Redação Plenax – Flavia Andrade
Expressões como “perdeu aura”, “six seven” e “brainrot” deixaram de ser apenas modismos da internet para se tornar objeto de análise de especialistas em saúde. Segundo profissionais do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/HU Brasil), o fenômeno reflete mecanismos neurológicos ligados ao pertencimento social, ao sistema de recompensa do cérebro e aos impactos do consumo excessivo de conteúdos digitais.
Para explicar o comportamento da nova geração, o hospital reuniu o neurologista Pedro Levi, especialista em cognição e comportamento, e o psicólogo Thiago Ayala, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia da Saúde. Ambos destacam que o vocabulário das redes sociais vai além de simples gírias e oferece pistas importantes sobre a relação entre tecnologia, comportamento e saúde mental.
Pertencimento impulsiona popularização das gírias
De acordo com Pedro Levi, o cérebro humano foi biologicamente desenvolvido para buscar conexão social. Nesse contexto, utilizar expressões que circulam nas redes funciona como um símbolo de pertencimento a determinado grupo.
“Do ponto de vista neurológico, o cérebro humano é uma máquina social. Somos projetados biologicamente para buscar conexão e pertencimento”, explica o neurologista.
Além do aspecto social, a novidade dessas expressões estimula o sistema de recompensa cerebral. Gírias curtas, diferentes e frequentemente importadas do universo dos jogos ou de outros idiomas provocam rápidas liberações de dopamina, neurotransmissor relacionado ao prazer e à motivação.
Thiago Ayala acrescenta que essas palavras funcionam como códigos compartilhados entre os jovens, especialmente durante a adolescência, período marcado pela construção da identidade e pela necessidade de aceitação.
“Compartilhar uma linguagem, rir das mesmas referências e compreender uma brincadeira que outras pessoas não entendem produz reconhecimento e pertencimento”, afirma o psicólogo.
“Brainrot” descreve sensação real de fadiga mental
Outro termo que ganhou espaço nas redes é “brainrot” — expressão usada de forma bem-humorada para descrever o excesso de consumo de vídeos curtos e conteúdos superficiais.
Segundo Thiago Ayala, a expressão não representa um diagnóstico médico, mas traduz uma percepção comum entre os próprios jovens sobre o cansaço mental provocado pelo uso intenso das redes.
Já o neurologista explica que, embora o cérebro não sofra um “apodrecimento”, o excesso de estímulos pode provocar fadiga mental. O consumo contínuo de conteúdos fragmentados sobrecarrega a memória de trabalho e interfere no funcionamento dos receptores de dopamina, favorecendo o chamado brain fog (névoa mental), caracterizado por dificuldade de concentração, sensação de lentidão e queda no desempenho cognitivo.
Quando o uso das redes passa a preocupar
Os especialistas ressaltam que não existe um tempo exato de uso considerado prejudicial. O principal critério é o impacto que o celular exerce sobre a rotina e a qualidade de vida.
Entre os sinais de alerta estão:
irritabilidade e ansiedade ao ficar longe do celular;
dificuldade para manter a atenção em leituras mais longas;
insônia e sono de baixa qualidade;
esquecimentos frequentes;
perda de interesse por atividades presenciais;
uso das redes sociais como principal forma de aliviar emoções negativas.
Equilíbrio e diálogo são fundamentais
Os especialistas defendem que o caminho não é proibir o uso da tecnologia, mas estimular hábitos mais saudáveis.
Pedro Levi recomenda reduzir o uso de telas entre uma e duas horas antes de dormir, fortalecer atividades que exijam atenção prolongada — como leitura, música e meditação — e desativar notificações desnecessárias para diminuir distrações.
No ambiente familiar, Thiago Ayala orienta que pais e responsáveis priorizem o diálogo em vez de punições, demonstrando interesse pelo universo digital dos adolescentes e estabelecendo momentos livres de celulares, especialmente durante refeições, estudos e antes de dormir.
O psicólogo também destaca que os adultos devem servir de exemplo, adotando uma relação equilibrada com a tecnologia para incentivar hábitos saudáveis entre os jovens.

