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Governança é o elo entre legado e futuro

Foto: Divulgação

*Por Talita Cury

Apenas 30% das empresas familiares chegam à segunda geração. O dado chama a atenção não apenas pela taxa de continuidade, mas pelo que ele revela: construir um negócio de sucesso é um desafio. Garantir sua permanência ao longo do tempo pode ser ainda maior. Segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, apenas 13% dessas empresas alcançam a terceira geração e somente 4% chegam à quarta, evidenciando a importância de mecanismos que garantam a perenidade dos negócios.

As empresas nascem da visão empreendedora de seus fundadores, crescem apoiadas em relações de confiança e ajudam a transformar regiões inteiras por meio do trabalho e da inovação. Mas, à medida que amadurecem, surge uma questão central: como assegurar que o legado construído ao longo de décadas continue relevante para as próximas gerações?

A resposta passa pela governança. A continuidade não é uma consequência natural do sucesso. Ela precisa ser planejada, estruturada e conduzida com intencionalidade.

Durante muito tempo, a governança foi associada principalmente às grandes corporações. Hoje, porém, tornou-se uma necessidade estratégica também para as empresas familiares. Os mercados evoluem rapidamente, as exigências regulatórias se intensificam, a tecnologia transforma modelos de negócio e as novas gerações trazem expectativas diferentes das que impulsionaram os ciclos anteriores de crescimento.

Nesse cenário, a governança vai além de um conjunto de regras ou estruturas formais. Seu principal papel é criar as condições para que a empresa cresça de forma sustentável, preservando sua identidade ao mesmo tempo em que se adapta às mudanças. Ela fortalece a tomada de decisão, define responsabilidades, reduz potenciais conflitos e permite que temas essenciais, como sucessão, formação de lideranças e planejamento de longo prazo, sejam tratados de forma antecipada e estratégica.

Existe uma percepção equivocada de que profissionalização e tradição caminham em direções opostas. As empresas familiares mais resilientes mostram justamente o contrário. A profissionalização não substitui os valores que deram origem ao negócio; ela cria mecanismos para que esses valores continuem orientando as decisões em um ambiente cada vez mais desafiador.

O legado de uma empresa familiar não está apenas nos ativos que acumula ou nos resultados que alcança. Está também na capacidade de preparar pessoas, desenvolver lideranças e construir uma organização capaz de prosperar ao longo das gerações.

Em um setor tão estratégico para o Brasil quanto o agronegócio, pensar o futuro exige mais do que expansão e eficiência operacional. Exige estruturas que permitam atravessar ciclos econômicos, transformações de mercado e processos sucessórios com segurança e visão de longo prazo.

A governança, nesse sentido, é muito mais do que uma ferramenta de gestão. É o elo que conecta a história construída até aqui às oportunidades que garantirão a continuidade dos negócios no futuro.

Talita Cury – Conselheira de Administração e Relações Institucionais do Grupo Santa Clara

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