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Telas e autodiagnóstico dificultam identificação do TDAH em adultos

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Popularização do transtorno nas redes sociais aumenta a atenção sobre o tema, mas especialistas alertam para a necessidade de diferenciar TDAH de alterações provocadas por sono, humor e excesso de estímulos digitais

A popularização do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) nas redes sociais trouxe o tema para o cotidiano, mas também criou um desafio para especialistas: diferenciar o transtorno de sintomas de desatenção relacionados ao excesso de estímulos digitais, à privação de sono e a alterações de humor.

Em adultos, a avaliação exige atenção ainda maior. O TDAH pode apresentar manifestações diferentes das observadas na infância e permanecer sem diagnóstico durante anos. O tema será discutido no XXXII Congresso Brasileiro de Neurologia – Neuro 26, que acontece de 7 a 10 de outubro, no Rio de Janeiro.

Segundo o neurologista Dr. Raphael Spera, o transtorno atinge cerca de 2,5% a 3% da população adulta e pode persistir em até 70% dos casos diagnosticados na infância. Mesmo assim, muitos adultos nunca recebem diagnóstico, especialmente mulheres e pessoas com mais de 50 anos.

“O TDAH no adulto é real, frequente e subdiagnosticado: atinge cerca de 2,5 a 3% da população adulta, persiste em até 70% dos casos infantis e, ainda assim, a maioria desses adultos nunca recebe diagnóstico, sobretudo mulheres e pessoas acima dos 50 anos”, explica.

Diagnóstico depende da história do paciente

O diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico e não conta com um biomarcador específico capaz de confirmar o transtorno. Por isso, a avaliação considera o conjunto de sintomas, o impacto na vida do paciente e a história desde a infância.

A investigação também precisa diferenciar o TDAH de outras condições que podem provocar alterações de atenção, como depressão, ansiedade, distúrbios do sono e uso de substâncias.

A reconstrução da infância é considerada uma etapa importante, já que o início dos sintomas nessa fase faz parte da caracterização do transtorno. No entanto, a memória retrospectiva pode não ser suficiente para recuperar com precisão como esses sinais se manifestavam anos antes.

Excesso de estímulos digitais pode afetar atenção

O ambiente digital acrescenta outra variável à avaliação. A exposição constante a notificações, mudanças rápidas de foco e uso simultâneo de diferentes mídias pode interferir na atenção e na memória de trabalho.

Quando o uso de dispositivos e redes sociais se torna problemático, os prejuízos podem envolver justamente funções associadas ao TDAH, como atenção, controle inibitório e memória de trabalho.

Para Spera, uma das principais diferenças está na evolução dos sintomas ao longo da vida.

“A diferença está na história: o TDAH começa na infância, é crônico, aparece em todos os contextos e tem importante componente hereditário; a desatenção ligada ao estilo de vida começa mais tarde, acompanha o aumento de uso, piora com privação de sono e humor deprimido, e melhora quando esses fatores são corrigidos”, afirma.

Autodiagnóstico exige cautela

A ampla circulação de conteúdos sobre TDAH nas redes sociais também pode levar pessoas a identificar em si mesmas características associadas ao transtorno sem uma avaliação profissional.

Para diferenciar uma condição clínica de alterações relacionadas ao estilo de vida, é necessário observar quando os sintomas começaram, em quais situações aparecem e de que forma interferem na rotina.

Informações fornecidas por familiares ou pessoas próximas também podem contribuir para reconstruir a trajetória dos sintomas, especialmente quando há dificuldade para lembrar acontecimentos da infância.

Como o TDAH pode aparecer na vida adulta

Na fase adulta, a hiperatividade nem sempre se manifesta como a agitação física mais facilmente associada ao transtorno na infância. Pode aparecer como inquietação interna, fala acelerada, impaciência e dificuldade para relaxar.

Já a desatenção pode estar relacionada a desorganização crônica, procrastinação, dificuldade para administrar tempo e prioridades, esquecimento de compromissos e abandono frequente de projetos iniciados.

Desregulação emocional, baixa tolerância à frustração e impulsividade em decisões financeiras e relacionais também podem estar presentes.

Diagnóstico tardio exige investigação cuidadosa

A avaliação pode ser especialmente complexa entre pessoas mais velhas. Queixas relacionadas à atenção podem ser atribuídas ao processo de envelhecimento ou confundidas com comprometimento cognitivo leve.

Também é necessário cuidado quando a suspeita de TDAH surge somente na vida adulta, sem histórico compatível na infância.

“E um alerta na direção oposta: um adulto que passa a suspeitar de TDAH aos 30 anos, sem nenhuma história infantil, deve ser avaliado com ainda mais atenção”, alerta Spera.

Tema será discutido em congresso no Rio

As diferentes manifestações do TDAH na vida adulta, os critérios para diagnóstico e os impactos do ambiente digital estarão entre os temas do XXXII Congresso Brasileiro de Neurologia – Neuro 26, promovido pela Academia Brasileira de Neurologia.

O evento será realizado de 7 a 10 de outubro de 2026, no Centro de Convenções Windsor Barra, no Rio de Janeiro, sob presidência do Dr. Osvaldo Nascimento.

O Dr. Raphael Spera participa de uma mesa-redonda dedicada ao TDAH no adulto, com discussões sobre diagnóstico, manifestações do transtorno na vida adulta e os desafios relacionados ao ambiente digital.

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