*Por Juliana Sato
Adotar um cão parece, à primeira vista, uma escolha simples. A pessoa chega a um abrigo, vê alguns animais e sente uma conexão maior com um deles. Mas o que parece uma decisão tomada em poucos minutos pode definir uma convivência de 10, 15 anos ou mais. E, nesse intervalo entre o primeiro olhar e uma vida inteira compartilhada, existe um desafio que nem sempre é percebido: a primeira impressão pode ser injusta.
O Dia do Vira-Lata, celebrado em 31 de julho, é uma oportunidade para falar sobre os cães sem raça definida, mas também para olhar para os critérios que usamos quando escolhemos um animal. Apesar de ser o cão mais comum do Brasil, o vira-lata é um dos menos escolhidos na hora da adoção.
O cão que pula na grade pode parecer mais simpático. O filhote pode parecer mais fácil de criar. O animal pequeno pode parecer mais adequado para um apartamento. Aquele com uma aparência considerada mais bonita pode chamar mais atenção. Enquanto isso, um cão adulto, grande, retraído ou que simplesmente não se aproxima pode passar despercebido.
É nesse momento que o preconceito aparece. Nem sempre de forma explícita. Muitas vezes, ele está nas escolhas. A aparência pode ser o primeiro elemento que chama a atenção, mas não diz, sozinha, se aquele cão combina com a vida de quem pretende adotá-lo. Também não revela necessariamente seu temperamento, sua história ou sua capacidade de construir um vínculo.
O problema é que a primeira impressão pode se transformar em uma sentença. O cão que não chama atenção permanece mais tempo no abrigo. E quanto mais tempo passa, maiores podem ser os efeitos dessa permanência. Alguns animais se tornam mais retraídos ou reativos, o que torna novas aproximações ainda mais difíceis. É um ciclo em que o animal paga por uma escolha que não foi dele.
Por isso, talvez o principal desafio da adoção não seja apenas encontrar um animal disponível. É aprender a escolher para além da aparência.
Antes de perguntar “qual cão eu quero?”, vale perguntar: que vida eu tenho para oferecer?
A relação entre uma pessoa e um cão depende de compatibilidade. As características daquele animal, seu temperamento, sua personalidade e suas necessidades precisam encontrar espaço na rotina e na disponibilidade de quem vai conviver com ele.
Quem passa muitas horas fora de casa e adota um cão que precisa de muita atividade pode frustrar os dois. Da mesma forma, quem espera uma demonstração imediata de afeto pode não estar preparado para um animal que precisa de tempo para se sentir seguro.
Escolher pela aparência é escolher pela foto. Conviver é outra coisa. Muitas devoluções acontecem quando a expectativa não corresponde à convivência. O cão não é exatamente como a pessoa esperava, e a frustração pode ser interpretada como falta de compatibilidade.
Mas o vínculo não precisa existir pronto. Ele aparece quando a segurança é oferecida sem que uma resposta imediata seja cobrada.
Talvez seja por isso que a adoção responsável comece antes mesmo da chegada do animal à nova casa. Ela começa quando a pessoa olha para a própria rotina e reconhece, com honestidade, o que pode oferecer: tempo, presença, cuidados, despesas e disponibilidade para lidar também com as fases menos fáceis da vida.
A aparência pode abrir uma porta. Mas não deveria decidir, sozinha, quem terá uma chance. Antes de olhar para a aparência, talvez seja mais importante perguntar: que vida eu tenho para oferecer, e que cão cabe nela?
Essa pergunta muda o lugar da adoção. Porque, no fim, não se trata de encontrar um cão que corresponda perfeitamente à imagem que criamos. Trata-se de encontrar espaço, na vida real, para conhecer um animal específico, respeitar seu tempo e construir uma convivência.
A primeira impressão pode ser o começo de um encontro. Mas não deveria ser o limite daquilo que conseguimos enxergar.
*Juliana Sato é psicóloga formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com certificação internacional em luto pet pela Association for Pet Loss and Bereavement, e organizadora dos livros Luto no Contexto da Medicina Veterinária e Grief in the Veterinary Medicine. Atua em saúde mental no universo pet, com foco em vínculo humano-animal, além de consultorias, mentorias e iniciativas voltadas ao bem-estar emocional no setor veterinário.

