Redação Plenax – Flavia Andrade
Pista no Porto São Pedro recebe investimento de R$ 13,6 milhões e deve ampliar atendimento emergencial na região da Serra do Amolar
Durante anos, transportar uma boiada entre a Fazenda São Camilo e o Porto São Pedro, no Pantanal, podia levar até três dias. Parte do percurso era feita pelo rio e, em alguns trechos, homens e animais precisavam seguir dentro da água. Com a conclusão de uma estrada de acesso à região, esse cenário começou a mudar. Agora, a construção de um aeródromo público deve reduzir ainda mais o tempo de deslocamento em uma das áreas mais isoladas do bioma.
O aeródromo está sendo implantado pelo Governo de Mato Grosso do Sul na região do Porto São Pedro, aos pés da Serra do Amolar, e recebe investimento de aproximadamente R$ 13,6 milhões. A previsão é que a estrutura seja entregue em fevereiro de 2027, antes do período de maior risco de incêndios no Pantanal.
A pista deverá ser utilizada para deslocamento de equipes em situações de emergência médica, segurança e combate a incêndios, além de ampliar a presença do poder público em uma região cujo acesso ainda depende, em grande parte, do transporte fluvial.
Estrada já mudou rotina de produtores
A experiência de quem vive e trabalha na região ajuda a dimensionar o impacto da nova infraestrutura.
O trabalhador rural Ézio Freitas de Almeida, de 48 anos, conta que antes da estrada o transporte de gado entre a Fazenda São Camilo e o Porto São Pedro podia durar até três dias.
“Antes, para sair da Fazenda São Camilo e chegar ao Porto São Pedro, a gente levava até três dias pelo rio, transportando o gado em lancha ou voadeira. Muitas vezes, era preciso parar no meio do caminho e seguir dentro da água, com muito sacrifício. Nós e os boiadeiros ainda corríamos o risco de ser ferroados por arraias. Já perdi muita boiada aqui”, relata.
O acesso ao Porto São Pedro ganhou 23,417 quilômetros de estrada com revestimento primário, em obra que recebeu investimento superior a R$ 53 milhões.
Segundo Ézio, um trecho que anteriormente exigia dias de deslocamento agora pode ser percorrido em cerca de duas horas de trator. No trajeto mais amplo utilizado durante o trabalho, ele afirma que consegue sair às 5h e chegar ao porto por volta das 17h do mesmo dia.
“Facilitou tudo, inclusive o transporte da boiada. O gado chega mais tranquilo, sem estresse e sem perdas”, afirma.
A estrada também deve facilitar o deslocamento de equipes de emergência e do Corpo de Bombeiros durante ocorrências na região.
Aeródromo busca reduzir tempo de resposta
A nova estrutura está sendo construída em uma área doada ao Estado pelo casal Armando Arruda de Lacerda e Marli Barros de Lacerda, que vive na Fazenda São Luiz, no centro do Paiaguás e mantém uma atividade turística no local há duas décadas.
A propriedade fica a cerca de 50 quilômetros da barranca do rio. A partir do Porto São Pedro, o deslocamento fluvial até Corumbá pode levar, em média, 27 horas rio acima e 12 horas no sentido contrário.
Para Armando, a combinação entre a estrada e o futuro aeródromo pode melhorar a capacidade de resposta em situações de emergência.
“O Pantanal é uma área altamente inflamável por causa da vegetação. Como o Porto São Pedro fica às margens do rio, essa região tem a possibilidade de absorver toda uma estrutura das forças de segurança pública para atuar no combate aos incêndios do grande Paiaguás e das áreas de reserva do Pantanal, além de prestar socorro à população pantaneira”, afirma.
Com aproximadamente mil metros de extensão, a pista será, segundo o governo estadual, o primeiro aeródromo inteiramente público da região. A estrutura contará com áreas de apoio para pousos, decolagens e manobras e deverá seguir as normas de segurança da aviação civil e a fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Para o superintendente de Logística da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Seilog), Derick Machado, a localização foi escolhida para diminuir o tempo necessário para chegar a áreas de difícil acesso.
“Uma das missões que o governador nos deu foi a de levar infraestrutura aonde o acesso ainda é o maior desafio. Esse dispositivo representa mais segurança, agilidade e presença do Estado no Pantanal, especialmente em situações emergenciais”, afirma.
Estrutura também será usada no combate ao fogo
A localização do aeródromo ganha importância durante o período de estiagem, quando a combinação de baixa umidade, temperaturas elevadas e ventos pode favorecer a propagação dos incêndios.
A expectativa é que a pista facilite o deslocamento de brigadistas, equipamentos e insumos, além de apoiar aeronaves estaduais e federais utilizadas no monitoramento e no combate ao fogo.
Segundo o tenente-coronel do Corpo de Bombeiros Militar e presidente do Comitê do Fogo, Leonardo Rodrigues Congro, a redução do tempo de resposta pode contribuir para uma atuação mais rápida no início das ocorrências.
“Contar com um aeródromo público estadual homologado permitirá operar com eficiência máxima e segurança técnica as nossas aeronaves de combate e monitoramento, bem como integrar com precisão o apoio das aeronaves federais e do Estado de MS”, afirma.
O secretário da Semadesc, Artur Henrique Leite Falcette, também considera estratégica a localização da pista, em frente à Serra do Amolar.
“Estamos erguendo a primeira infraestrutura aérea 100% pública da região. É um marco histórico para a logística de conservação e para a presença do Estado no coração do nosso Pantanal”, afirma.
Investimentos em infraestrutura
A obra integra o planejamento estadual para ampliar a infraestrutura aeroportuária e melhorar a integração logística em Mato Grosso do Sul.
Entre 2023 e 2025, aproximadamente R$ 478 milhões foram investidos, segundo o governo estadual, na implantação de mais de 500 quilômetros de rodovias em revestimento primário no Pantanal.
As intervenções buscam melhorar o acesso a áreas remotas e facilitar o transporte de pessoas, animais, equipes e equipamentos.
No Porto São Pedro, a estrada e o futuro aeródromo passam a funcionar como estruturas complementares para reduzir o impacto das grandes distâncias sobre quem vive e trabalha na região.
Para Ézio, acostumado a passar dias no deslocamento de gado, a mudança já aparece na rotina.
“A satisfação do pessoal é total. Estamos chegando muito mais rápido e reduzimos bastante o tempo para embarcar o gado. Também é uma luta para o Corpo de Bombeiros chegar à nossa região e combater os incêndios. Agora, com a estrada e o aeródromo, o transporte será mais rápido e eficaz”, afirma.

