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Do trauma ao recomeço: rede de proteção cresce em MS, mas feminicídios expõem falhas no sistema

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

A tentativa de estrangulamento sofrida por D.B.L., ainda com o filho bebê ao lado, foi o ponto de ruptura de um ciclo de violência que durava anos dentro de casa. A partir dali, começou uma jornada que evidencia um dos maiores desafios de Mato Grosso do Sul: garantir que mulheres em situação de risco encontrem proteção antes que a violência termine em morte.

O caso ilustra a complexidade do problema. Mais do que registrar ocorrência, vítimas precisam de apoio psicológico, orientação jurídica, segurança, renda e condições para recomeçar. É nesse cenário que o Estado tenta avançar com a ampliação da rede de enfrentamento à violência doméstica.

Criado em 2025, o programa Protege passou a integrar diferentes áreas — segurança pública, assistência social, educação e desenvolvimento econômico — com a proposta de atuar desde a prevenção até a reconstrução da vida das vítimas.

“A rede cresceu, mas a permanência dos feminicídios mostra que ainda existem lacunas entre o pedido de ajuda e a proteção efetiva”, afirmou o governador Eduardo Riedel.

Os números reforçam o alerta. Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 128 casos de feminicídio consumado ou tentado, com 39 mortes. Apenas no primeiro semestre de 2026, outras 18 mulheres já foram assassinadas.

Grande parte dessas vítimas sequer chegou a acionar os mecanismos de proteção: 91,5% não possuíam medida protetiva.

Estrutura avança, mas desafio persiste

Uma das principais apostas do Estado é a interiorização do atendimento. Com a implantação de novas unidades, Mato Grosso do Sul chegou a 66 Salas Lilás — espaços dentro de delegacias preparados para acolher vítimas com privacidade.

Além disso, a Casa da Mulher Brasileira, em Campo Grande, segue como referência no atendimento integrado, reunindo serviços policiais, jurídicos e psicossociais no mesmo local.

Outro avanço foi a digitalização do sistema de medidas protetivas. Com a plataforma IntegraJus Mulher, decisões judiciais passaram a chegar às forças de segurança em até 48 horas.

Apesar disso, especialistas apontam que o maior gargalo ainda está antes desse processo: muitas mulheres não denunciam ou procuram ajuda apenas quando a violência já atingiu níveis extremos.

Sinais ignorados e risco crescente

De acordo com a Polícia Civil, o feminicídio raramente acontece de forma repentina. Há sinais claros de escalada da violência: ameaças, controle excessivo, isolamento, agressões frequentes e tentativas de estrangulamento.

“Muitas mulheres permanecem nessas relações por medo, dependência financeira ou pelos filhos”, explica a delegada Priscilla Quarti.

Para tentar mudar esse cenário, um novo protocolo passou a orientar a atuação policial com foco no monitoramento de casos mais graves e na prevenção, acompanhando vítimas e agressores reincidentes.

Interior ainda enfrenta barreiras

Fora dos grandes centros, o acesso à rede de proteção ainda é mais difícil. Em cidades menores, denunciar pode significar exposição social, custos com deslocamento e até risco maior.

Para reduzir esse impacto, o governo iniciou a expansão de centros de atendimento especializado em 12 municípios, além de lançar plataformas digitais para orientar vítimas sobre seus direitos.

Uma rede que não pode falhar

A história de D.B.L. terminou com a separação e o início de uma nova vida, apoiada por atendimento psicológico, jurídico e acolhimento para ela e os filhos.

Mas o próprio caso evidencia um ponto central: a proteção só funciona quando todas as etapas estão conectadas — do primeiro pedido de ajuda até a garantia de segurança e autonomia.

Entre a ameaça e o recomeço, qualquer falha pode custar uma vida.

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