Redação Plenax – Flavia Andrade
Especialista alerta que controle, manipulação e desvalorização costumam surgir de forma gradual, comprometendo a autoestima e dificultando o rompimento do ciclo de violência
A violência psicológica é uma das formas mais silenciosas de agressão contra a mulher e, muitas vezes, antecede outros tipos de violência dentro de relacionamentos abusivos. Diferentemente das agressões físicas, seus efeitos não deixam marcas visíveis, mas podem provocar danos profundos à saúde mental, à autoestima e à autonomia da vítima.
Durante o Agosto Lilás, campanha nacional de conscientização pelo enfrentamento da violência contra a mulher, especialistas reforçam a importância de reconhecer comportamentos que frequentemente são confundidos com demonstrações de cuidado, proteção ou ciúme, mas que representam sinais claros de abuso emocional.
Segundo a presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF), Cristiane Pertusi, a violência psicológica costuma se instalar de forma lenta e quase imperceptível.
“Na maioria das vezes, o relacionamento não começa abusivo. O controle, a desqualificação e a manipulação emocional aparecem aos poucos, fazendo com que a mulher normalize comportamentos que jamais aceitaria no início da relação. Essa construção gradual dificulta o reconhecimento da violência e favorece sua permanência”, explica.
Controle e manipulação comprometem a autonomia
Entre os comportamentos mais comuns estão críticas frequentes, tentativas de controlar a rotina, as roupas, as amizades e as redes sociais da parceira, além de chantagens emocionais, humilhações, isolamento social e ciúmes excessivos apresentados como prova de amor.
Outro mecanismo recorrente é o gaslighting, forma de manipulação psicológica em que o agressor distorce fatos, nega acontecimentos e invalida sentimentos para fazer com que a vítima passe a duvidar da própria memória e da própria percepção da realidade.
“Quando uma pessoa escuta repetidamente frases como ‘isso nunca aconteceu’, ‘você está exagerando’, ‘você entendeu tudo errado’ ou ‘ninguém vai acreditar em você’, ela começa a desconfiar de si mesma. Aos poucos, perde a confiança na própria capacidade de interpretar os fatos e se torna emocionalmente mais vulnerável”, afirma Cristiane.
Impactos vão além do sofrimento emocional
De acordo com a especialista, as consequências da violência psicológica podem persistir por muito tempo e afetar diferentes áreas da vida da vítima.
Entre os principais impactos estão ansiedade, depressão, baixa autoestima, sentimento constante de culpa, insegurança, isolamento social e dificuldade para tomar decisões. Em muitos casos, a dependência emocional construída ao longo da relação faz com que romper o ciclo de violência pareça impossível.
Rede de apoio é fundamental
Familiares e amigos costumam perceber mudanças no comportamento da vítima antes mesmo que ela reconheça estar vivendo um relacionamento abusivo.
O afastamento das pessoas próximas, o medo constante de contrariar o parceiro, as justificativas frequentes para atitudes agressivas e a perda gradual da autoconfiança são sinais que merecem atenção.
Para Cristiane Pertusi, o acolhimento é essencial nesse processo.
“Quem está de fora muitas vezes pergunta por que essa mulher simplesmente não vai embora. Mas essa pergunta ignora todo o desgaste emocional vivido por ela. O julgamento aumenta o isolamento. Já a escuta acolhedora e o apoio sem críticas ajudam a vítima a se sentir segura para buscar ajuda.”
Sinais que merecem atenção
Especialistas destacam alguns comportamentos que podem indicar violência psicológica:
Controle excessivo sobre rotina, roupas, amizades ou redes sociais.
Ciúme apresentado como demonstração de amor.
Críticas constantes, humilhações e desvalorização.
Chantagens emocionais e ameaças indiretas.
Tentativas de afastar a vítima da família e dos amigos.
Manipulação da realidade (gaslighting), fazendo a vítima duvidar da própria memória ou percepção.
Medo constante de desagradar o parceiro.
Sensação de estar sempre “pisando em ovos” para evitar conflitos.
Perda gradual da autoestima, da autonomia e da confiança em si mesma.
Para a presidente da ABRATEF, reconhecer esses sinais precocemente é uma das formas mais eficazes de prevenção.
“Relacionamentos saudáveis são construídos com respeito, liberdade, diálogo e confiança. Quando o medo, o controle, a manipulação e a diminuição constante do outro passam a fazer parte da rotina, é preciso compreender que isso não é uma demonstração de amor. Cuidar da saúde mental também significa reconhecer quando uma relação deixa de promover bem-estar e passa a produzir sofrimento.”

