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Lula defende reforma da ONU e diplomacia para enfrentar conflitos em discurso na Assembleia Geral

Foto: Ricardo Stuckert.

Redação Plenax – Flavia Andrade

Presidente brasileiro abordou guerras, mudanças climáticas, desigualdade, crime organizado e regulação da inteligência artificial durante abertura da 81ª sessão da ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22) o Debate Geral da 81ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, com um discurso marcado pela defesa do multilateralismo, da reforma das instituições internacionais e do diálogo como instrumento para enfrentar conflitos. A agenda também incluiu mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável, redução das desigualdades, combate ao crime organizado e regulação das novas tecnologias.

O Brasil mantém a tradição de ser o primeiro país a discursar no Debate Geral da Assembleia Geral desde 1955. Neste ano, o encontro tem como tema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”. A programação reúne os chefes de Estado e de Governo dos 193 países-membros entre 22 e 28 de setembro.

Reforma do Conselho de Segurança

Logo no início da fala, Lula defendeu mudanças na estrutura das Nações Unidas, especialmente no Conselho de Segurança. O presidente relacionou o aumento dos conflitos armados, a corrida armamentista e as tensões geopolíticas a uma crise do sistema multilateral e defendeu maior articulação entre os países.

Ao fazer um balanço da atuação da ONU desde sua criação, Lula citou iniciativas relacionadas à descolonização, aos direitos humanos, ao desenvolvimento sustentável e à proteção de migrantes e refugiados. Também mencionou ações de combate ao racismo, ao antissemitismo e à intolerância religiosa.

Guerras e defesa do diálogo

Os conflitos internacionais estiveram entre os principais pontos do discurso. Lula citou a situação no Oriente Médio, incluindo Gaza, os assentamentos na Cisjordânia e o conflito no Estreito de Ormuz, além da guerra entre Rússia e Ucrânia.

Ao tratar do conflito no Leste Europeu, o presidente destacou a continuidade dos impactos humanitários e mencionou iniciativas voltadas à construção de canais de diálogo, como o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil e China.

Lula também falou sobre as relações entre os países da América Latina e do Caribe e defendeu a não interferência em assuntos internos e a ampliação da cooperação regional. Venezuela, Nicarágua, Haiti e Cuba foram citados durante a exposição.

Combate ao crime organizado

Outro eixo do discurso foi o enfrentamento ao crime organizado transnacional. Lula defendeu a ampliação da cooperação entre países para o controle de fronteiras e o combate ao tráfico de armas e à movimentação de recursos financeiros ligados às organizações criminosas.

Na área de segurança, mencionou a cooperação policial entre os países amazônicos e citou o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, que reúne autoridades dos nove países da região.

O presidente também apresentou ações brasileiras de combate ao crime organizado, incluindo operações, apreensões de drogas, bens e recursos ilícitos, além de medidas contra diferentes níveis de atuação das organizações criminosas. A Lei Antifacção e a relação entre criminalidade organizada e corrupção também foram mencionadas.

Multilateralismo e saúde

Lula apontou ainda dificuldades enfrentadas pelo sistema multilateral e citou o cenário da Organização Mundial do Comércio (OMC), especialmente diante do uso de tarifas nas relações internacionais.

Na área da saúde, o presidente mencionou os efeitos da desinformação e das campanhas contra vacinas e citou as consequências deixadas pela pandemia de Covid-19. Também defendeu o fortalecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) para enfrentar desafios sanitários de alcance internacional.

Mudanças climáticas e recursos estratégicos

A crise climática ocupou parte importante da fala. Lula defendeu a retomada da agenda ambiental nos fóruns internacionais e mencionou o impacto de eventos climáticos extremos sobre as populações mais vulneráveis.

O presidente apresentou iniciativas brasileiras relacionadas à transição para uma economia de baixo carbono e citou o Mapa do Caminho para a descarbonização, elaborado durante a presidência brasileira da COP30.

Também mencionou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), voltado à mobilização de recursos para a conservação das florestas tropicais.

Ao falar sobre recursos naturais, Lula destacou a importância estratégica dos minerais críticos e das terras raras para a transição energética. Segundo a abordagem apresentada no discurso, a exploração desses recursos deve contribuir para a geração de valor no território brasileiro, a transferência de tecnologia e o desenvolvimento de setores estratégicos.

Desenvolvimento e redução das desigualdades

Na área econômica e social, Lula defendeu investimentos em educação e saúde, geração de empregos, distribuição de renda e proteção social. A redução das desigualdades e o combate à fome também foram incluídos na agenda apresentada pelo presidente.

Lula citou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e o Painel Internacional sobre Desigualdade como iniciativas de cooperação internacional voltadas ao enfrentamento dessas questões.

O presidente também mencionou indicadores da economia brasileira, como investimentos estrangeiros, ampliação do crédito e medidas de proteção social.

No mercado de trabalho, defendeu mudanças na organização da jornada e citou o fim da escala 6×1, com dois dias de descanso por semana. Segundo Lula, a mudança também teria impacto sobre a divisão das tarefas domésticas e a sobrecarga enfrentada pelas mulheres.

Mulheres e combate à violência

A proteção dos direitos das mulheres também foi incluída no discurso. Lula mencionou a participação feminina no mercado de trabalho e nos espaços de poder e defendeu o enfrentamento da violência contra as mulheres e do feminicídio.

Inteligência artificial e plataformas digitais

A regulação das grandes empresas de tecnologia e da inteligência artificial foi outro tema apresentado pelo presidente.

Lula defendeu princípios como responsabilidade e transparência no desenvolvimento e utilização dessas tecnologias e também abordou os efeitos das plataformas de apostas sobre o endividamento da população.

Na área de proteção digital, citou o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), legislação que estabelece medidas de proteção para crianças e adolescentes no ambiente digital.

O presidente também defendeu mecanismos de remuneração para artistas, músicos e criadores de conteúdo audiovisual e mencionou a preservação do Pix como infraestrutura pública e gratuita de pagamentos.

Brasil mantém tradição na abertura

A Assembleia Geral da ONU foi criada em 1945 e reúne atualmente 193 Estados-membros. A sessão ordinária é realizada anualmente e concentra, durante a Semana de Alto Nível, chefes de Estado e de Governo, ministros e outras autoridades.

Desde a 10ª sessão, em 1955, o Brasil realiza o discurso de abertura do Debate Geral, uma tradição diplomática que se mantém até hoje. Em 2026, o Debate Geral ocorre de 22 a 28 de setembro, com intervalo no domingo (27).

O tema da 81ª sessão — “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas” — concentra parte dos debates sobre cooperação internacional, paz, desenvolvimento sustentável e resposta coletiva aos desafios globais.

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