Posted in

Comitiva percorre 500 quilômetros pelo Pantanal para ouvir produtores e construir propostas para a pecuária brasileira

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Expedição reuniu pecuaristas, pesquisadores e lideranças em quatro dias de visitas a propriedades rurais e comunidades do Pantanal sul-mato-grossense, com foco na construção de políticas voltadas ao desenvolvimento sustentável do bioma

Uma jornada de mais de 500 quilômetros pelo Pantanal sul-mato-grossense reuniu produtores rurais, pesquisadores, lideranças e representantes do agronegócio com um objetivo em comum: ouvir quem vive e produz no bioma para transformar as demandas locais em propostas para o fortalecimento da pecuária brasileira.

Promovida pelo Instituto Pecuária Tropical pelo Clima, a Comitiva Pecuária Tropical pelo Clima percorreu, durante quatro dias, fazendas, comunidades e instituições da região como parte do projeto Vozes da Pecuária. A iniciativa pretende consolidar sugestões de diferentes territórios do país em um documento que será apresentado aos candidatos das próximas eleições e a entidades ligadas ao setor.

Escuta como ponto de partida

A primeira parada da expedição ocorreu no Sindicato Rural de Rio Negro, onde produtores, comerciantes e técnicos participaram de uma roda de conversa para discutir os principais desafios enfrentados pela pecuária pantaneira.

Entre os temas debatidos estiveram segurança jurídica, legislação ambiental, infraestrutura e os aspectos técnicos da produção na região.

Segundo o embaixador da região Pantanal no projeto, José Feliciano Lima Baptista, o objetivo da iniciativa é construir soluções a partir da realidade vivida pelos produtores.

“Mais do que reunir demandas, o objetivo foi construir um espaço de diálogo seguro e capaz de transformar experiências em propostas. Ouvir antes de propor e compreender antes de construir soluções foi o que norteou essa primeira etapa”, destacou.

O presidente do Sindicato Rural de São Gabriel do Oeste, René Miranda Alves, integrante de uma família tradicional de produtores rurais, ressaltou que a convivência harmoniosa entre produção e preservação faz parte da história da pecuária pantaneira.

Segundo ele, é importante que a sociedade conheça a realidade do campo e compreenda o trabalho realizado pelas famílias que vivem na região.

Turismo e pecuária dividem experiências

A segunda etapa da comitiva aconteceu na Pousada Baía das Pedras, na região da Nhecolândia, onde produtores rurais dividiram experiências com turistas que visitavam o Pantanal.

O encontro aproximou visitantes interessados na biodiversidade local das famílias que vivem da pecuária há gerações, promovendo um diálogo sobre conservação ambiental, cultura regional e produção sustentável.

Proprietária da pousada e produtora rural, Rita Maria Coelho Lima e Jurgielewicz destacou que a convivência entre o rebanho e a fauna silvestre faz parte da rotina do Pantanal.

“O peão sabe que é guardião do Pantanal. É ele quem convive diariamente com esse ambiente e entende que produzir aqui é cuidar da natureza. O gado ocupa o mesmo espaço que antas, capivaras, cervos, jacarés e tantas outras espécies. Essa convivência acontece naturalmente e faz parte da nossa cultura.”

Para os organizadores, a troca de experiências permitiu aproximar diferentes visões sobre o bioma e ampliar o entendimento sobre o papel da pecuária na conservação ambiental.

Produção sustentável e conhecimento tradicional

Na terceira parada, realizada na Fazenda Baía Negra, em Aquidauana, os participantes discutiram os desafios específicos da produção em áreas alagáveis.

Recepcionados pelo produtor rural Pedro Manoel Corrêa da Costa, presidente da Associação Brasileira de Produtores Orgânicos (ABPO), os integrantes da comitiva abordaram temas como produção de carne orgânica, manejo sustentável e os impactos das normas ambientais sobre a atividade pecuária.

Para o embaixador do projeto, Leonardo Leite Barros, o conhecimento acumulado pelas famílias pantaneiras precisa ser considerado na formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável.

“Cada conversa confirma que a construção de uma pecuária mais sustentável começa pela escuta qualificada. O Pantanal reúne características ambientais, sociais e produtivas únicas, e isso exige políticas construídas a partir das evidências do território.”

Tradição e inovação caminham juntas

A quarta visita foi realizada na histórica Fazenda Taboco, em Aquidauana, administrada por Gabriel Ribeiro, representante da quinta geração da família proprietária da fazenda, fundada em 1840.

Além da produção pecuária, a propriedade investe em tecnologia, manejo sustentável e ações voltadas ao bem-estar dos colaboradores, como a manutenção de uma escola que atende cerca de 60 crianças da região.

Durante o encontro, também foram discutidos temas ligados à sucessão familiar, qualificação da mão de obra e permanência dos jovens no campo.

Segundo Gabriel Ribeiro, a formação técnica é importante, mas precisa ser conciliada com o conhecimento adquirido na prática.

“O Pantanal tem características únicas. Não existe receita pronta para produzir aqui. O ciclo das cheias, a seca, as dificuldades de acesso, energia e infraestrutura exigem adaptação permanente. É um ambiente desafiador, mas extremamente gratificante.”

Encerramento na Pantanal Tech

A expedição foi concluída durante a Pantanal Tech, em Aquidauana, onde os principais resultados da jornada foram apresentados em uma roda de conversa com representantes do setor produtivo, pesquisadores da Embrapa Pantanal, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e integrantes do movimento.

O grupo também apresentou a iniciativa ao governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel.

Para Leonardo Leite Barros, o evento consolidou o diálogo entre produtores, universidades, instituições de pesquisa e demais atores envolvidos na construção de soluções para a pecuária tropical.

“O produtor rural entende que será o principal impactado pelas mudanças climáticas caso não proteja o ecossistema dentro de sua propriedade. Por isso, precisa liderar iniciativas voltadas à sustentabilidade.”

Movimento busca reunir propostas de todo o país

O Instituto Pecuária Tropical pelo Clima foi criado para fortalecer o papel da pecuária brasileira nas discussões sobre mudanças climáticas, produção sustentável e conservação ambiental.

Por meio do projeto Vozes da Pecuária, o movimento está promovendo encontros em dez diferentes territórios brasileiros para reunir sugestões do setor. O objetivo é consolidar essas contribuições em um documento que será apresentado antes das próximas eleições, reunindo propostas voltadas ao desenvolvimento sustentável da pecuária nacional.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error

Enjoy this blog? Please spread the word :)