Redação Plenax – Flavia Andrade
Investimento reúne recursos federais e aporte do Instituto Alana para ampliar pesquisas, reduzir subdiagnósticos e fortalecer atendimento às mulheres pelo SUS
O Governo Federal anunciou um investimento de R$ 60 milhões para impulsionar pesquisas voltadas à saúde menstrual, dor pélvica e endometriose, condição que afeta milhões de brasileiras e ainda enfrenta desafios relacionados ao diagnóstico e ao tratamento. A iniciativa reúne R$ 50 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e outros R$ 10 milhões aportados pelo Instituto Alana.
Os recursos serão destinados por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que lançará uma chamada pública para selecionar projetos de pesquisa em todo o país. O objetivo é ampliar o conhecimento científico sobre a doença, desenvolver novas tecnologias e fortalecer políticas públicas voltadas à saúde da mulher.
O anúncio foi realizado nesta terça-feira (9), em Brasília. Durante o evento, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, destacou a relevância da iniciativa.
“Este é o maior investimento já realizado pelo MCTI em pesquisas voltadas à saúde da mulher. Estamos tratando de um importante problema de saúde pública que exige respostas efetivas do Estado”, afirmou.
Cinco áreas prioritárias
As propostas submetidas ao edital deverão estar enquadradas em um dos cinco eixos temáticos definidos pelo CNPq: causas e prevenção, diagnóstico, tratamento, biorrepositório e impacto social.
A expectativa é que os estudos contribuam para reduzir lacunas no conhecimento sobre a endometriose, doença crônica caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero. A condição afeta aproximadamente uma em cada dez mulheres e meninas em idade reprodutiva e, em muitos casos, leva anos para ser diagnosticada.
Segundo dados do Ministério da Saúde, a doença impacta diretamente a qualidade de vida, a saúde mental, o desempenho escolar e a produtividade profissional das pacientes.
Rede nacional de pesquisa
Além do financiamento dos estudos, o Instituto Alana apoiará a criação de uma rede nacional de pesquisa dedicada à endometriose, dor pélvica e saúde menstrual. A estrutura reunirá os projetos selecionados e oferecerá suporte em comunicação científica, formação de pesquisadores, educação e iniciativas de ciência cidadã.
A parceria dá continuidade à cooperação iniciada em 2024 entre o MCTI e o Instituto Alana, que resultou na criação da Rede Buriti, voltada à pesquisa e inovação sobre Síndrome de Down.
Para a CEO do Instituto Alana, Flavia Doria, a proposta busca aproximar a produção científica da realidade vivida por meninas e mulheres afetadas pela doença.
“A intenção é fortalecer a geração de evidências e criar condições para que o conhecimento científico se traduza em prevenção, redução do tempo de diagnóstico e ampliação do cuidado”, destacou.
Diagnóstico ainda demora anos
Estimativas apontam que cerca de 8 milhões de brasileiras em idade reprodutiva convivem com a endometriose, incluindo aproximadamente 2 milhões de adolescentes. Apesar da elevada incidência, especialistas alertam que o diagnóstico costuma ocorrer tardiamente, com atraso médio de sete anos.
Durante o anúncio, a primeira-dama Janja Lula da Silva ressaltou que temas relacionados à saúde feminina permaneceram invisibilizados por décadas.
“Muitas mulheres convivem com dores intensas sem receber diagnóstico ou acolhimento adequados. A endometriose é um exemplo dessa realidade”, afirmou.
Impactos na educação e no trabalho
Dados divulgados pelo Instituto Alana e pelo Instituto Equidade.info revelam que seis em cada dez estudantes que menstruam relatam sofrer com cólicas moderadas ou intensas, capazes de comprometer atividades diárias e exigir uso frequente de medicamentos.
O impacto também é observado no ambiente escolar. Segundo o levantamento, quatro em cada dez alunas faltam às aulas mensalmente devido às dores menstruais.
Na vida adulta, os reflexos se estendem ao mercado de trabalho. Estudos apontam que mulheres com cólicas intensas podem perder até 10,8 horas semanais de produtividade.
Apesar da frequência dos sintomas, especialistas alertam que as dores menstruais e pélvicas ainda são pouco registradas nos sistemas oficiais de saúde. Uma análise realizada com dados de 469 mil meninas e mulheres de Recife identificou registros formais em apenas 0,5% dos casos. No entanto, ao analisar os relatos textuais dos prontuários médicos, pesquisadores encontraram mais de 41 mil ocorrências relacionadas a dores menstruais e pélvicas, o equivalente a 9% da base estudada.
A iniciativa do Governo Federal busca justamente ampliar a produção científica sobre o tema e acelerar a transformação desse conhecimento em políticas públicas, diagnóstico precoce e atendimento mais eficiente para milhões de brasileiras.

