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Entre máquinas e livros, trabalhadores da indústria constroem futuro em Inocência

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Curso preparatório gratuito para o Encceja registra 63% de aprovação e abre caminho para novas oportunidades no setor industrial

A rotina começa antes das 5 horas da manhã para muitos trabalhadores que atuam na construção da fábrica de celulose em Inocência, no Mato Grosso do Sul. Depois de um dia inteiro no canteiro de obras, eles ainda encontram disposição para voltar à sala de aula e concluir os estudos.

“A oportunidade está aí. Só não vai abraçar quem não quer.” A frase do operador de máquinas Marcolino de Souza Santos resume a decisão de trabalhadores que estão retomando um projeto interrompido há anos: concluir os ensinos fundamental e médio e conquistar uma certificação que pode abrir novas portas no mercado de trabalho.

Em Inocência, município que passa por uma transformação econômica com a implantação de uma fábrica de celulose, trabalhadores participam de um curso preparatório gratuito para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja). A iniciativa é oferecida pela Arauco, em parceria com a Prefeitura de Inocência e apoio do Sesi.

O projeto oferece estrutura para facilitar a participação dos trabalhadores, com escola, professores, material didático, alimentação e monitor infantil para pais e mães que precisam conciliar os estudos com a rotina familiar.

Os resultados obtidos no município chamam a atenção. No ano passado, 63% dos participantes do projeto foram aprovados no Encceja, índice muito superior à média nacional de 12,5%. Em 2026, o exame está previsto para o dia 23 de agosto em todo o país.

Indústria aumenta procura por profissionais qualificados

A chegada de novos empreendimentos e a expansão de cadeias produtivas, especialmente a da celulose, aumentaram a demanda por trabalhadores qualificados em Inocência. Com oportunidades e salários mais atrativos, as vagas na indústria passaram a despertar o interesse de profissionais de diferentes regiões do país.

É o caso do carpinteiro Marcelo Augusto Brito, que deixou o Maranhão para trabalhar na construção da fábrica. Depois do expediente, ele segue para a escola e passa mais três horas estudando para conquistar o certificado.

“Depois de um dia inteiro de trabalho, a gente ainda vem para a aula. Não sei de onde tiro tanta disposição, mas a vontade de crescer e buscar conhecimento é maior”, reconhece.

Para Marcolino, o retorno à escola representa a retomada de um sonho interrompido pelas dificuldades de acesso à educação na zona rural da Bahia, onde nasceu.

“Para mim, a escola está sendo uma terapia. Chego aqui cansado, mas quando entro na sala de aula, ganho forças para continuar. Eu não vou desistir. Quero concluir os estudos e seguir construindo o meu futuro”, afirma.

Educação como caminho para novas oportunidades

Com duração de três meses, o curso é realizado no Centro de Educação Integrada Prof. Olivalto Elias da Silva, em Inocência. As aulas incluem acompanhamento pedagógico e simulados que reproduzem as condições encontradas pelos candidatos durante o exame.

Segundo o gerente regional Leste do Sesi, Raphael Affonso, a iniciativa busca utilizar a educação como instrumento de transformação para os trabalhadores e suas famílias.

“O trabalhador é o epicentro dessa mudança. Ele muitas vezes deixa a família, vem em busca de uma oportunidade e, além da experiência profissional, conquista educação. Quando ele transforma a própria vida, transforma também a vida da família e das pessoas ao seu redor”, afirma.

A secretária municipal de Educação de Inocência, Adriana Franco, destaca que a qualificação dos trabalhadores também acompanha o processo de desenvolvimento vivido pelo município.

“Precisamos de pessoas mais qualificadas e preparadas para o mercado de trabalho. Muitos trabalhadores que chegaram para a construção da fábrica querem permanecer aqui. Isso é muito importante, porque investir em educação é investir também no futuro da cidade”, ressalta.

A gerente de Desempenho Social da Arauco, Claudia Belchior, também destaca a importância da elevação da escolaridade para ampliar as oportunidades de capacitação e inserção profissional.

“A elevação de escolaridade é um grande passo para que possamos oportunizar mais capacitações de moradores para o mercado de trabalho”, afirma.

Certificação pode abrir portas na futura fábrica

Para os trabalhadores, a conclusão dos estudos representa mais do que a obtenção de um certificado. É também uma forma de se preparar para novas oportunidades que devem surgir com o início da operação da fábrica.

Marcelo acredita que a qualificação pode ajudá-lo a permanecer em Inocência e construir uma trajetória profissional após o fim das obras.

“A obra vai acabar, mas a fábrica vai precisar de profissionais preparados. Por isso, estou concluindo os estudos, para tentar uma vaga dessas. Quero construir uma carreira aqui, conquistar um cargo melhor e dar mais estabilidade para a minha família”, afirma.

Em meio ao avanço das obras e à chegada de novos trabalhadores, a sala de aula se tornou mais um espaço de construção de futuro em Inocência desta vez, com livros, conhecimento e a perspectiva de novas oportunidades profissionais.

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