Redação Plenax – Flavia Andrade
Ansiedade, culpa, isolamento social e tristeza persistente estão entre os impactos emocionais enfrentados por pessoas que tentam engravidar
Junho é marcado pelo Mês Mundial da Conscientização da Infertilidade, uma campanha que busca ampliar o debate sobre um problema que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e vai muito além das questões físicas. Especialistas alertam que as dificuldades para engravidar também podem provocar impactos significativos na saúde mental, especialmente diante de tratamentos prolongados, tentativas frustradas e da pressão social relacionada à maternidade e à paternidade.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de uma em cada seis pessoas adultas enfrenta algum grau de infertilidade ao longo da vida. Embora o foco costume estar nos aspectos médicos e reprodutivos, profissionais destacam que o sofrimento emocional também precisa ser acolhido e tratado.
A psicóloga perinatal Rafaela Schiavo explica que sentimentos como ansiedade, estresse, tristeza persistente e culpa são frequentes entre pessoas que enfrentam dificuldades para engravidar.
“Muitas mulheres passam por ciclos repetidos de tratamentos e fertilizações in vitro sem alcançar o resultado esperado. Esse processo pode gerar alterações emocionais importantes e até desencadear recaídas em pessoas que já tiveram histórico de transtornos mentais”, afirma.
Muito além do diagnóstico
Para especialistas, a infertilidade não afeta apenas a saúde reprodutiva. Ela também pode impactar projetos de vida, relacionamentos, autoestima e a percepção que a mulher tem de si mesma.
Em uma sociedade onde a maternidade ainda é frequentemente associada à realização pessoal, a impossibilidade de engravidar pode gerar sentimentos de insuficiência e fracasso.
Segundo Rafaela, muitas mulheres acabam internalizando cobranças sociais que não correspondem à realidade, desenvolvendo a sensação equivocada de que seu valor está ligado à capacidade de gerar filhos.
Perguntas e cobranças podem aumentar o sofrimento
Além dos desafios enfrentados durante o tratamento, pessoas que convivem com a infertilidade costumam lidar com questionamentos constantes de familiares, amigos e conhecidos.
Perguntas aparentemente simples, como “Quando vem o bebê?” ou “Vocês não pensam em ter filhos?”, podem se tornar gatilhos emocionais para quem está enfrentando dificuldades para engravidar ou já passou por perdas gestacionais.
De acordo com a especialista, esse tipo de situação pode aumentar o sofrimento psicológico e levar ao isolamento social.
“Estabelecer limites não é falta de educação. É uma forma de proteger a própria saúde mental em um momento de vulnerabilidade”, destaca.
Sinais de alerta
Especialistas orientam que alguns sintomas merecem atenção durante a jornada reprodutiva e podem indicar a necessidade de acompanhamento psicológico:
Tristeza persistente;
Crises frequentes de choro;
Sentimentos intensos de culpa ou fracasso;
Isolamento social;
Ansiedade excessiva;
Irritabilidade constante;
Alterações no sono;
Perda de interesse por atividades antes prazerosas.
Quando esses sinais persistem, buscar apoio especializado pode ser fundamental para atravessar o processo de forma mais saudável.
Como enfrentar o período com mais acolhimento
Profissionais da área recomendam algumas estratégias que podem ajudar a reduzir o impacto emocional da infertilidade:
Reconhecer as emoções: aceitar sentimentos como tristeza, medo, raiva e frustração é parte importante do processo.
Evitar comparações: cada trajetória reprodutiva possui características e desafios próprios.
Estabelecer limites: preservar a privacidade e decidir o que compartilhar pode contribuir para o bem-estar emocional.
Buscar apoio: conversar com familiares, amigos, grupos de apoio ou profissionais especializados ajuda a reduzir a sensação de solidão.
Investir em acompanhamento psicológico: a psicologia perinatal oferece suporte para lidar com expectativas, tratamentos, perdas e incertezas.
Acolhimento também faz parte do tratamento
Especialistas reforçam que a infertilidade não deve ser vista apenas pela ótica médica. O cuidado emocional é parte essencial da jornada, especialmente diante das incertezas e desafios que podem surgir ao longo do caminho.
A conscientização promovida durante o Junho Verde busca justamente ampliar o olhar da sociedade para essa realidade, incentivando mais informação, empatia e acolhimento para quem enfrenta dificuldades para realizar o desejo de ter filhos.

