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Mulheres investem em capacitação, mas candidaturas à Câmara caem 24% em 2026

Foto: Chatgpt

Redação Plenax – Flavia Andrade

Queda no número de candidatas contrasta com o avanço da qualificação feminina no empreendedorismo e reacende o debate sobre as barreiras que ainda dificultam o acesso das mulheres aos espaços de poder

Enquanto mulheres empreendedoras ampliam a busca por capacitação para enfrentar desafios como preconceito, falta de credibilidade e dificuldade de acesso a recursos, a participação feminina na política brasileira segue em outra direção. Nas eleições de 2026, o número de candidatas à Câmara dos Deputados caiu 24% em relação a 2022.

O contraste evidencia uma questão que permanece atual quase um século após a conquista do voto feminino: embora as mulheres sejam maioria do eleitorado e tenham ampliado sua participação na vida econômica, o acesso aos espaços de poder e decisão ainda ocorre em condições desiguais.

Dados divulgados pela Câmara dos Deputados em 24 de agosto mostram que o número de candidaturas femininas ao cargo de deputada federal passou de 3.717, em 2022, para 2.820 em 2026. A participação proporcional das mulheres, entretanto, subiu de 35% para 36,7%, principalmente porque também houve redução no número total de candidaturas.

Nas disputas majoritárias, o cenário permanece restritivo. Nenhuma mulher integra as chapas presidenciais de partidos com representação no Congresso, enquanto 34 mulheres disputam governos estaduais e do Distrito Federal, diante de 198 candidatos. Em 2022, eram 38 candidatas.

A diferença entre a participação feminina na sociedade e sua presença nas instituições políticas é ainda mais evidente quando se observa o eleitorado. As mulheres representam 52% dos eleitores aptos a votar no país, mas ocupam aproximadamente 18% das cadeiras do Congresso Nacional.

Um estudo do Instituto Esfera, citado pela Câmara, aponta o Brasil como o país com a menor representação feminina na política entre os países da América Latina e relaciona parte do problema à dificuldade de acesso das mulheres aos recursos partidários.

“O sistema de cotas até garante que a mulher seja candidata, mas não dá condições para a eleição. Não dá condições, e um dos motivos é a falta de acesso ao Fundo Partidário”, afirma Daniela Matos, pesquisadora do Instituto Esfera.

Segundo ela, a própria dinâmica dos partidos também pode representar uma barreira. A concentração de atividades partidárias durante a noite e nos fins de semana, por exemplo, pode dificultar a participação de mulheres que ainda assumem, de maneira majoritária, responsabilidades domésticas e familiares.

No empreendedorismo, capacitação vira estratégia de enfrentamento

No mercado de trabalho e no empreendedorismo, as dificuldades assumem outras formas, mas revelam mecanismos semelhantes de desigualdade.

O estudo Empreendedorismo 2026, realizado pelo Consumer Insights UOL, mostra que 84% das empreendedoras entrevistadas reconhecem desafios específicos relacionados ao fato de serem mulheres. Preconceito e falta de credibilidade aparecem entre os principais obstáculos, citados por 61% das entrevistadas.

Também foram mencionadas a exaustão provocada pela dupla jornada e pelas responsabilidades familiares, por 56%; a falta de redes de apoio, por 46%; a ausência de incentivo ou suporte, por 45%; e a dificuldade de acesso a investimentos, por 39%.

Diante dessas barreiras, a capacitação aparece como uma das principais estratégias adotadas. Segundo o levantamento, 55% das empreendedoras dizem recorrer com frequência a cursos de gestão e cerca de 60% já participaram de algum programa de capacitação ou apoio ao empreendedorismo. O Sebrae aparece como principal referência entre as instituições citadas.

A pesquisa ouviu 1.300 pessoas, sendo 650 homens e 650 mulheres das classes A, B e C, em todas as regiões do país, entre 24 de abril e 5 de maio de 2026. A margem de erro é de 2,7 pontos percentuais.

Para João Elias Nery, professor titular da Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (FAPCOM), observar os dois cenários simultaneamente ajuda a compreender que a desigualdade na participação política não pode ser explicada apenas por escolhas ou preparação individual.

“Quando vemos mulheres buscando formação, empreendendo, participando da vida econômica e, ao mesmo tempo, permanecendo tão sub-representadas nos espaços políticos, precisamos deslocar a pergunta. Não se trata apenas de saber se elas querem participar ou se estão preparadas. É preciso questionar quais condições encontram para acessar estruturas de poder que, durante muito tempo, foram organizadas sem a presença feminina.”

Instituições ainda carregam marcas de uma presença historicamente masculina

A própria estrutura do Congresso oferece exemplos de como a presença feminina demorou a ser incorporada à rotina institucional.

O Plenário do Senado passou a contar com um banheiro feminino apenas na virada de 2015 para 2016, 55 anos depois da inauguração da atual sede, em 1960. Até então, havia somente um sanitário masculino dentro do Plenário, e as senadoras precisavam utilizar banheiros localizados em outras áreas.

A primeira mulher a ocupar uma cadeira no Senado, Eunice Michiles, tomou posse em 1979. Foram necessários quase 40 anos para que o espaço físico do Plenário fosse adaptado à presença feminina.

Para a cientista política Ana Carolina Evangelista, diretora executiva do ISER, o episódio ajuda a demonstrar que as barreiras à participação feminina nem sempre aparecem na forma de proibições explícitas.

“Esse exemplo é muito emblemático porque mostra que a exclusão nem sempre se manifesta por uma proibição explícita. Muitas vezes ela está na própria maneira como as instituições foram construídas e como funcionam. O desafio contemporâneo é perceber essas barreiras menos visíveis e criar condições para que representação não signifique apenas estar presente, mas participar efetivamente das decisões.”

A declaração foi feita durante o 19º Simpósio de Comunicação da FAPCOM, que teve como tema “Desafios Contemporâneos da Comunicação: Medo e Democracia”. O encontro reuniu jornalistas, pesquisadores e cientistas políticos para discutir temas como desinformação, plataformas digitais, educação midiática e os efeitos do medo sobre o debate público em ano eleitoral.

Mais candidatas não significaram mais mulheres eleitas

Os dados históricos reforçam que o problema não está apenas na quantidade de mulheres que entram na disputa eleitoral.

Segundo informações do Instituto Esfera, entre 1998 e 2022, o número de candidatas à Câmara dos Deputados cresceu 925%. No mesmo período, porém, o número de deputadas eleitas aumentou 210%.

O crescimento das candidaturas, portanto, não foi acompanhado na mesma proporção pelo aumento da representação feminina no Parlamento. A diferença sugere que as condições de disputa — e não apenas a existência formal de candidaturas — continuam sendo determinantes para explicar o baixo número de mulheres eleitas.

Para Nery, essa distância também precisa ser analisada como uma questão relacionada ao funcionamento da democracia.

“O regime democrático não é apenas garantir formalmente que todos possam concorrer ou votar. Ele também depende da pluralidade de pessoas que conseguem chegar aos espaços de decisão e participar deles em condições efetivas. Quando mulheres são maioria do eleitorado, mas continuam ocupando uma parcela tão pequena do Congresso, existe uma distância entre representação social e representação política que precisa ser discutida.”

Capacitação e participação política revelam o mesmo desafio

O contraste entre empreendedorismo e política ajuda a iluminar uma questão comum: mulheres vêm ampliando sua preparação e participação em diferentes áreas da sociedade, mas ainda encontram obstáculos estruturais para transformar essa presença em influência e poder de decisão.

No empreendedorismo, diante de preconceito, falta de credibilidade e dificuldades de acesso a recursos, a resposta tem sido, em parte, investir em formação, redes e qualificação.

Na política, entretanto, a redução das candidaturas à Câmara em 2026 mostra que a existência de mecanismos formais de participação não necessariamente garante condições equivalentes de disputa.

Para Nery, instituições de ensino também têm papel nesse processo.

“Os números deste ano mostram que ainda há um caminho longo entre garantir formalmente a participação das mulheres e criar as condições para que essa participação se traduza em poder de decisão. Cabe às instituições, inclusive às universidades, acompanhar esse processo com atenção e contribuir para que ele avance.”

Quase um século depois da conquista do voto feminino, os números de 2026 mantêm aberto um debate que vai além da quantidade de candidatas nas urnas. A questão passa por compreender quais barreiras ainda impedem que a participação das mulheres na economia, na sociedade e no eleitorado se converta, de maneira proporcional, em presença e poder de decisão nas instituições políticas brasileiras.

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