Redação Plenax – Flavia Andrade
Projeto desenvolvido em Hidrolândia une tecnologia, reaproveitamento de recursos hídricos e parceria com produtores rurais para reduzir impactos ambientais
O Brasil possui uma das maiores reservas de água doce do mundo, mas a abundância do recurso ainda contribui para uma cultura de desperdício. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) mostram que, somente em 2022, cerca de 7 bilhões de metros cúbicos de água foram desperdiçados no país — volume que seria suficiente para abastecer uma população de aproximadamente 124 mil pessoas durante um ano.
Diante desse cenário, iniciativas de empresas que investem em tratamento e reaproveitamento de água ganham relevância. Em Hidrolândia, Goiás, a Marajoara Laticínios desenvolve desde 2018 um projeto que alia inovação, sustentabilidade e apoio aos produtores rurais da região.
A iniciativa utiliza uma Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) instalada no parque fabril da empresa para tratar a água residual gerada durante os processos industriais. Além de garantir o descarte ambientalmente adequado, o sistema permite o reaproveitamento da água e dos resíduos orgânicos resultantes do tratamento.
Tecnologia transforma resíduos em recursos
Segundo Vinícius Junqueira, diretor-geral da Marajoara Laticínios, o processo utilizado pela empresa é baseado na flotação por ar dissolvido (FAD), tecnologia capaz de separar a água das impurezas presentes nos efluentes.
“Por meio desse processo, a água é purificada a um nível superior a 90%, acima do que exige a legislação ambiental. Dessa separação entre a água e as impurezas, é gerada uma biomassa orgânica rica em nutrientes importantes para o solo”, explica.
Inicialmente, o material era encaminhado para uma fazenda de compostagem. Após estudos demonstrarem seu potencial como fertilizante natural, a empresa passou a direcionar a biomassa para propriedades rurais parceiras, onde é utilizada na recuperação e manutenção dos pastos.
A ação beneficia produtores locais, especialmente em períodos de estiagem, quando a disponibilidade de nutrientes e a qualidade da pastagem se tornam desafios para a pecuária.
Água tratada volta ao ciclo produtivo
Além do reaproveitamento da biomassa, a empresa também utiliza a água tratada pela ETE na irrigação de uma área destinada à criação de gado de corte, localizada a cerca de um quilômetro da unidade industrial.
Por meio de um sistema composto por aproximadamente 600 aspersores, a água de reuso mantém o pasto produtivo mesmo durante períodos de seca.
De acordo com a empresa, são utilizados em média 75 mil litros de água por hora, a cada 12 horas, totalizando cerca de 1 milhão de litros de água reaproveitados. Após contribuir para o desenvolvimento da pastagem, a água é absorvida pelo solo e retorna ao lençol freático, completando novamente o ciclo natural.
Indústria e responsabilidade ambiental
O setor industrial é um dos grandes consumidores de recursos hídricos no Brasil. Segundo o Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil, elaborado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a indústria ocupa a terceira posição entre os segmentos que mais utilizam água no país. Dentro desse consumo, a produção de alimentos representa uma parcela significativa.
Com o crescimento da atividade industrial brasileira — que registrou expansão de 8,4% em 2024, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — iniciativas de gestão eficiente da água tornam-se cada vez mais importantes.
O projeto desenvolvido pela Marajoara foi avaliado e validado por estudo técnico da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás. Em 2021, a iniciativa recebeu reconhecimento nacional do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea), sendo vencedora na categoria Elementos Naturais do Prêmio Crea de Meio Ambiente.
Mais do que tratar resíduos, o modelo demonstra como a indústria pode transformar desafios ambientais em oportunidades, unindo produção, preservação dos recursos naturais e desenvolvimento sustentável no campo.

