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Economistas contestam narrativa sobre gastos públicos e apontam juros altos como principal pressão sobre dívida brasileira

Foto: Agência Brasil

Redação Plenax – Flavia Andrade

Especialistas afirmam que custo dos juros supera impacto das despesas do Estado e criticam modelo econômico focado no setor financeiro

O debate sobre as contas públicas voltou ao centro da discussão econômica no Brasil após especialistas questionarem a tese de que os gastos do governo seriam os principais responsáveis pelo aumento da dívida pública e pela manutenção dos juros elevados no país.

Economistas ouvidas pela Agência Brasil defendem que o maior fator de pressão sobre a dívida brasileira atualmente são os juros pagos pela União, que consumiram mais de R$ 1 trilhão nos últimos 12 meses.

Dados do Banco Central do Brasil apontam que o país gastou R$ 1,08 trilhão com juros até março, valor equivalente a 8,35% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo período, a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 80,1% do PIB, somando R$ 10,4 trilhões.

Segundo o próprio Banco Central, a principal causa do aumento recente da dívida foi a incorporação dos juros nominais.

“São os juros que pressionam a dívida”, dizem especialistas

Para a professora Juliane Furno, da Universidade Federal Fluminense (UFF), existe contradição na ideia de que os juros elevados seriam apenas uma resposta ao crescimento da dívida pública.

“É uma hipocrisia apontar que os juros altos respondem à elevação da dívida, porque são os juros que a causam”, afirmou a economista.

A professora Maria Mello de Malta, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que o atual modelo econômico brasileiro favorece prioritariamente o setor financeiro, em detrimento do crescimento produtivo e da oferta de serviços públicos.

“O que mais me choca é usar um país do tamanho do Brasil como uma simples plataforma financeira”, declarou.

Debate envolve inflação, Selic e gastos públicos

O tema ganhou força em meio às discussões sobre a taxa básica de juros, a Taxa Selic, atualmente entre as mais altas do mundo em termos reais.

Parte dos economistas argumenta que os juros elevados seriam necessários para conter a inflação e equilibrar as contas públicas, defendendo maior disciplina fiscal e redução de gastos do governo.

Essa visão também aparece em atas do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, que frequentemente cita a necessidade de controle fiscal como fator importante para estabilidade econômica.

Por outro lado, economistas de linha heterodoxa afirmam que o corte de gastos públicos pode comprometer áreas como saúde, educação e assistência social, além de reduzir o crescimento econômico.

Segundo Maria Malta, a redução dos investimentos públicos tende a enfraquecer a arrecadação e dificultar ainda mais o controle da dívida.

“Gastar menos só tem um efeito: piorar o crescimento econômico, aumentar o desemprego e a dívida porque o lado da receita diminui quando o crescimento diminui”, explicou.

Especialistas defendem estímulo à produção para conter inflação

A professora Maria Lourdes Mollo, da Universidade de Brasília (UnB), defende que o combate à inflação não deve ocorrer apenas pela redução da demanda via juros altos, mas também pelo estímulo à produção e ao aumento da capacidade produtiva do país.

Segundo ela, juros elevados dificultam investimentos, reduzem a expansão da oferta e acabam limitando soluções estruturais para o controle inflacionário.

“Há um impacto negativo da taxa de juros altos sobre a capacidade produtiva da economia”, afirmou.

As especialistas também criticam comparações frequentes entre o orçamento do Estado e as finanças de uma família, argumentando que governos possuem instrumentos econômicos próprios, como emissão de moeda e definição de política monetária.

O debate sobre juros, dívida pública e gastos do governo segue dividindo economistas e influencia diretamente as discussões sobre crescimento econômico, inflação, investimentos e políticas sociais no país.

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