Redação Plenax – Flavia Andrade
Tecnologias não invasivas, como estimulação por corrente contínua e estimulação magnética transcraniana, vêm sendo estudadas e utilizadas em protocolos individualizados para diferentes condições
Durante muito tempo, a recuperação após uma lesão neurológica esteve associada principalmente ao uso de medicamentos e a terapias destinadas a reduzir ou compensar déficits motores e cognitivos. Com o avanço da neurociência, novas estratégias passaram a integrar esse cenário, entre elas a neuromodulação, área que busca interferir de forma controlada na atividade do sistema nervoso.
Entre as técnicas não invasivas estão a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS) e a estimulação magnética transcraniana (TMS). Os recursos podem ser utilizados em contextos clínicos específicos e dentro de protocolos definidos a partir das necessidades de cada paciente.
Para Natalie Pereira, mestre e doutora em Cognição Humana, o desenvolvimento dessas tecnologias amplia as possibilidades de intervenção e contribui para uma abordagem mais individualizada.
“Hoje temos ferramentas que nos permitem compreender melhor o funcionamento cerebral e trabalhar de maneira mais direcionada sobre determinados processos. Isso amplia as possibilidades de intervenção e, principalmente, permite pensar o paciente de uma forma muito mais individualizada”, explica.
Tecnologia associada à reabilitação
Natalie atua à frente da Prospère, clínica multidisciplinar voltada à saúde de adultos e idosos, com atuação especialmente direcionada aos processos de reabilitação neurológica. A abordagem reúne diferentes áreas da saúde, com recursos tecnológicos associados à avaliação e ao acompanhamento dos pacientes.
Além da reabilitação de pessoas com condições neurológicas, a neuromodulação também vem despertando interesse no campo da cognição. A atenção está relacionada a situações que envolvem alta demanda mental, como dificuldade de concentração, sobrecarga cognitiva e queda de desempenho.
A Prospère também possui uma frente voltada ao chamado brain enhancement, com atendimento a diferentes públicos, entre eles pessoas com TDAH, profissionais submetidos a elevada demanda cognitiva e indivíduos que se preparam para provas e concursos.
“Não podemos olhar para o cérebro apenas quando existe uma doença. A cognição também está relacionada à maneira como conseguimos estudar, trabalhar, prestar atenção, memorizar, tomar decisões e lidar com as demandas da vida cotidiana”, afirma Natalie.
Avaliação individual é fundamental
Apesar do avanço das tecnologias, a especialista ressalta que a neuromodulação não deve ser tratada como uma solução isolada ou como um atalho para melhorar o funcionamento cerebral.
Segundo Natalie, os recursos tecnológicos precisam estar inseridos em uma avaliação mais ampla. Dependendo das necessidades de cada pessoa, o acompanhamento pode envolver áreas como neuropsicologia, fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, nutrição e farmácia clínica.
“Cada cérebro tem uma história. Por isso, não existe uma única intervenção que sirva para todas as pessoas. O que a tecnologia nos oferece é a possibilidade de sermos cada vez mais precisos, mas ela precisa estar associada a avaliação, conhecimento científico e acompanhamento profissional”, explica.
O crescimento do interesse pela neuromodulação acompanha a expansão das pesquisas em neurociência e a busca por novas estratégias relacionadas ao envelhecimento da população, às doenças neurodegenerativas, à recuperação após acidentes vasculares cerebrais (AVCs), à saúde mental e ao desempenho cognitivo.
Com 14 anos de experiência profissional e formação acadêmica em Cognição Humana, Natalie defende que a evolução dos cuidados com a saúde cerebral tende a aproximar cada vez mais ciência, tecnologia e acompanhamento individualizado.
“Já aprendemos o poder e a capacidade do cérebro de se moldar e adaptar de forma plástica. Quanto mais conhecemos seu funcionamento, mais possibilidades temos de desenvolver estratégias para favorecer recuperação, adaptação e qualidade de vida. A neuromodulação faz parte desse novo cenário”, conclui.

