos e sensação de fracasso, em narrativas onde existe um culpado bem definido: as mulheres e as transformações nas relações de gênero”, explica.
Quando a frustração vira identidade
A lógica pode atingir especialmente jovens que sentem não corresponder às expectativas tradicionalmente associadas à masculinidade. Desde cedo, meninos podem ser pressionados a demonstrar força, segurança, sucesso, competência sexual e controle emocional.
Quando esse modelo se torna uma referência para medir o próprio valor, dificuldades em áreas específicas da vida podem ser interpretadas como um fracasso mais amplo da identidade.
“Quando esse jovem fracassa diante dessas expectativas, ele pode sentir que não está apenas fracassando em uma situação específica, ele pode, e geralmente vai sentir, que está fracassando enquanto homem”, afirma Lucas.
É nesse cenário que essas comunidades podem oferecer pertencimento e uma explicação aparentemente simples para problemas complexos.
Segundo o professor, a narrativa apresentada transfere a origem da frustração para fatores externos, como mulheres, feminismo, outros homens ou a própria sociedade.
“A machosfera vai oferecer uma saída que é perversa. Porque ela diz: ‘você continua sendo um homem legítimo: o problema são as mulheres, o feminismo, os homens considerados superiores, a sociedade’. Ou seja, o indivíduo não é o problema, mas sim todo um sistema que está impedindo ele de conseguir aquilo que ‘merece’”, afirma.
Para Lucas, a frustração vivida pelo jovem é real, mas a explicação oferecida por esses grupos pode ser simplista e distorcida.
Do conteúdo de autoajuda aos discursos mais agressivos
Os algoritmos das plataformas digitais podem contribuir para ampliar esse processo. De acordo com o professor, o mecanismo não depende necessariamente de uma intenção explícita de radicalização, mas da forma como os sistemas de recomendação identificam conteúdos capazes de manter a atenção dos usuários.
O percurso pode começar com vídeos sobre academia, confiança ou desenvolvimento pessoal e avançar para conteúdos sobre aparência, relacionamentos e modelos de “homem de alto valor”. A partir daí, podem surgir explicações cada vez mais abrangentes e agressivas sobre o comportamento feminino.
“O jovem pode começar assistindo a um vídeo sobre academia ou confiança. Depois recebe conteúdo sobre ‘como ser mais atraente’. Em seguida aparece uma explicação sobre ‘homens de alto valor’. Depois vem a ideia de que ‘as mulheres só procuram determinados homens’. E assim vão surgindo conteúdos cada vez mais agressivos”, explica.
Outro ponto destacado pelo especialista é a transformação das mulheres em uma categoria homogênea. Em determinadas comunidades, elas passam a ser apresentadas como se seguissem regras universais de comportamento, relacionadas, por exemplo, à busca por homens mais ricos, fortes, altos ou socialmente considerados superiores.
Nesse processo, a própria masculinidade também passa a ser submetida a uma avaliação permanente.
“A machosfera captura justamente essa insegurança e transforma ela em uma espécie de vigilância permanente sobre as mulheres e sobre si próprio”, afirma.
A contradição do discurso de “libertação”
Para Lucas, existe uma contradição nesse modelo: discursos que prometem libertar homens de uma suposta “dominação feminina” podem acabar produzindo mais controle, desconfiança e ansiedade nas relações.
Em vez de conhecer individualmente uma pessoa, o homem pode passar a interpretar seus comportamentos a partir de teorias previamente construídas sobre as mulheres.
“O homem passa a entrar na relação não para conhecer aquela mulher concreta, mas para descobrir se ela corresponde àquilo que a teoria disse que ela seria. Então não há uma experiência real, só uma confirmação do que ele, previamente, já esperava”, explica.
O professor também rejeita a ideia de transferir para as mulheres a responsabilidade de desconstruir essas generalizações.
“Não cabe às mulheres provar constantemente que não são aquilo que a machosfera diz que elas são. Quem precisa rever essa lógica são os homens que estão sendo ensinados a interpretar qualquer frustração afetiva como confirmação de uma ‘teoria geral sobre as mulheres’”, ressalta.
Educação pode ajudar antes da radicalização
Para o especialista, o enfrentamento do fenômeno não deve começar apenas depois que o jovem já está inserido nesses espaços. A escola pode participar da formação sobre masculinidade, relações de gênero, afetividade e letramento digital.
A proposta, segundo Lucas, não é substituir um modelo de masculinidade por outro, mas ampliar as possibilidades para que os meninos não associem seu valor exclusivamente à força, ao sucesso, ao controle emocional ou à conquista sexual.
Arte, literatura, cinema, esporte e outros espaços de convivência também podem funcionar como alternativas de pertencimento e expressão.
“A questão não é simplesmente retirar o jovem desses círculos. É oferecer outras formas de pertencimento, outras formas de aprender o que pode significar ser homem, porque existem formas de exercer a masculinidade que não passam por essa construção quase utópica”, afirma.
Para o professor, criar esses espaços de convivência é fundamental para que frustrações e inseguranças não encontrem como única resposta comunidades que transformam sofrimento em ressentimento.
“Se o único lugar onde ele encontra reconhecimento é uma comunidade que transforma a dor dele em ódio, nós não podemos nos surpreender quando esse ódio se torna identidade. Precisamos oferecer outros lugares onde eles possam pertencer, falar, criar, ler, assistir a filmes, fazer música, praticar esportes, conversar e, principalmente, descobrir que não existe uma maneira única de ser homem”, conclui.

