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Antes da fumaça: prevenção reduz tempo de resposta aos incêndios no Pantanal

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

MS amplia bases, capacita brigadistas e reforça monitoramento para conter focos antes que as chamas alcancem comunidades, propriedades e áreas ambientais

No Pantanal, o combate aos incêndios começa antes mesmo de surgir qualquer sinal de fumaça. A estratégia adotada em Mato Grosso do Sul tem priorizado ações preventivas, monitoramento e resposta rápida para evitar que pequenos focos ganhem grandes proporções.

Para o major Eduardo Rachid Teixeira, subdiretor de Proteção Ambiental do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul, o período sem ocorrências é justamente o momento mais importante para preparar as equipes.

“As ações de prevenção são extremamente importantes e devem ser realizadas nos períodos sem risco de incêndio. Esse planejamento permite que as medidas sejam executadas com tempo hábil e segurança, sem a urgência imposta por uma ocorrência de incêndio florestal ativo”, afirma.

É nessa etapa que brigadistas verificam equipamentos, abrem aceiros, mapeiam acessos e acompanham as condições da vegetação, da umidade e dos ventos.

Os resultados registrados em 2025 mostram a dimensão da estratégia. Mato Grosso do Sul contabilizou 1.844 focos de calor, o menor número desde o início da série histórica, em 1998. A área queimada ficou em 202.678 hectares, depois de ultrapassar 2,3 milhões de hectares em 2024.

A redução, entretanto, não significa que o risco tenha desaparecido. O Pantanal continua vulnerável às secas prolongadas, que ressecam a vegetação, dificultam o deslocamento pelos rios e aumentam a quantidade de material combustível disponível para alimentar as chamas.

Os resultados de 2025 são atribuídos à combinação de condições climáticas menos extremas, preparação, monitoramento e capacidade de resposta.

Preparação começa antes do período crítico

Entre as medidas preventivas estão a aquisição e manutenção de equipamentos, construção de aceiros, abertura e mapeamento de acessos a áreas críticas e treinamento das equipes envolvidas na proteção do território.

Segundo o major Teixeira, o trabalho antecipado aumenta as chances de controlar um incêndio ainda em sua fase inicial.

“Quando a prevenção é bem executada, aumentam as chances de controlar o incêndio ainda no estágio inicial, preservando vidas, protegendo o patrimônio, reduzindo os danos ambientais e diminuindo os custos da operação”, destaca.

No Pantanal, a distância entre um foco e uma equipe especializada pode ser determinante. Muitas propriedades e comunidades são acessíveis somente por estradas de terra, rios ou pistas particulares. Além disso, ventos fortes, temperaturas elevadas e baixa umidade podem acelerar a propagação do fogo.

“Nesse cenário, a prevenção torna-se ainda mais importante. A existência de aceiros, acessos previamente definidos e uma comunicação rápida e eficiente são fatores decisivos para que a resposta ocorra com maior eficiência”, explica o major.

Quando o foco é identificado rapidamente, a área atingida tende a ser menor e o comportamento das chamas mais previsível, permitindo uma resposta com menos recursos e menor exposição das equipes.

À medida que o incêndio avança, a necessidade de efetivo e equipamentos aumenta, assim como os riscos para bombeiros, moradores, fauna, patrimônio e meio ambiente.

Brigadas locais ajudam a ganhar tempo

Em regiões remotas, onde a chegada do Corpo de Bombeiros pode levar mais tempo, produtores, trabalhadores e moradores podem representar a primeira resposta diante de um foco.

No primeiro semestre de 2025, o Corpo de Bombeiros realizou 18 ações e formou 600 brigadistas voluntários. Outros 250 bombeiros militares participaram de cursos de especialização, totalizando 850 pessoas capacitadas.

Os treinamentos incluíram combate a incêndios florestais, operação de drones, condução de embarcações, utilização de veículos 4×4, resgate de animais e comando de incidentes.

A formação das brigadas considera justamente a proximidade de moradores e trabalhadores rurais com as áreas onde os incêndios podem começar.

“A brigada local não substitui o Corpo de Bombeiros. Sua função é ganhar tempo e conter o avanço das chamas até a chegada das equipes especializadas”, explica o governador Eduardo Riedel.

A recomendação é manter as medidas preventivas durante todo o ano e suspender atividades capazes de produzir fontes de ignição quando as condições climáticas forem críticas.

“Sempre que necessário, deve-se suspender o uso de equipamentos ou qualquer ação que possa gerar fontes de ignição”, orienta o major Teixeira.

Bases avançadas reduzem deslocamentos

A Operação Pantanal manteve 11 bases avançadas em regiões consideradas estratégicas. A estrutura aproxima bombeiros, viaturas, embarcações e equipamentos de áreas que, anteriormente, poderiam exigir horas de deslocamento.

Para a operação de 2025, o Governo de Mato Grosso do Sul destinou R$ 34,8 milhões, com previsão de mobilizar até 177 bombeiros por dia durante os meses mais críticos da estiagem.

A estratégia também prevê a manutenção da estrutura e do planejamento fora dos períodos de maior risco.

“A estratégia busca evitar que a preparação dependa apenas da gravidade de cada temporada ou comece quando o incêndio já está em andamento”, explica Riedel.

Manejo do fogo reduz material combustível

Outra frente adotada pelo Estado é o uso planejado do fogo como ferramenta de prevenção. Em 2025, o Corpo de Bombeiros realizou uma queima prescrita no Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro, com o objetivo de reduzir parte da vegetação seca acumulada antes do período de estiagem.

A técnica faz parte do Manejo Integrado do Fogo e exige autorização, delimitação da área, acompanhamento das condições meteorológicas e presença de equipes treinadas.

“Não se trata de liberar queimadas, mas de empregar o fogo sob condições controladas para diminuir o material combustível e reduzir o risco de incêndios maiores”, afirma Riedel.

Programa leva recursos às organizações locais

A prevenção também recebeu recursos específicos por meio do PSA Brigadas, modalidade do Programa de Pagamento por Serviços Ambientais.

O edital destinou R$ 14 milhões para 2025 e 2026. Das 28 propostas apresentadas, 17 projetos de nove entidades foram selecionados, com valores entre R$ 75 mil e R$ 500 mil.

As iniciativas incluem abertura de aceiros, instalação de tanques de água, aquisição de equipamentos, monitoramento, capacitação, educação ambiental e resgate de animais.

“O programa fortalece organizações e comunidades que conhecem os caminhos, os rios e as áreas mais vulneráveis, evitando que toda resposta dependa de equipes deslocadas dos centros urbanos”, destaca o governador.

A participação dessas organizações permite aproximar as ações preventivas de pessoas que conhecem o território e podem identificar mudanças nas condições ambientais antes que o fogo avance.

Tecnologia ajuda a identificar áreas de risco

Em abril de 2025, o Corpo de Bombeiros reativou o Centro Integrado de Comando e Controle da Operação Pantanal, responsável por acompanhar focos de calor, imagens de satélite, condições meteorológicas e a movimentação das equipes em campo.

A rede meteorológica também começou a ser ampliada. Em maio, uma nova estação passou a transmitir dados da região da Nhecolândia, em Corumbá. O planejamento prevê oito estações para monitorar chuva, temperatura, umidade e vento na planície pantaneira.

“As informações ajudam no combate ao fogo e no planejamento de produtores, pesquisadores e órgãos públicos diante de secas e cheias”, reforça Riedel.

Com esses dados, as equipes podem identificar áreas de maior risco, organizar recursos e acompanhar alterações nas condições capazes de favorecer a propagação das chamas.

Prevenção precisa continuar mesmo fora da estiagem

Embora a recuperação parcial dos níveis de água tenha reduzido o risco em algumas regiões, o Pantanal permanece vulnerável às secas prolongadas e ao acúmulo de vegetação seca.

Entre as próximas medidas estão a manutenção das bases avançadas, a ampliação das brigadas, a conclusão da rede meteorológica e a transformação dos recursos do PSA Brigadas em ações permanentes no território.

Para o major Eduardo Rachid Teixeira, o trabalho precisa ser realizado antes que as condições se tornem críticas. É durante o período de menor risco que existe tempo para abrir acessos, capacitar pessoas, revisar equipamentos e preparar as equipes.

A estrutura preventiva busca proteger a fauna e a vegetação do Pantanal, mas também casas, rebanhos, pousadas, escolas, empregos e famílias que vivem longe dos centros urbanos locais onde a distância entre um pequeno foco e um incêndio de grandes proporções pode ser percorrida em poucos minutos.

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