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Exposição em Campo Grande reúne pinturas e memórias da infância em instalação sonora

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

“O que permanece em nós?”, de Wendel Fontes, será aberta em outubro e reúne 21 pinturas sobre infância, memória e vida adulta

Uma árvore de cerca de 2,5 metros, coberta por latinhas de alumínio que reproduzem histórias de infância contadas por pessoas idosas, será uma das obras que poderão ser vistas a partir de outubro em Campo Grande. A instalação integra a exposição “O que permanece em nós?”, do artista visual sul-mato-grossense Wendel Fontes, que reúne 21 pinturas e uma instalação sonora na Galeria Wega Nery, do Centro Cultural José Octávio Guizzo.

A abertura será realizada no dia 2 de outubro, às 19h, com apresentação da banda Vosmecê. A exposição permanece em cartaz até 30 de outubro, com entrada gratuita.

Produzidas entre 2023 e meados de 2026, as obras são resultado de aproximadamente três anos de pesquisa do artista sobre as relações entre infância, memória, imaginação e os desafios da vida adulta.

Nas pinturas, crianças aparecem em situações de brincadeira, descoberta e introspecção. As imagens, porém, não buscam reproduzir uma visão idealizada ou nostálgica da infância. Objetos fora de contexto, perspectivas distorcidas, cores vibrantes e situações que transitam entre realidade e imaginação criam cenas em que lembrança e ficção se misturam.

Pintura como processo de descoberta

A exposição também representa uma etapa da transformação do próprio processo artístico de Wendel. No início da trajetória, ele trabalhava principalmente com retratos produzidos a partir de modelos e fotografias. Com o tempo, passou a utilizar essas referências como pontos de partida para construir imagens que não necessariamente reproduzem aquilo que está diante dos olhos.

O artista define esse processo como um exercício de lentidão.

“Eu costumo dizer que trabalho com a lentidão. Eu venho aprendendo cada vez mais a respeitar o tempo de cada trabalho. Eu inicio um trabalho com uma ideia, uma direção geral, mas o caminho percorrido é definido ao longo do processo”, explica.

Para Wendel, o próprio ato de pintar exige que esse tempo seja respeitado.

“A pintura é uma imagem que começa com as mãos antes de chegar aos olhos, então é preciso respeitar esse tempo”, afirma.

Essa desaceleração também está presente na experiência que o artista pretende proporcionar aos visitantes.

Infância como ponto de partida

Na exposição, a criança não aparece apenas como representação de uma fase da vida. Para Wendel, ela funciona como uma alegoria para refletir sobre desejos, angústias e a maneira como as pessoas constroem sua relação com o mundo.

“A imagem da criança aparece mais como uma alegoria. Nossos desejos mais íntimos, o modo como percebemos o mundo a nossa volta, a maneira como lidamos com os desafios que a vida nos impõe e nossas angústias têm suas bases formadas na fase da infância”, afirma.

Os títulos também desempenham papel importante nessa construção. Obras como “Pensamentos náuticos num corpo náufrago”, “Fazer do ócio ofício”, “Cultivar a densidade dos sonhos” e “Calcule: quanto peso tem num desejo?” utilizam as palavras não apenas como identificação, mas como elementos que ampliam as possibilidades de interpretação das pinturas.

Árvore transforma memórias em instalação

A instalação sonora é construída em torno de uma árvore seca de aproximadamente 2,5 metros, com latinhas de alumínio penduradas nos galhos. A estrutura faz referência à antiga brincadeira do telefone sem fio.

Por meio das latas, o visitante poderá ouvir relatos de pessoas idosas sobre suas próprias memórias de infância. Os áudios foram produzidos a partir de um projeto desenvolvido com idosos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

A escolha do telefone sem fio está ligada à necessidade de silêncio e atenção presente na brincadeira.

“Para ouvir bem a voz da outra pessoa era necessário fazer silêncio e prestar atenção. A voz chegava bem fraquinha, mas era possível ouvir muito bem a mensagem que vinha do outro lado, pela vibração da linha”, conta o artista.

A presença das vozes cria uma relação entre diferentes momentos da vida. Ao lado das imagens de crianças, as lembranças narradas por pessoas idosas introduzem uma reflexão sobre passagem do tempo e transformação das memórias.

“Achei que seria interessante pôr vozes de pessoas idosas contando suas memórias da infância, pois isso estabelece de início uma ideia de oposição. Mas, ao mesmo tempo, traz uma relação com o tempo, como as lembranças são temperadas à medida que vamos amadurecendo na vida”, afirma.

A própria árvore utilizada na instalação carrega uma memória. O artista encontrou o material depois que uma árvore foi derrubada pelo vento durante uma das tempestades que atingiram Campo Grande.

“É uma árvore que guarda uma memória, mas que ganhou um novo significado ao ser transformada numa obra”, explica.

Exposição propõe olhar para o que ficou da infância

Formado em Artes Visuais e pós-graduado em História da Arte, Wendel Fontes desenvolve trabalhos principalmente nas áreas de pintura e fotografia. Ao longo da carreira, já expôs no Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul (MARCO), na Galeria de Artes Visuais da UFMS e no Museu Casa-quintal Manoel de Barros, além de participar de eventos como o Campão Cultural, o Festival América do Sul e o Festival de Inverno de Bonito.

Parte de sua produção integra acervos públicos de Mato Grosso do Sul.

Em “O que permanece em nós?”, o artista reúne pela primeira vez, nesse formato, um conjunto mais amplo da pesquisa desenvolvida nos últimos três anos. A proposta é convidar o público a observar as obras sem pressa e refletir sobre aquilo que permanece depois que a infância passa.

“O título da exposição é uma pergunta: o que permanece em nós? O modo como cada um vai responder a essa questão é muito subjetivo. Mas gostaria de propor esse espaço aos visitantes para desacelerar um pouco, e tentar resgatar uma coisa muito preciosa que normalmente deixamos para trás junto com a infância, que é esse olhar para o mundo com curiosidade e desejo de imaginar algo novo”, conclui.

Além das obras, a exposição terá ações de mediação educativa e recursos de acessibilidade, incluindo Libras, audiodescrição das obras por QR Code e materiais audiovisuais com legendas.

Serviço

Exposição: “O que permanece em nós?” – Wendel Fontes
Abertura: 2 de outubro de 2026, às 19h, com apresentação da banda Vosmecê
Período: 2 a 30 de outubro de 2026
Horários: terça a sexta, das 8h às 20h; sábado, das 8h às 22h; domingo, conforme o funcionamento do Teatro Aracy Balabanian
Local: Galeria Wega Nery – Centro Cultural José Octávio Guizzo
Endereço: Rua 26 de Agosto, 453, Centro, Campo Grande (MS)
Entrada: gratuita
Acessibilidade: Libras, audiodescrição por QR Code e materiais audiovisuais com legendas

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