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Filtros e inteligência artificial ampliam pressão por padrões de beleza

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Imagens editadas e ferramentas digitais intensificam comparações e podem transformar características antes ignoradas em novas fontes de insatisfação

Filtros, imagens editadas e conteúdos produzidos por inteligência artificial estão tornando os padrões de beleza nas redes sociais cada vez mais difíceis de reproduzir fora das telas. A exposição constante a essas referências pode influenciar a forma como as pessoas percebem o próprio corpo e até levar a questionamentos sobre características que antes não causavam incômodo.

A discussão ganhou força após comentários sobre a aparência de Ariana Grande circularem nas redes sociais, reacendendo o debate sobre os limites entre preocupação, julgamento e body shaming.

Para o cirurgião plástico Marco Dallegrave, pós-graduado em Psiquiatria e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, compreender a origem da insatisfação é tão importante quanto avaliar aquilo que o paciente deseja modificar.

“Hoje não existe apenas a comparação com outra pessoa. Existe a comparação com fotografias selecionadas, ângulos calculados, filtros e imagens modificadas. Quando essa referência passa a determinar como alguém acredita que deveria ser, a imagem corporal nas redes sociais pode interferir diretamente na expectativa levada para dentro do consultório.”

Comparação também pode ser um gatilho

A repercussão sobre a aparência da cantora também trouxe relatos de pessoas que convivem ou já conviveram com transtornos alimentares e que apontaram a discussão sobre magreza e corpo como um possível gatilho.

Para Dallegrave, a comparação nem sempre acontece de maneira consciente.

“A pessoa começa a questionar medidas, proporções ou características que antes não eram um problema. Quando essa insatisfação passa a orientar decisões sobre procedimentos estéticos, é importante entender o que está por trás desse desejo antes de indicar uma cirurgia.”

Quando a imagem digital vira referência

Além dos filtros, ferramentas de inteligência artificial passaram a produzir imagens cada vez mais realistas, criando uma nova possibilidade de comparação: não apenas com outras pessoas, mas com versões digitalmente modificadas de si próprio.

Um estudo publicado em 2025 na revista científica Body Image, com 397 universitários usuários do TikTok, encontrou associação entre o uso de filtros faciais voltados à melhora da aparência e maior insatisfação facial e preocupação com a imagem corporal. Os pesquisadores ressaltaram, porém, que os resultados indicam associação, e não uma relação direta de causa e efeito.

“Uma imagem modificada pode funcionar como referência visual, mas não como promessa de resultado. Anatomia, estrutura óssea, pele, distribuição de gordura e proporções são individuais”, explica o médico.

Desejo de mudança x expectativa irreal

O desejo de modificar uma característica física não significa, por si só, uma relação problemática com a aparência. O sinal de alerta aparece quando a insatisfação muda constantemente, diferentes partes do corpo passam a ser vistas como defeitos ou existe a expectativa de que uma transformação física resolva questões afetivas, profissionais ou sociais.

Por isso, segundo Dallegrave, a avaliação antes de uma cirurgia deve considerar não apenas a possibilidade técnica do procedimento, mas também a origem do incômodo, o resultado esperado e as referências que influenciaram a decisão.

“Existe uma diferença entre querer melhorar algo que incomoda de forma consistente e tentar acompanhar um padrão que muda a cada tendência. Se hoje a referência é um corpo e amanhã surge outro, nenhuma cirurgia conseguirá resolver essa comparação permanente.”

Quando o melhor caminho é não operar

Expectativas incompatíveis com a anatomia, busca recorrente por procedimentos sem satisfação duradoura e a intenção de reproduzir exatamente a aparência de outra pessoa são situações que exigem cautela.

Para o especialista, o cirurgião plástico também precisa reconhecer quando um procedimento não é a melhor escolha.

“O cirurgião também precisa saber dizer não. Quando percebo que a expectativa não corresponde ao que a cirurgia consegue entregar ou que o sofrimento apresentado vai além de uma característica física, operar pode não ser a melhor escolha.”

A cirurgia plástica pode contribuir para o bem-estar quando existe uma queixa consistente, indicação médica e expectativa compatível com as possibilidades do procedimento. Em um ambiente digital marcado por filtros, inteligência artificial e comparação constante, Dallegrave defende que a individualidade seja preservada.

“A cirurgia pode modificar características físicas, mas não deve carregar a responsabilidade pela autoestima ou pela felicidade de uma pessoa.”

Nesse contexto, separar o desejo genuíno de mudança da pressão provocada por tendências e comparações pode ajudar a tornar a decisão sobre um procedimento mais consciente.

Próximo ajuste editorial útil: eu deixaria a menção a Ariana Grande ainda mais curta no lead, para que a matéria não pareça centrada na celebridade, mas sim no fenômeno dos filtros e da comparação digital.

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