Redação Plenax – Flavia Andrade
Com investimento de R$ 45 milhões, aeródromo de Campo Grande terá pista de 1.800 metros e novos equipamentos para ampliar a segurança das operações
Para Lúcio Pereira de Souza, as obras no Aeródromo Santa Maria representam mais do que uma transformação na estrutura que utiliza diariamente. Elas também acrescentam um novo capítulo à história de uma família ligada à aviação há mais de quatro décadas.
Piloto e proprietário de um hangar no local, Lúcio cresceu acompanhando a relação da família com o aeródromo desde os anos 1980, quando seu bisavô, Etalívio Pereira, construiu o Hangar EP.
“É uma viagem no tempo que começou na década de 80, logo na criação do aeródromo”, conta.
As lembranças incluem as aeronaves dos tios José e Eda Pereira, que ficavam abrigadas no antigo hangar. Hoje, Lúcio trabalha com serviços aeronáuticos no Santa Maria e acompanha de perto a maior intervenção já realizada na estrutura.
Com investimento de R$ 45 milhões do Governo de Mato Grosso do Sul, a obra prevê a ampliação da pista dos atuais 1.500 para 1.800 metros, novo pavimento e instalação de equipamentos destinados a ampliar a segurança das operações, inclusive com a possibilidade de procedimentos de aproximação por instrumentos.
A modernização faz parte do plano aeroviário estadual, que prevê investimentos de até R$ 250 milhões em obras relacionadas à infraestrutura aeroportuária de Mato Grosso do Sul até o fim de 2026. Entre os objetivos estão ampliar a capacidade da rede e adequar os aeródromos ao crescimento econômico do Estado.
Após a conclusão das obras e a homologação pelos órgãos competentes, a estrutura poderá mudar de categoria e ganhar status de aeroporto. A vocação, no entanto, deverá permanecer concentrada na aviação executiva e geral, sem a previsão de voos comerciais regulares de passageiros.
Pista maior para aeronaves de maior porte
Quem acompanha a movimentação do Santa Maria há anos espera que a ampliação tenha impacto direto na rotina do aeródromo.
O empresário Auderi Dal Lago, conhecido como Alemão, possui 11 hangares no local e estima que aproximadamente 280 aeronaves estejam baseadas no Santa Maria. Segundo ele, o aeródromo registra cerca de 1,5 mil pousos e decolagens por mês.
Há 16 anos no local, ele afirma que a modernização era aguardada pelos usuários.
“A pista será ampliada e recapeada, assim poderá receber aeronaves maiores. Estamos diante de uma obra ímpar, que vai tornar este local uma referência”, afirma.
A ampliação não é a primeira intervenção importante na infraestrutura do Santa Maria. Em 2022, o aeródromo passou a operar também no período noturno após a instalação e homologação do sistema de iluminação das pistas. Na ocasião, a estrutura da pista havia sido ampliada de 1.100 para 1.500 metros.
Equipamentos reforçam segurança dos voos
Parte importante da nova estrutura estará nos equipamentos instalados na área operacional.
O projeto prevê balizamento em LED com acionamento automático, estação meteorológica de superfície e equipamentos PAPI — sistema de luzes que auxilia o piloto a identificar se a aeronave está na trajetória adequada durante a aproximação para o pouso.
A estrutura deverá ampliar as condições de operação e permitir procedimentos de aproximação por instrumentos, reduzindo a dependência exclusiva das condições de visibilidade.
Para Lúcio, que acompanha o Santa Maria tanto do solo quanto da cabine de uma aeronave, essa é uma das principais mudanças previstas.
“Com o aeroporto operando por instrumentos, a segurança operacional aumenta, o que torna a operação mais precisa e segura tanto para os pilotos quanto para os passageiros”, afirma.
As intervenções também avançam para além da pista. A rua de acesso aos hangares recebe nova pavimentação, uma reivindicação antiga de quem trabalha ou mantém aeronaves no local.
Infraestrutura acompanha expansão econômica
A modernização do Santa Maria está inserida em um plano mais amplo de investimentos na infraestrutura aeroviária de Mato Grosso do Sul. O Governo do Estado afirma que a ampliação da rede busca acompanhar o crescimento econômico, facilitar deslocamentos e melhorar as condições para atividades produtivas, turísticas, ambientais e de saúde.
Em Campo Grande, a proposta é fortalecer principalmente a estrutura destinada à aviação executiva, utilizada por empresários, investidores e profissionais que precisam se deslocar entre diferentes regiões.
Para Lúcio, o aumento da demanda está relacionado também aos novos corredores econômicos em desenvolvimento no Estado.
“Esta obra de ampliação é muito positiva e necessária. Ela veio no melhor momento devido aos projetos da Rota Bioceânica e da Rota da Celulose, que, de forma direta, impactaram a aviação executiva de médio e grande porte no Estado, principalmente aqui na Capital”, afirma.
O governador Eduardo Riedel também relaciona os investimentos à necessidade de ampliar a infraestrutura para acompanhar o desenvolvimento econômico.
“Estamos fazendo investimentos no setor aeroviário em diversas cidades. Esta infraestrutura e logística de qualidade precisam acompanhar o desenvolvimento e a economia do Estado”, afirmou.
Segundo o governador, a rede aeroviária também pode apoiar operações de atendimento médico e ações de combate aos incêndios florestais.
Santa Maria não terá voos comerciais regulares
A possível mudança de categoria não significa que o Santa Maria será transformado em um segundo terminal comercial de Campo Grande.
A proposta é manter a estrutura voltada à aviação executiva e geral, permitindo a operação de aeronaves particulares, corporativas e outros serviços da aviação geral.
“Santa Maria tem uma vocação para aviação executiva e geral e não para a comercial”, explica o superintendente Logístico da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Seilog), Derick Machado de Souza.
Segundo ele, a ampliação da pista e os novos equipamentos deverão permitir a operação de aeronaves de maior porte. Também está prevista uma estrutura de recepção para tripulações e passageiros.
“Não vai ter, por exemplo, venda de passagens”, esclarece.
Documentos técnicos do Estado também apontam o Santa Maria como estrutura de forte vocação para a aviação executiva, serviços especializados, instrução e serviços públicos, em complemento ao Aeroporto Internacional de Campo Grande.
Obras seguem em dez etapas
Iniciadas em junho, as intervenções foram divididas em dez etapas.
Nesta fase inicial, os trabalhos estão concentrados na terraplanagem da área onde a pista será prolongada e na pavimentação da entrada do aeródromo. Segundo o Governo do Estado, aproximadamente 340 metros de asfalto já foram concluídos, e os serviços devem avançar para a área interna.
O secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Guilherme Alcântara, afirma que o planejamento contempla tanto a execução das obras quanto os procedimentos necessários para a homologação da nova estrutura.
“Santa Maria vai ser dotado de mecanismos para se tornar um aeroporto, com melhores condições de operação para decolagens e pousos”, afirmou.
A previsão do governo é concluir as obras e os procedimentos necessários até maio de 2027.
Para quem acompanha o Santa Maria desde os primeiros anos, porém, a transformação representa mais do que novos metros de pista, pavimentação e equipamentos.
Auderi Dal Lago acredita que a modernização poderá melhorar as condições de segurança e atendimento para quem utiliza o espaço e para quem chega ao Estado.
“Quem vem de fora também será melhor acolhido, o que facilita inclusive novos empreendedores a investir na Capital e no Estado”, afirma.
Para Lúcio, a transformação acrescenta uma nova etapa a uma história iniciada por seu bisavô nos primeiros anos do aeródromo. O antigo Hangar EP permanece como parte da memória familiar. Agora, a pista ampliada, os novos equipamentos e a possibilidade de operações por instrumentos apontam para o próximo capítulo do Santa Maria.

