Por Maria Klien, psicóloga
Existe um tipo de medo que não aparece diante de algo que aconteceu, mas diante daquilo que imaginamos que possa acontecer. Ele pode surgir na espera pelo resultado de um exame ou por uma ligação do médico. É o medo diante da possibilidade de ouvir uma palavra que pode mudar a maneira como enxergamos o futuro.
No mês da campanha do Outubro Rosa, falar sobre prevenção do câncer de mama também significa olhar para as emoções que podem nos aproximar ou nos afastar do cuidado com o próprio corpo. Muitas mulheres adiam a mamografia mesmo sabendo da relevância do exame. Nem sempre isso acontece por falta de informação, mas porque podem se sentir emocionalmente despreparadas para lidar com a possibilidade de uma notícia difícil.
Evitar o exame pode trazer alívio por alguns minutos, dias ou até meses. Afinal, enquanto ele não é realizado, também não é preciso enfrentar o resultado temido. Mas existe um preço para essa tentativa de proteção. A dúvida permanece e pode ocupar um espaço cada vez maior na imaginação. O medo começa a antecipar cenários na tentativa de nos proteger, mas nem sempre imagina aquilo que é mais provável. Muitas vezes, a mente imagina justamente aquilo que mais nos assusta.
É nesse momento que um exame pode deixar de ser percebido apenas como um procedimento médico e passar a representar, emocionalmente, a possibilidade de uma doença, de um tratamento difícil, de uma perda ou até de algo que pode mudar uma vida.
Existe, porém, uma diferença entre investigar uma possibilidade e confirmar uma realidade. Fazer uma mamografia não significa receber um diagnóstico de câncer. Significa buscar informações sobre a própria saúde. Essa mudança de perspectiva pode ajudar na maneira como lidamos com o medo, porque não saber também significa permanecer diante da incerteza.
Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Mastologia em parceria com a Libbs mostrou a dimensão desse problema. Entre as mulheres entrevistadas, 54,5% apontaram o medo de detectar alterações na mama como motivo para evitar o exame. O levantamento também identificou outros obstáculos, como dificuldade de acesso, desinformação e demora para conseguir atendimento.
Quando o obstáculo é o medo, pode ser necessário olhar para o que está por trás da decisão de adiar o exame. Pode ser o receio de uma doença, a lembrança de alguém que já passou por essa experiência ou até o medo de perder o controle sobre a própria vida.
Dar nome a esse sentimento pode ser mais importante do que tentar simplesmente eliminá-lo. Não precisamos esperar que o medo desapareça para cuidar de nós mesmas. Podemos estar apreensivas, realizar o exame e, mesmo sem saber qual será o resultado, escolher conhecer a realidade.
Isso ganha ainda mais relevância quando consideramos que o diagnóstico precoce está associado a melhores possibilidades de tratamento. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no triênio 2026–2028. A detecção em fases iniciais pode ampliar significativamente as possibilidades de tratamento e cura.
Também é importante reconhecer que a investigação de uma doença pode afetar emocionalmente uma pessoa. Um estudo publicado na JAMA Oncology, que analisou mais de 300 mil pacientes com câncer na Suécia, identificou aumento nas taxas relativas de transtornos mentais nos meses que antecederam o diagnóstico. O dado ajuda a mostrar que o período de investigação não envolve apenas exames e consultas: existe também uma experiência psicológica acontecendo.
Cuidar da saúde, portanto, não é apenas uma forma de convencer alguém a fazer um exame. Significa também compreender o que pode estar por trás da resistência. Muitas vezes, a mulher não está evitando a mamografia em si, mas o medo que imagina sentir depois de realizá-la.
O cuidado começa quando reconhecemos que não podemos controlar todas as possibilidades, mas podemos escolher como lidar com aquilo que nos assusta. Entre imaginar o pior e conhecer a realidade, existe um caminho que passa pelo cuidado, pela informação e pela coragem de enfrentar a incerteza.

