Redação Plenax – Flavia Andrade
Iniciativas em diferentes territórios apostam em comunicação próxima, educação midiática e participação comunitária para ampliar o acesso à informação durante o período eleitoral
A checagem de fatos, o monitoramento das redes sociais e as iniciativas para identificar conteúdos falsos são ferramentas importantes no combate à desinformação. Mas, diante da velocidade com que informações circulam, pesquisadores e organizações de comunicação têm ampliado o debate sobre um ponto anterior: o que leva uma pessoa a confiar em uma informação?
A resposta passa, entre outros fatores, pela relação entre comunidades, jornalismo e instituições. Quando essa confiança está fragilizada, conteúdos falsos encontram um ambiente mais favorável para circular. Por isso, iniciativas de comunicação comunitária e jornalismo independente têm buscado aproximar a produção de informação da realidade dos territórios.
O pesquisador Yurij Castelfranchi, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), chama atenção para o processo que denomina de “fabricação da ignorância”. A lógica não envolve apenas convencer alguém sobre uma informação falsa, mas também enfraquecer a confiança nas instituições e nas pessoas responsáveis pela produção e validação do conhecimento.
Esse cenário também se relaciona ao afastamento de parte da população do noticiário. A redução do consumo de notícias pode estar associada não apenas à falta de interesse pela política, mas também à percepção de que a informação produzida pelos meios de comunicação está distante da realidade cotidiana.
Em regiões onde a cobertura jornalística é limitada, essa distância pode ser ainda maior. É nesse espaço que experiências de comunicação comunitária procuram atuar, criando referências locais e utilizando linguagens mais próximas da população.
Informação conectada ao território
Em Imperatriz, no Maranhão, o Portal Assobiar desenvolve jornalismo independente e também realiza oficinas de educação midiática com comunidades. A atuação concentra temas como direitos humanos, cultura e meio ambiente, aproximando a produção jornalística das questões vivenciadas pela população.
A proposta mostra que o jornalismo local pode cumprir uma função que vai além da divulgação de notícias. Ao estar presente no território, o veículo também contribui para criar referências de informação e fortalecer relações de confiança com o público.
Outra experiência utiliza a cultura local como caminho para aproximar conteúdos de interesse público da população. No interior de Pernambuco, o projeto Solte sua Voz, ligado à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), recorreu à radionovela para tratar de temas como saúde e prevenção.
Em uma das iniciativas, informações sobre a pandemia de Covid-19 foram transformadas em histórias ficcionais com personagens relacionados às tradições juninas. O conteúdo foi distribuído por rádio, WhatsApp e plataformas digitais.
A estratégia não substituiu a apuração jornalística. Ao contrário, partiu de informações pesquisadas e verificadas para encontrar uma forma narrativa capaz de dialogar com referências já conhecidas pela comunidade.
A experiência da radionovela Santos Conectados no Combate à Covid-19, analisada por Mesquita e Moraes em 2023, utilizou elementos da tradição do São João para abordar prevenção, isolamento e violência doméstica durante a pandemia. Posteriormente, a iniciativa ganhou continuidade com Santos na Rota da Vacina.
Educação midiática vai além de identificar notícias falsas
As experiências também ajudam a ampliar o conceito de educação midiática. Ensinar uma pessoa a reconhecer uma informação falsa é importante, mas o processo envolve outras habilidades, como identificar fontes confiáveis, compreender a circulação de conteúdos, saber onde buscar informações e desenvolver repertório para participar da vida pública.
No Rio de Janeiro, a Agência Lume, que atua em Rio das Pedras, desenvolve atividades voltadas à participação cidadã. Entre as iniciativas estão jogos para discutir política com estudantes de escolas públicas e encontros de memória com moradores.
Em vez de apresentar conceitos políticos de forma abstrata, as atividades partem de histórias, relações e questões presentes no cotidiano do território.
A experiência evidencia uma diferença importante: ter acesso à informação não significa, necessariamente, participar da vida pública. Uma pessoa pode conhecer candidatos, propostas e informações verificadas e ainda assim não perceber como esses conteúdos se relacionam com sua realidade.
Entre informação e participação existe um processo que envolve pertencimento, vínculo e a capacidade de compreender a política a partir do próprio território.
Comunicação como ferramenta de participação
É nesse contexto que organizações de comunicação comunitária vêm apostando em ações presenciais para ampliar o acesso a informações sobre o processo eleitoral e explicar as responsabilidades de cada cargo público.
A Énois, laboratório de comunicação que atua com iniciativas das periferias, iniciou também o trabalho coletivo dos Laboratórios de Comunicação e Inovação Social em Territórios Periféricos, com foco na ampliação do acesso de jovens a informações sobre eleições e política.
A proposta parte da ideia de que combater a desinformação não depende apenas de novas tecnologias para detectar conteúdos falsos. Também envolve criar condições para que informações confiáveis encontrem espaço, façam sentido e possam ser discutidas dentro das comunidades.
Nesse modelo, jornalistas, comunicadores comunitários, escolas, universidades, coletivos culturais e organizações locais desempenham papel importante. São espaços em que moradores podem fazer perguntas, compartilhar experiências, confrontar informações e construir repertório.
Arte e comunicação ampliam circulação de vozes periféricas
Outra frente desenvolvida pela Énois é o Arte é Informação, projeto que promove a circulação de trabalhos de artistas-comunicadores de territórios periféricos de São Paulo.
Em maio, a iniciativa reuniu artistas em um processo de formação e acompanhamento que conectou arte, comunicação e território. O trabalho resultou em uma exposição que passou por quatro regiões da cidade.
Entre os participantes estão Acân Simões e Louro Deodoro, com o filme Antes de Tudo Comer, sobre alimentação, periferia e dignidade a partir das feiras livres e do cotidiano urbano; Helena Pandora, com a exposição Cartografia da Cultura Marginal: Grajaú; e Ticano, responsável pela Favelarte Galeria Suburbana e pela circulação da exposição Afroindígena/Futurista, que aborda ancestralidade, identidade, tecnologia e imaginação.
A proposta é manter a circulação dessas produções depois do período de exposição, levando os trabalhos a novos espaços e públicos e ampliando as possibilidades de representação dos territórios periféricos.
Mobilização para as eleições de 2026
A Énois também articula uma ação voltada à participação de jovens nas eleições de 2026. A iniciativa reúne sete coletivos de diferentes regiões do país: Coletiva ALMA e O Grupo da Mata, em São Paulo; Escambo Coletivo e MangueTown Revista, em Paulista e Recife; Carta Amazônia e Na Cuia, em Belém; e Agência Lume, no Rio de Janeiro.
A estratégia combina mobilização territorial e campanhas de comunicação. Cada coletivo deverá desenvolver atividades voltadas à aproximação dos jovens com o processo eleitoral, considerando as características e demandas de seus próprios territórios.
Além de estimular a participação política, a iniciativa pretende reunir aprendizados sobre linguagens, formatos e espaços capazes de aproximar a população das discussões sobre cidadania e democracia.
Nesse cenário, o combate à desinformação passa a ser pensado para além da correção de uma informação falsa. A construção de confiança, o fortalecimento do jornalismo local e a criação de espaços de participação podem contribuir para que informações verificadas tenham maior capacidade de circulação e sejam reconhecidas pelas comunidades.
A checagem continua sendo necessária. Mas, antes de desmontar uma mentira, existe outro desafio: construir relações e referências que façam com que a informação confiável seja reconhecida, compreendida e compartilhada.

