Redação Plenax – Flavia Andrade
Estudos apresentados em congresso internacional apontam avanços expressivos da medicina de precisão e mostram resultados superiores aos da quimioterapia tradicional
Dois estudos apresentados durante o congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), realizado em Chicago, nos Estados Unidos, trouxeram resultados promissores para pacientes com câncer de pulmão avançado. As pesquisas reforçam o potencial das terapias-alvo, consideradas uma das principais apostas da medicina de precisão no combate à doença.
O câncer de pulmão está entre os tipos mais letais no Brasil e continua sendo um dos maiores desafios da oncologia. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), mais de 35 mil brasileiros deverão receber diagnóstico de câncer de traqueia, brônquio e pulmão em 2026.
Os estudos CROWN e WU-KONG28 demonstraram que medicamentos desenvolvidos para atuar em alterações genéticas específicas podem proporcionar maior controle da doença e resultados superiores aos tratamentos convencionais.
Mais da metade dos pacientes permaneceu sem progressão da doença por sete anos
A atualização de sete anos do estudo CROWN apresentou resultados considerados históricos para pacientes com câncer de pulmão metastático ALK-positivo.
A pesquisa comparou os medicamentos lorlatinibe e crizotinibe, ambos pertencentes à classe dos inibidores da tirosina quinase. Os dados mostraram que 55% dos pacientes tratados com lorlatinibe permaneceram vivos sem progressão da doença após sete anos de acompanhamento. Entre aqueles que receberam crizotinibe, esse índice foi de apenas 3%.
Além disso, o tratamento reduziu em 81% o risco de progressão do câncer ou morte em comparação ao medicamento de geração anterior.
Outro destaque foi o controle das metástases cerebrais, uma das principais preocupações nesse grupo de pacientes, além da manutenção prolongada da resposta ao tratamento.
Para a oncologista Samira Mascarenhas, especialista em câncer de pulmão da Oncologia D’Or, os resultados representam um marco na oncologia torácica.
“Quando conseguimos oferecer diagnóstico molecular adequado e acesso precoce às terapias-alvo mais eficazes, podemos modificar profundamente a história natural do câncer de pulmão”, afirma.
Novo medicamento supera quimioterapia tradicional
O estudo WU-KONG28 também apresentou resultados positivos ao avaliar o uso do sunvozertinibe em pacientes com câncer de pulmão avançado associado a uma mutação rara conhecida como inserção no éxon 20 do EGFR.
Segundo os pesquisadores, o medicamento apresentou desempenho superior ao da quimioterapia baseada em platina, atualmente utilizada como tratamento padrão para muitos casos da doença.
A sobrevida livre de progressão foi de 10,3 meses entre os pacientes que receberam o sunvozertinibe, contra 7,5 meses no grupo submetido à quimioterapia. O resultado representa uma redução de 35% no risco de progressão da doença ou morte.
A taxa de resposta ao tratamento também foi significativamente maior, alcançando 58,9% dos pacientes tratados com a terapia-alvo, enquanto a quimioterapia apresentou resposta em 31,1% dos casos.
Além disso, o tempo médio de duração da resposta foi de 11,2 meses no grupo que recebeu o medicamento, frente a 7,1 meses entre os pacientes tratados com quimioterapia.
Diagnóstico precoce continua sendo desafio
Apesar dos avanços terapêuticos, especialistas alertam que o acesso ao diagnóstico molecular ainda é um dos principais obstáculos para ampliar os benefícios da medicina personalizada.
Segundo Samira Mascarenhas, a identificação das alterações genéticas que impulsionam o crescimento do tumor é fundamental para definir o tratamento mais adequado.
“Não existe medicina de precisão sem diagnóstico de precisão. Garantir acesso amplo à testagem molecular é essencial para oferecer tratamentos mais eficazes, personalizados e com maior impacto na sobrevida e na qualidade de vida dos pacientes”, destaca.
Câncer de pulmão mata mais de 31 mil brasileiros por ano
Dados do Inca apontam que cerca de 75% dos casos de câncer de pulmão estão associados ao tabagismo. Entre os sintomas mais frequentes estão tosse persistente, falta de ar, dor no peito, perda de peso, cansaço excessivo e presença de sangue no escarro.
Como os sinais costumam surgir apenas em fases mais avançadas da doença, aproximadamente 70% dos pacientes recebem o diagnóstico quando o câncer já está em estágio avançado.
Em 2023, o Brasil registrou 31.237 mortes relacionadas ao câncer de pulmão, sendo 55% dos óbitos entre homens.

