Redação Plenax – Flavia Andrade
Apesar da queda de 20,7% nos pedidos de recuperação judicial da cadeia agropecuária no segundo trimestre, solicitações de produtores pessoa física avançam 8,2% e reforçam pressão por renegociação de dívidas e financiamento rural
O agronegócio deve chegar à próxima legislatura com forte representação política no Congresso Nacional, mas ainda enfrenta desafios para superar a crise de crédito no campo. Dados do segundo trimestre de 2026 mostram que os pedidos de recuperação judicial na cadeia agropecuária caíram 20,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, passando de 565 para 448. A retração, porém, não foi uniforme: entre produtores rurais pessoa física, as solicitações avançaram 8,2% em relação ao primeiro trimestre, de 182 para 197, enquanto entre pessoas jurídicas houve queda de 18,4%, de 196 para 160 pedidos.
O cenário evidencia que a recuperação financeira ocorre de forma desigual e coloca o endividamento rural entre os temas que devem ganhar espaço na agenda do Congresso eleito em 2026.
Antes das eleições, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) reunia cerca de 355 deputados e senadores. Ao mesmo tempo, o Plano Safra 2026/2027 prevê R$ 525,1 bilhões em recursos para a agricultura empresarial, reforçando a dimensão econômica e política do setor.
A pressão sobre os produtores também aparece na deterioração do perfil de crédito daqueles que recorrem à Justiça. Segundo os dados apresentados, o score médio cai de aproximadamente 430 pontos, 18 meses antes do pedido de recuperação judicial, para 50 pontos no momento da solicitação — uma redução próxima de 88%. Mato Grosso concentrou 107 pedidos nos dois trimestres mencionados no levantamento, cerca de 24% do total nacional.
Renegociação de dívidas entra na agenda do setor
A combinação entre endividamento e articulação parlamentar deve ampliar as discussões sobre renegociação de dívidas, equalização de juros, seguro rural e garantias financeiras. Para Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco e especialista em crédito estruturado, as decisões do Congresso podem influenciar diretamente o custo e a disponibilidade de financiamento para o agronegócio.
“No agro, o custo do dinheiro começa a ser definido muito antes de o produtor sentar com o banco. Orçamento público, subsídios, seguro rural, garantias e regras de renegociação influenciam quanto risco a instituição financeira está disposta a assumir e a que preço. Uma representação mais organizada no Congresso pode ampliar a capacidade do setor de discutir esses mecanismos e criar condições para reduzir incertezas. Quando o risco fica mais previsível, abre-se espaço para mais crédito, prazos melhores e estruturas de financiamento mais competitivas para toda a cadeia”, afirma.
Nesse contexto, consórcios estruturados, operações de crédito com garantias e financiamentos ajustados ao ciclo produtivo aparecem como alternativas para reorganizar compromissos financeiros. As modalidades podem ser especialmente relevantes para produtores que enfrentam dificuldades de caixa antes da comercialização da safra e buscam reduzir a dependência das linhas tradicionais de crédito.
Juros elevados mantêm pressão sobre o financiamento
O debate ocorre em um cenário de custo de capital ainda elevado, apesar da redução da taxa Selic para 13,75% ao ano em setembro, conforme o texto de referência. Os juros pressionam produtores que dependem de financiamento para comprar insumos, investir em equipamentos e manter as operações até a venda da produção.
Ao mesmo tempo, o agronegócio brasileiro exportou US$ 118,5 bilhões nos oito primeiros meses de 2026, acumulando superávit comercial de US$ 105,1 bilhões. Os números reforçam o peso do setor na economia e a importância das decisões sobre políticas de crédito e financiamento rural.
O desafio do próximo Congresso será conciliar mecanismos de renegociação e proteção financeira com as restrições fiscais que limitam a ampliação dos subsídios públicos. Para Friggi, aumentar a oferta de recursos sem considerar a capacidade de pagamento dos produtores pode agravar o endividamento.
“O desafio não é simplesmente ter mais crédito. É construir crédito que caiba no fluxo de caixa do produtor e que não transforme um problema conjuntural em endividamento permanente. Com juros ainda elevados, previsibilidade de regras, garantias adequadas e prazo tornam-se tão importantes quanto a própria taxa”, afirma.
A influência política do agronegócio será medida, portanto, pela capacidade de transformar essa agenda em condições de financiamento mais sustentáveis, sem transferir continuamente os custos do endividamento para as contas públicas.

