Redação Plenax – Flavia Andrade
Forma mais agressiva da doença, o câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa ainda apresenta desafios de diagnóstico e tratamento; aprovação de nova imunoterapia no Brasil amplia as opções para pacientes elegíveis
O câncer de pulmão continua entre os grandes desafios da oncologia, especialmente nos casos diagnosticados em estágio avançado. No Brasil, a doença está entre os tipos de câncer mais incidentes, enquanto, no cenário global, permanece como uma das principais causas de mortalidade por câncer. No mês do Agosto Branco, período dedicado à conscientização sobre a doença, o debate ganha ainda mais relevância ao colocar em foco a importância do diagnóstico precoce, da prevenção e do acesso a novas alternativas terapêuticas.
Entre os diferentes tipos de câncer de pulmão, o câncer de pulmão de pequenas células (CPPC) chama atenção pela velocidade de progressão e pela frequência com que é identificado em estágios avançados. Aproximadamente 60% a 85% dos pacientes são diagnosticados com doença extensa (CPPC-DE), considerada a forma mais agressiva da enfermidade e associada a desfechos desfavoráveis.¹
No Brasil, o câncer de pulmão é o terceiro tipo mais comum entre os homens, com aproximadamente 18 mil novos casos por ano, e o quarto entre as mulheres, com cerca de 14 mil casos anuais. No mundo, é a principal causa de mortalidade por câncer entre os homens e a segunda entre as mulheres.²
Para os pacientes com CPPC-DE, o cenário historicamente foi marcado por poucas alternativas terapêuticas e baixa sobrevida. Sem tratamento, a sobrevida geralmente varia de dois a quatro meses.³˒⁴ A evolução das opções disponíveis, portanto, representa uma necessidade importante para a oncologia.
Nova opção terapêutica chega ao Brasil
Esse cenário ganhou um novo capítulo em 2026, com a aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do serplulimabe como tratamento de primeira linha para pacientes com câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa.
Desenvolvido pela Abbott, o serplulimabe é um anticorpo monoclonal anti-PD-1, uma modalidade de imunoterapia que atua sobre mecanismos utilizados pelo tumor para escapar da resposta do sistema imunológico. Ao bloquear a sinalização associada à proteína PD-1, o tratamento busca potencializar a capacidade do organismo de reconhecer e combater as células cancerígenas.⁵˒⁶
Segundo o Dr. Mauricio Morales Castillo, Diretor Médico Associado Global na área de medicamentos da Abbott, a chegada de uma nova alternativa terapêutica é especialmente relevante diante do histórico da doença.
“Quando falamos de câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa, cada avanço tem um impacto significativo, porque estamos diante de uma doença que, por muitos anos, teve poucas mudanças relevantes em seu tratamento”, afirma.
Para o especialista, resultados que demonstram ganhos de sobrevida também reforçam a importância de ampliar o acesso a novas alternativas. “Eles mostram que estamos entrando em uma nova fase no tratamento dessa doença, com a possibilidade de oferecer alternativas mais inovadoras e ampliar o acesso dos pacientes a terapias que impactam positivamente tanto seu prognóstico quanto sua qualidade de vida.”
Diagnóstico ainda é um dos principais desafios
A agressividade do CPPC é agravada pelo fato de que seus primeiros sinais podem ser discretos e, em alguns casos, confundidos com problemas respiratórios comuns.
Tosse persistente, falta de ar, dor no peito, rouquidão, cansaço excessivo, perda de peso sem causa aparente e sangue no escarro estão entre os sintomas que merecem investigação.⁷
O problema é que esses sinais nem sempre são reconhecidos pelo paciente como indicativos de uma doença grave. O atraso na procura por atendimento pode contribuir para que o diagnóstico ocorra em fases mais avançadas, quando as possibilidades de controle da doença são menores.⁸
O tabagismo continua sendo o principal fator de risco para o desenvolvimento do câncer de pulmão e está associado à maioria dos casos. A exposição passiva à fumaça do cigarro, além da exposição a determinados poluentes ambientais e substâncias químicas, também pode elevar o risco.⁹˒¹⁰
O tratamento varia de acordo com as características e o estágio da doença e pode envolver diferentes abordagens, como cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo.¹¹
Resultados apontam avanço na sobrevida
Os dados do estudo global de Fase III ASTRUM-005 ajudam a dimensionar o potencial da nova abordagem terapêutica. Segundo os resultados apresentados, 21,9% dos pacientes tratados com serplulimabe em combinação com quimioterapia permaneciam vivos após quatro anos, ante 7,2% daqueles que receberam apenas quimioterapia.¹²⁻¹⁵
O resultado é considerado relevante diante do histórico de opções limitadas para pacientes com CPPC-DE.
“Esse tratamento oferece uma oportunidade de melhores desfechos clínicos em uma doença que historicamente tem opções terapêuticas limitadas”, destaca Mauricio Morales.
A aprovação brasileira acrescenta, assim, uma alternativa para pacientes elegíveis e acompanha um movimento mais amplo da oncologia em direção a tratamentos capazes de combinar maior eficácia com estratégias de cuidado individualizadas.
O desafio agora é fazer a inovação chegar ao paciente
A discussão sobre novas terapias também envolve uma questão que ultrapassa o desenvolvimento de medicamentos: como transformar os avanços científicos em acesso efetivo para quem precisa deles?
Durante o ASCO 2026, um dos principais congressos mundiais de oncologia, especialistas discutiram a evolução dos tratamentos para diferentes tipos de tumores e os desafios relacionados ao acesso às inovações.
A questão ganha peso na América Latina, onde a incidência de câncer deve crescer 65% até 2040.¹⁶ Ao mesmo tempo em que novas terapias chegam ao mercado, muitos pacientes ainda enfrentam obstáculos para obter diagnóstico e tratamento adequados.
Em doenças de evolução rápida, como o CPPC-DE, o tempo também é um fator importante. Reduzir o intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento pode ser determinante para o cuidado desses pacientes.
O congresso também reforçou uma mudança na própria forma de avaliar os resultados da oncologia. Além da sobrevida, temas como qualidade de vida, manejo de efeitos adversos, personalização dos tratamentos e redução de procedimentos desnecessários ganham cada vez mais espaço nas discussões científicas.
Para Mauricio Morales Castillo, esse movimento mostra que o avanço da oncologia precisa caminhar em duas frentes: desenvolver novas alternativas e garantir que elas consigam chegar aos pacientes.
“O ASCO deste ano mostrou que a oncologia passa por mudanças muito importantes. Os avanços científicos continuam chegando em ritmo cada vez mais acelerado, mas vemos uma grande preocupação em como fazer com que esses avanços cheguem aos pacientes”, afirma.
No caso do câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa, esse desafio é ainda mais evidente. Prevenir, reconhecer os sinais, diagnosticar mais cedo e ampliar o acesso a tratamentos inovadores são etapas complementares de uma mesma estratégia: aumentar as possibilidades de cuidado para quem enfrenta uma das formas mais agressivas da doença.

