Redação Plenax – Flavia Andrade
Coleta que não representa corretamente a área pode gerar diagnósticos incompletos; análise de diferentes camadas do perfil amplia a qualidade das recomendações agronômicas
Uma análise de solo pode apresentar resultados tecnicamente precisos e, ainda assim, levar a uma recomendação agronômica inadequada. Isso acontece quando o material enviado ao laboratório não representa corretamente as condições encontradas na lavoura.
O laboratório analisa exatamente o solo que recebe. Por isso, uma coleta mal planejada pode produzir números corretos do ponto de vista analítico, mas que não traduzem a realidade da área. A diferença entre exatidão da análise e representatividade da amostra ganha importância à medida que o produtor busca maior eficiência no uso de fertilizantes, corretivos e condicionadores de solo.
Em sistemas de produção mais tecnificados, avaliar apenas a camada superficial pode não ser suficiente. É preciso compreender também o que ocorre nas camadas abaixo dela.
“A qualidade do diagnóstico da fertilidade começa no campo, com uma amostragem representativa, e se consolida no laboratório, mediante análises confiáveis e interpretação agronômica criteriosa”, afirma o produtor rural e presidente do Grupo J2M, Evandro Martins.
Onde estão os principais erros
A variabilidade natural do solo e as mudanças provocadas pelo manejo fazem com que diferentes profundidades apresentem condições químicas distintas. Fertilizantes e corretivos aplicados na superfície, ciclagem de nutrientes, resíduos culturais e movimentação de elementos no perfil estão entre os fatores que podem alterar essa distribuição.
Entre os problemas mais comuns durante a coleta estão a delimitação incorreta das unidades de amostragem, número insuficiente de pontos ou distribuição inadequada, escolha errada das profundidades e coleta em locais atípicos da área.
Também podem ocorrer contaminações provocadas por resíduos de fertilizantes ou corretivos, além de falhas na homogeneização e identificação das amostras.
Outro cuidado é evitar a mistura de solos provenientes de diferentes profundidades quando o objetivo é justamente identificar como os atributos estão distribuídos ao longo do perfil.
“É importante distinguir a exatidão analítica da representatividade da amostra. A primeira diz respeito à qualidade do resultado produzido pelo laboratório. A segunda está relacionada à capacidade daquela amostra de representar as condições da área ou da unidade de manejo”, explica Martins.
O que acontece abaixo dos 20 centímetros?
A avaliação das camadas mais profundas ganha relevância principalmente em áreas conduzidas sob Sistema Plantio Direto, nas quais grande parte dos fertilizantes e corretivos é aplicada na superfície.
Nessas condições, determinados nutrientes podem estar concentrados nas camadas superiores, enquanto em profundidade permanecem limitações relacionadas à acidez, ao alumínio em níveis potencialmente tóxicos ou à disponibilidade de nutrientes.
Com isso, uma amostra superficial pode indicar condições aparentemente favoráveis sem revelar restrições existentes na subsuperfície.
É nesse contexto que entra a coleta estratificada, conceito desenvolvido pelo Grupo J2M em parceria com o pesquisador e doutor José Eloir Denardin, que acompanha discussões relacionadas à qualidade do manejo e à avaliação do solo.
A proposta é preservar a identidade das diferentes camadas do perfil, em vez de tratar todo o solo coletado entre determinadas profundidades como um único material.
De 0 a 40 centímetros, camada por camada
Uma coleta que alcance de 0 a 40 centímetros pode ser posteriormente dividida em subcamadas, como 0-10, 10-20, 20-30 e 30-40 centímetros, de acordo com a finalidade do diagnóstico.
A separação permite identificar diferenças que poderiam desaparecer em uma amostra misturada. Se, por exemplo, a camada de 0 a 10 centímetros apresentar bom nível de determinado nutriente, enquanto entre 10 e 20 centímetros o teor for baixo, a mistura dos dois estratos produzirá um valor intermediário.
O número estará correto para aquela mistura, mas não mostrará que existe uma diferença entre as camadas.
Quando os estratos são analisados separadamente, a informação ganha outra dimensão: além de identificar quanto existe de determinado atributo, o técnico consegue verificar onde ele está no perfil.
A mesma lógica pode ser aplicada à avaliação da acidez, da saturação por alumínio e dos teores de nutrientes. Essas condições podem interferir no desenvolvimento e no aprofundamento das raízes e, consequentemente, no acesso da planta à água e aos nutrientes disponíveis em camadas mais profundas.
Em períodos de restrição hídrica, essa diferença pode se tornar ainda mais relevante. Um sistema radicular que encontra limitações químicas em profundidade pode explorar um volume menor de solo e ter menor capacidade de acessar a água disponível no perfil.
A avaliação do solo em profundidade, portanto, não se limita à busca por nutrientes. Ela contribui para compreender o ambiente químico no qual as raízes estão se desenvolvendo. A interpretação dos resultados, porém, também precisa considerar atributos físicos do solo, histórico da área, cultura implantada, sistema de manejo e os critérios técnicos específicos de cada atributo.
Sistema busca preservar as diferentes camadas
A necessidade de obter informações mais detalhadas sobre o perfil levou o Grupo J2M, em parceria com a pesquisa científica, ao desenvolvimento de um sistema para coleta estratificada.
O amostrador de solos J2M foi desenvolvido para realizar a extração contínua do perfil de 0 a 40 centímetros, permitindo preservar o material coletado ao longo da profundidade para posterior fracionamento.
Segundo Martins, um dos diferenciais do equipamento é evitar o arraste de solo entre as diferentes subcamadas durante a extração. O desempenho foi submetido a avaliações e os dados posteriormente analisados estatisticamente, dando suporte experimental ao conceito.
“O diferencial técnico é permitir a obtenção de uma amostra contínua da camada de 0 a 40 centímetros, sem arraste de solo entre as subcamadas. Depois, esse material pode ser fracionado nas profundidades de interesse para o diagnóstico”, afirma.
Nos métodos convencionais, a avaliação de diferentes profundidades normalmente exige operações individualizadas para cada camada. No sistema desenvolvido pela J2M, a extração do perfil ocorre em uma única operação. Depois, o material é fracionado com o auxílio de um segundo equipamento desenvolvido para essa finalidade.
O procedimento permite obter amostras individualizadas de cada estrato sem repetir a operação de coleta para cada profundidade, o que pode contribuir para ganhos de agilidade e padronização em áreas que demandam um grande número de pontos amostrais.
Agricultura de precisão depende da qualidade do dado
O avanço da agricultura de precisão torna a qualidade da amostragem ainda mais relevante. Mapas de fertilidade, definição de zonas de manejo e aplicação de insumos em taxas variáveis dependem dos dados utilizados para orientar essas decisões.
Se as informações não representarem corretamente as condições do solo, a tecnologia pode apenas automatizar uma decisão baseada em um diagnóstico inadequado.
Por isso, a agricultura de precisão não começa necessariamente na máquina responsável pela aplicação do fertilizante. Ela começa na qualidade da informação utilizada para orientar a recomendação.
A amostragem georreferenciada permite identificar a variabilidade horizontal da lavoura. A coleta em diferentes profundidades acrescenta outra dimensão ao diagnóstico: a variabilidade vertical.
As duas informações podem ser complementares. Uma região da lavoura pode apresentar fertilidade diferente de outra e, dentro de um mesmo ponto, as condições podem variar significativamente entre a superfície e a subsuperfície.
“Não se trata simplesmente de coletar mais solo. É melhorar a qualidade da informação obtida, para que a recomendação agronômica seja baseada em uma representação mais fiel do perfil”, finaliza Martins.

