Redação Plenax – Flavia Andrade
Dados mostram importância da doação de órgãos, já que o transplante com doador vivo não é possível para todos os pacientes pediátricos
Em 2025, 211 crianças e adolescentes receberam um novo fígado no Brasil. Do total, 55% dos transplantes foram realizados com doadores vivos, enquanto os demais dependeram de órgãos de doadores falecidos. No Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, a participação de doadores vivos foi ainda maior: dos 21 transplantes hepáticos pediátricos realizados no ano passado, 71% tiveram essa origem.
Os números mostram, porém, que a possibilidade de contar com um doador vivo não está disponível para todas as crianças. Falta de um familiar apto a doar, incompatibilidade e determinadas condições clínicas podem fazer com que o transplante dependa de um órgão proveniente de um doador falecido.
A questão ganha destaque durante o Setembro Verde, campanha de conscientização sobre a importância da doação de órgãos.
“Ter um doador vivo é uma possibilidade muito importante, mas não resolve todos os casos. Existem crianças que não têm um familiar que possa doar, que não possuem um doador compatível ou que apresentam condições em que precisamos de um órgão de doador falecido, como nos casos em que a criança tem alguma doença genética ou quando também precisa fazer a reconstrução de vasos sanguíneos”, explica o cirurgião José Sampaio, responsável pelo Serviço de Transplante Hepático Pediátrico do Hospital Pequeno Príncipe.
Quando a criança precisa de um novo fígado
O transplante hepático pode ser indicado para crianças e adolescentes com doenças que comprometem gravemente o funcionamento do fígado e provocam uma deterioração progressiva da saúde.
Entre as principais condições estão a atresia das vias biliares, doenças metabólicas e autoimunes, tumores hepáticos e casos de insuficiência hepática aguda.
Os sinais de comprometimento do fígado variam conforme a doença e o estágio do quadro. Entre os sintomas que podem aparecer estão:
pele e olhos amarelados, caracterizando icterícia;
urina escura e fezes claras;
aumento do abdômen, inclusive por acúmulo de líquido;
vômitos com sangue ou presença de sangue nas fezes;
facilidade para apresentar hematomas ou sangramentos;
sonolência e alterações do sono ou do comportamento;
dificuldade de crescimento e desenvolvimento.
Doador vivo amplia possibilidades, mas não atende todos os casos
O transplante hepático pode ser realizado com parte do fígado de uma pessoa viva. Isso é possível porque o órgão possui capacidade de regeneração e, no caso de crianças, uma porção do fígado de um adulto pode ser suficiente para atender às necessidades do paciente.
Antes da cirurgia, o possível doador passa por uma série de avaliações. São analisadas, entre outras características, a compatibilidade sanguínea, o tamanho do fígado, a idade e as condições de saúde, além do quadro clínico da criança e da doença que levou à necessidade do transplante.
A alternativa é especialmente relevante para crianças pequenas, que precisam de um órgão adequado ao seu tamanho e podem enfrentar riscos relacionados à espera por um fígado de doador falecido compatível.
No entanto, a existência de um familiar disposto a doar não significa que o procedimento possa ser realizado.
“Não é simplesmente ter alguém disposto a doar. É preciso avaliar se aquela doação é possível e segura para o doador e se o órgão é adequado para aquela criança. Por isso, embora o doador vivo seja uma possibilidade muito importante, ele não atende a todos os pacientes”, ressalta José Sampaio.
Doadores falecidos são essenciais
A doação de órgãos após a morte continua sendo fundamental para ampliar o acesso aos transplantes. Segundo o Ministério da Saúde, um único doador pode beneficiar até oito pessoas.
Mesmo assim, a recusa familiar permanece como um dos obstáculos à efetivação das doações. Dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) apontam que, em 2025, 45% das famílias recusaram a doação após a confirmação de morte encefálica.
No caso das crianças que aguardam um novo fígado, a disponibilidade de órgãos de doadores falecidos pode ser decisiva, especialmente quando não existe um doador vivo compatível ou quando as condições clínicas impedem essa alternativa.
“Quando uma criança transplanta, ela recupera a vida, o desenvolvimento, a interação com a família, brinca e desfruta do mundo. Por isso é tão importante falar sobre a doação de órgãos. É um gesto que salva milhares de vidas, e os doadores falecidos são indispensáveis em qualquer contexto de transplante, porque o doador vivo não está disponível ou é compatível para todo mundo”, finaliza Sampaio.
Transplantes pediátricos
O Hospital Pequeno Príncipe realiza transplantes de órgãos e tecidos pediátricos há 37 anos. Em 2025, foram realizados 308 procedimentos, sendo 44 transplantes de órgãos sólidos — coração, rim e fígado —, 34 de válvula cardíaca, 163 de tecido ósseo e 67 de medula óssea.
Até agosto de 2026, a instituição contabilizava 212 transplantes realizados.

