Redação Plenax – Flavia Andrade
Mulheres com parentes de primeiro grau diagnosticados têm maior risco de desenvolver a doença; especialista alerta para sinais que costumam ser confundidos com cólica menstrual
Cólicas intensas e recorrentes podem atravessar gerações de uma mesma família e, por muito tempo, serem encaradas como parte natural da vida das mulheres. No entanto, o histórico familiar é um dos fatores associados ao risco de desenvolvimento da endometriose, condição que pode provocar dor pélvica, afetar a fertilidade e comprometer a qualidade de vida.
Estudos publicados desde a década de 1990 apontam uma associação entre histórico familiar e maior risco da doença. Pesquisa de Treloar et al. (1999), citada na literatura médica, indica que mulheres com mãe, irmã ou filha diagnosticada com endometriose podem apresentar risco significativamente maior de desenvolver a condição.
No Brasil, estimativas apontam que milhões de mulheres convivem com a doença, enquanto o diagnóstico pode levar anos. Segundo o especialista em endometriose, adenomiose e miomas Thiers Soares, a normalização da dor menstrual ainda é um dos fatores que contribuem para o atraso na investigação.
“A mulher cresce ouvindo que cólica é normal, que a mãe também tinha, que é assim mesmo. Quando ela finalmente chega ao consultório, muitas vezes a doença já comprometeu estruturas importantes”, afirma.
Quando a cólica merece investigação
A dor durante a menstruação pode ter diferentes causas e nem toda cólica indica endometriose. Porém, sintomas intensos ou recorrentes devem ser avaliados por um profissional de saúde.
Entre os sinais que podem justificar investigação estão dores que comprometem as atividades cotidianas, que persistem apesar do uso de analgésicos, dor pélvica fora do período menstrual e desconforto durante as relações sexuais ou ao urinar.
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio se desenvolve fora da cavidade uterina, podendo atingir estruturas como ovários, trompas e outros órgãos da pelve.
Outra condição que pode provocar sintomas semelhantes é a adenomiose, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio no músculo do útero. As duas doenças podem coexistir e estão associadas a dificuldades reprodutivas em parte das pacientes.
Dados citados pelo Instituto GERA apontam que a adenomiose pode estar relacionada à redução da chance de gravidez clínica e ao aumento do risco de aborto espontâneo. A avaliação, entretanto, deve considerar as características individuais de cada paciente.
“Eu costumo dizer que o útero é um órgão nobre. Ele merece atenção, investigação e, acima de tudo, respeito. Quando tratamos essas doenças com a precisão que elas exigem, devolvemos à mulher o controle sobre o próprio corpo e sobre seus planos de vida”, afirma Thiers.
Cirurgia robótica amplia possibilidades de tratamento
O avanço das técnicas minimamente invasivas também modificou a abordagem cirúrgica de casos complexos de endometriose e outras doenças ginecológicas.
A cirurgia robótica utiliza recursos como visão tridimensional ampliada e instrumentos articulados, que permitem maior precisão em procedimentos realizados em regiões de difícil acesso.
Em casos selecionados, a técnica pode ser utilizada para tratar focos de endometriose com preservação de estruturas reprodutivas. A indicação depende, porém, da extensão da doença, das condições clínicas e dos objetivos de cada paciente.
Segundo Thiers Soares, a tecnologia pode ser especialmente relevante em situações nas quais a preservação da fertilidade faz parte do planejamento terapêutico.
“A robótica não veio substituir o cuidado humano. Ela veio torná-lo mais certeiro. Em casos complexos, essa precisão é o que permite preservar a fertilidade, em que antes só se enxergava a retirada do órgão como saída”, explica.
Histórico familiar deve ser informado ao ginecologista
Mulheres que têm mãe, irmã ou outra parente de primeiro grau com diagnóstico de endometriose devem informar esse histórico ao ginecologista. A presença de familiares com a doença, por si só, não significa que a mulher necessariamente desenvolverá a condição, mas pode ser considerada na avaliação clínica.
A identificação dos sintomas e a investigação adequada podem contribuir para que o tratamento seja iniciado de acordo com as necessidades de cada paciente.
O tema também ganhou espaço no debate sobre políticas públicas. O Projeto de Lei 850/2025, citado no material, propõe atendimento integral para pacientes com adenomiose pelo Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo serviços como suporte psicológico, fisioterapia e tratamentos cirúrgicos de maior complexidade.
Para o especialista, ampliar o reconhecimento dessas condições é parte do processo de mudança na forma como a dor ginecológica é encarada.
“Quando a paciente e o médico agem de forma preventiva, nós mudamos o desfecho da história. O futuro da ginecologia moderna não está em remediar o estrago causado pela dor crônica, mas em interceptar a doença antes que ela reescreva as escolhas de uma mulher”, finaliza Thiers Soares.

