Redação Plenax – Flavia Andrade
Dados apontam crescimento na busca por atendimento, aumento do esgotamento profissional e impactos causados pela combinação entre metas, dívidas e falta de descanso
Com o fim do ano se aproximando e sem feriados prolongados no horizonte, agosto se tornou um período marcado por um aumento significativo da sensação de cansaço e sobrecarga entre os brasileiros. O chamado “Efeito Agosto” descreve o momento em que a pressão acumulada dos primeiros meses do ano começa a refletir de forma mais intensa na saúde mental, no corpo e na vida financeira dos trabalhadores.
O fenômeno, segundo especialistas, não está relacionado apenas a uma percepção de rotina mais pesada. Dados de saúde e economia indicam que o segundo semestre concentra sinais de maior desgaste, especialmente diante da cobrança por resultados, cumprimento de metas e dificuldades financeiras enfrentadas por muitas famílias.
Procura por atendimento cresce no período
Um levantamento da Unolife, plataforma de inteligência e gestão de saúde integral, aponta que agosto registrou aumento na procura por atendimento em comparação com outros meses do ano.
Em 2025, o volume de consultas realizadas pela plataforma foi 25% superior à média mensal anual. A tendência também havia sido observada em 2024, quando o mês ficou 22% acima da média registrada no período.
Outro dado chama atenção: os atendimentos realizados no segundo semestre de 2025 cresceram 64% em relação ao primeiro semestre, indicando uma concentração maior da busca por suporte relacionado à saúde e ao bem-estar nos meses finais do ano.
Para especialistas, o período representa uma fase em que o organismo começa a cobrar a conta de meses seguidos de alta exigência sem recuperação adequada.
Sobrecarga atinge mente, corpo e orçamento
O chamado Efeito Agosto reúne três fatores que se influenciam diretamente: desgaste emocional, sintomas físicos e dificuldades financeiras.
Saúde mental entra em alerta
O Brasil está entre os países com altos índices de estresse. Segundo levantamentos citados pela Unolife, cerca de 42% dos brasileiros relatam sentir estresse constantemente, enquanto o país também apresenta uma das maiores incidências de burnout entre trabalhadores.
O impacto já aparece no mercado de trabalho. Dados do Ministério da Previdência Social apontaram crescimento expressivo nos afastamentos relacionados a transtornos mentais e comportamentais, com mais de 546 mil registros, além de aumento significativo nos casos associados ao burnout nos últimos anos.
O excesso de cobrança, a pressão por resultados e a ausência de períodos adequados de recuperação podem favorecer sintomas como ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação de esgotamento.
O corpo também sente os efeitos
A sobrecarga emocional frequentemente se manifesta fisicamente. Pesquisas indicam que mais de 70% dos trabalhadores relatam sintomas físicos associados ao estresse, como insônia, cansaço extremo e irritabilidade.
O estresse prolongado mantém níveis elevados de cortisol, hormônio relacionado à resposta de alerta do organismo, podendo contribuir para a chamada “névoa mental” (brain fog) — dificuldade de concentração, falhas de memória recente e redução da capacidade de tomada de decisão.
Mulheres aparecem entre os grupos mais afetados, especialmente pela combinação entre responsabilidades profissionais e demandas familiares.
Pressão financeira aumenta sensação de exaustão
Além dos desafios emocionais e físicos, o cenário financeiro também pesa na rotina dos brasileiros.
Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic/CNC), divulgados pelo Senado Federal, apontam que o endividamento das famílias alcançou 80,9% no primeiro semestre, com o cartão de crédito entre as principais modalidades de dívida.
O levantamento da Serasa também indica milhões de brasileiros com restrições financeiras, cenário que afeta diretamente despesas essenciais como alimentação, contas domésticas e cuidados com a saúde.
Para especialistas, a preocupação constante com dinheiro pode manter o organismo em estado permanente de alerta, aumentando a sensação de ansiedade e reduzindo a capacidade de recuperação.
“Não é falta de organização, é acúmulo de pressão”, explica especialista
Para Caroline Macarini, psicóloga clínica e cofundadora da Unolife, o fenômeno não deve ser interpretado como uma falha individual.
“O Efeito Agosto não é uma falha de gestão de tempo, mas a consequência de sete meses contínuos de exigência sem a devida recomposição biológica e financeira”, afirma.
Segundo ela, mente, corpo e orçamento funcionam de forma integrada.
“Quando o trabalhador recorre ao crédito para cobrir despesas básicas ou perde qualidade de sono preocupado com as finanças, o nível de cortisol permanece elevado e o rendimento cai. Para as organizações, o caminho é deixar de agir apenas quando ocorre um afastamento e começar a identificar sinais de esgotamento antes do colapso”, destaca.
Como reduzir os impactos do segundo semestre
Para atravessar os próximos meses com mais equilíbrio, especialistas recomendam algumas mudanças na rotina:
Reconhecer sinais de exaustão mental
Dificuldade de concentração, esquecimentos frequentes e irritabilidade podem ser sinais de sobrecarga e não apenas falta de motivação.
Criar pausas durante o trabalho
Intervalos curtos de cinco a dez minutos ao longo do dia ajudam o sistema nervoso a sair do estado constante de alerta.
Priorizar a qualidade do sono
Reduzir o uso de telas antes de dormir e evitar estimulantes no fim do dia pode favorecer uma recuperação mais eficiente.
Organizar a vida financeira
Ignorar problemas financeiros tende a aumentar a ansiedade. Mapear gastos essenciais e buscar negociação de dívidas ajuda a recuperar a sensação de controle.
Empresas devem atuar preventivamente
Gestores e equipes de recursos humanos podem acompanhar mudanças de comportamento, aumento de faltas e sinais de desgaste antes que o problema resulte em afastamentos.
Mais do que um período específico do calendário, o “Efeito Agosto” representa um alerta sobre a necessidade de equilibrar produtividade e saúde. O desafio do segundo semestre, segundo especialistas, é evitar que a busca por resultados aconteça às custas do bem-estar das pessoas.

