Redação Plenax – Flavia Andrade
Fenômeno climático deve ganhar força no segundo semestre e pode afetar oferta de matéria-prima, logística e capital de giro; mercado tem R$ 6 bilhões disponíveis para crédito estruturado
O possível fortalecimento do El Niño no segundo semestre de 2026 coloca um novo fator de risco no planejamento da cadeia agroindustrial brasileira para a safra 2026/27. Além dos efeitos sobre o desenvolvimento das lavouras, alterações no regime de chuvas podem afetar a oferta e o período de entrega de matérias-primas, pressionando estoques, contratos e o capital de giro das empresas.
O impacto, no entanto, tende a variar conforme a região. Historicamente, o El Niño está associado à redução das chuvas em áreas do Norte e Nordeste e ao aumento das precipitações no Sul do país.
Em um cenário de intensidade muito forte, estimativas indicam que a produção brasileira de grãos poderia sofrer redução de até 10%. Considerando as cerca de 320 milhões de toneladas de soja e milho estimadas para a safra 2025/26, isso representaria um volume potencial de aproximadamente 32 milhões de toneladas afetadas.
O número, porém, representa um cenário de risco e não uma previsão de perda para a safra 2026/27.
Efeito climático pode chegar ao caixa
Os primeiros impactos ocorrem diretamente nas lavouras, mas podem se espalhar rapidamente pela cadeia produtiva.
No centro-norte do país, períodos de deficiência hídrica e temperaturas elevadas podem prejudicar o desenvolvimento das culturas. No Sul, o aumento das chuvas pode elevar o risco de encharcamento do solo, ocorrência de doenças, dificuldades para a entrada de máquinas e atrasos na colheita e no escoamento da produção.
Para as agroindústrias, uma safra irregular pode significar receber menor quantidade de matéria-prima, enfrentar atrasos nas entregas ou precisar buscar fornecedores em outras regiões.
Essas mudanças afetam diretamente o planejamento financeiro das empresas, que podem precisar rever compras, estoques, contratos e cronogramas de entrega.
“O choque começa na produção, mas não termina no campo. Se uma agroindústria recebe menos matéria-prima, recebe mais tarde ou precisa buscar produto em outra região, isso muda o fluxo financeiro da operação. O desafio é ter caixa para atravessar essa mudança sem comprometer fornecedores, estoque e compromissos já assumidos”, afirma Priscila de Freitas, diretora de crédito da Multiplike.
Endividamento aumenta pressão sobre o crédito
O possível impacto climático ocorre em um momento de maior pressão financeira sobre parte do setor. O aumento do endividamento, das renegociações e dos pedidos de recuperação judicial entre produtores tem levado instituições financeiras a adotar critérios mais rigorosos na concessão de crédito.
Uma eventual quebra ou atraso da produção pode ampliar essa pressão. A redução da oferta ou o adiamento das entregas pode alterar os fluxos de recebimento e pagamento de empresas que atuam na compra, armazenagem, processamento e distribuição de produtos agrícolas.
Nesse cenário, pode surgir um descasamento entre a chegada da matéria-prima, a geração de receita e a necessidade de recursos para manter a operação.
Crédito estruturado ganha espaço
É nesse ponto que o crédito estruturado pode funcionar como uma ferramenta de planejamento financeiro para empresas expostas às oscilações da cadeia agrícola.
A estratégia permite estruturar operações considerando diferentes tipos de garantias, como imóveis, recebíveis, contratos de venda, estoques e outros ativos, conforme as características de cada operação.
“Esperar o impacto aparecer no estoque ou no recebível para buscar capital reduz a margem de reação da empresa. Com um El Niño forte atravessando a formação da safra, a agroindústria precisa projetar não apenas quanto pretende comprar ou processar, mas o que acontece com seu caixa caso a matéria-prima chegue em menor volume, mais tarde ou a um custo diferente do esperado”, explica Priscila.
Segundo a Multiplike, a empresa dispõe de R$ 6 bilhões para operações de crédito estruturado destinadas às agroindústrias em 2026.
Com a possibilidade de condições climáticas diferentes entre as regiões produtoras, o planejamento financeiro ganha peso para empresas que dependem do fluxo regular de grãos e outras matérias-primas. Nesse contexto, antecipar cenários e manter acesso a capital pode ajudar a cadeia a absorver eventuais alterações na produção, nos custos e no cronograma de entrega.

