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Saúde mental da mãe atípica também precisa estar no centro do cuidado

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Sobrecarga física e emocional de mulheres que cuidam de filhos com deficiência ou transtornos do neurodesenvolvimento exige rede de apoio, divisão de responsabilidades e espaço para além da maternidade

Cuidar de um filho que necessita de atenção especializada envolve uma rotina que pode incluir consultas médicas, terapias, acompanhamento escolar, adaptações, deslocamentos e uma série de demandas burocráticas. Quando esse cuidado se concentra principalmente sobre a mãe, a sobrecarga pode ultrapassar os limites físicos e emocionais e comprometer a própria saúde mental de quem cuida.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2022, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 18,6 milhões de pessoas com deficiência com idade igual ou superior a dois anos. Nesse contexto, mães frequentemente assumem a maior parte das responsabilidades relacionadas aos filhos, acumulando funções e, muitas vezes, deixando as próprias necessidades em segundo plano.

Estudos citados sobre mães de crianças com autismo apontam uma prevalência elevada de sintomas de depressão, ansiedade e estresse. Um levantamento realizado nos Estados Unidos com quase 2 mil mães identificou que 35,8% apresentavam sintomas concomitantes de depressão e ansiedade. Outra pesquisa acompanhou essas mulheres por 18 meses e constatou que cerca de metade manteve níveis elevados de sintomas depressivos durante o período, enquanto, entre mães de crianças sem diagnóstico, os índices variaram de 6% a 13,6%.

Para a psicóloga Andreia Bastos, que atende no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia, o diagnóstico de uma deficiência ou transtorno do neurodesenvolvimento pode provocar um impacto emocional profundo na família.

“Durante a gestação, os pais constroem expectativas sobre o futuro da criança baseadas em padrões sociais. A quebra dessa expectativa causa sentimentos de confusão, medo, culpa e desamparo. As mães costumam lidar com isso atravessando estágios de luto — negação, raiva, barganha e tristeza — até alcançarem a aceitação da realidade do filho real”, explica.

Quando cuidar do outro significa esquecer de si

A dedicação intensa às necessidades do filho pode fazer com que a mãe deixe de reconhecer as próprias necessidades. Aos poucos, carreira, estudos, lazer, amizades, relacionamentos e até cuidados básicos com a própria saúde podem perder espaço diante da rotina de terapias, consultas e responsabilidades domésticas.

“Pesquisas mostram que essas mulheres frequentemente enfrentam uma renúncia ocupacional, abdicando de carreiras profissionais, estudos, momentos de lazer, amizades e espiritualidade. A dedicação integral às necessidades do filho faz com que a mãe passe a existir prioritariamente na função de cuidadora, negligenciando completamente suas próprias demandas biológicas, médicas e psicológicas”, afirma Andreia.

Esse processo pode acontecer de maneira silenciosa. Por isso, observar os sinais de esgotamento é fundamental.

Entre eles estão o sentimento persistente de falha ou responsabilidade pela condição do filho, exaustão física e emocional extrema, distanciamento afetivo do cuidado, sensação de ineficácia, ansiedade, estresse crônico, irritabilidade e sintomas depressivos persistentes. Também merece atenção a dificuldade de reconhecer os próprios desejos e de separar a própria identidade da rotina da criança.

A armadilha da “mãe guerreira”

A ideia de que a mãe atípica precisa ser permanentemente forte, disponível e capaz de “dar conta de tudo” pode transformar a sobrecarga em uma obrigação.

Para Andreia Bastos, a romantização da figura da mãe guerreira ou heroína pode ser prejudicial justamente porque dificulta a expressão do sofrimento.

“Essa romantização invalida os sentimentos legítimos de cansaço, dor, medo e raiva. Se a mãe é vista como um ser imaculado e incansável, suas queixas passam a ser interpretadas como fraqueza ou falta de amor, impedindo-a de pedir ajuda”, pontua.

Segundo a especialista, transformar a capacidade de suportar uma carga excessiva em uma virtude individual também pode esconder problemas que deveriam ser compartilhados socialmente, como a falta de rede de apoio, dificuldades de acesso a políticas públicas e a concentração das responsabilidades parentais sobre as mulheres.

A questão, portanto, não é ensinar a mãe a suportar mais. É criar condições para que ela não precise carregar tudo sozinha.

Cuidar de quem cuida

A rede de apoio pode fazer diferença concreta no cotidiano. E ela não precisa se limitar a palavras de incentivo.

Dividir tarefas domésticas, assumir parte dos deslocamentos para consultas e terapias, acompanhar atividades da criança e ajudar na organização da rotina são formas práticas de reduzir a carga física e mental.

O apoio emocional também é importante. Escutar sem julgamentos pode diminuir a sensação de isolamento e oferecer espaço para que a mãe fale sobre sentimentos que muitas vezes são reprimidos por medo de parecer insuficiente.

Há ainda uma dimensão institucional. Facilitar o acesso a tratamentos, benefícios e políticas públicas pode reduzir o desgaste provocado pela necessidade de buscar individualmente soluções para necessidades que deveriam ser atendidas por uma rede estruturada de proteção e cuidado.

“Assumir responsabilidades domésticas e a rotina de levar a criança às terapias alivia a sobrecarga física. Suporte emocional sem julgamentos: oferecer escuta ativa reduz o forte sentimento de isolamento social e o impacto do preconceito sofrido publicamente. Dar apoio institucional e financeiro: a facilitação de acesso a políticas públicas e tratamentos reduz o estresse crônico causado pela busca individualizada por direitos”, explica a psicóloga.

A mãe precisa continuar existindo para além do cuidado

Cuidar de um filho não deveria significar abrir mão da própria identidade.

Para Andreia, preservar a individualidade da mãe é uma condição importante para que o cuidado aconteça de maneira mais saudável. Isso passa pela descentralização das responsabilidades, pela construção de uma rede de apoio efetiva e pelo acesso a espaços de acolhimento psicológico, como psicoterapia individual ou grupos de apoio mútuo.

“A mãe só consegue estar inteira quando seu direito à individualidade é preservado. Isso exige a descentralização do cuidado, terapias e suporte familiar eficazes e a inserção dessas mulheres em espaços de acolhimento psicológico”, afirma.

O debate sobre maternidade atípica, portanto, precisa ir além das necessidades da criança. É necessário olhar também para quem sustenta grande parte dessa rotina.

Porque cuidar de quem cuida não é um gesto de luxo ou egoísmo. É parte do próprio cuidado.

“ O fortalecimento de sua saúde mental e o resgate de sua identidade feminina, para além da maternidade, são essenciais para que o cuidar ocorra de forma saudável”, conclui Andreia Bastos.

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