Redação Plenax – Flavia Andrade
Turismo, gastronomia, artesanato, ciência e mercado de carbono ampliam caminhos para gerar trabalho e movimentar a economia sem perder de vista a preservação do bioma
Do fogão de uma cozinha em Corumbá aos laboratórios de universidades e às iniciativas de turismo e conservação, diferentes atividades começam a transformar a riqueza natural e cultural do Pantanal em oportunidades de trabalho e renda. A proposta é ampliar a economia do bioma para além das atividades tradicionais e criar novas cadeias de valor a partir da biodiversidade e da identidade regional.
A história do cozinheiro Bruno Arruda, de 42 anos, é um exemplo dessa transformação. Nascido e criado em Corumbá, ele cresceu entre as receitas preparadas pelos pais, Rosa e João. Há mais de oito anos, ao lado da esposa, comanda a Boia Boa, marca que leva pratos da culinária pantaneira a festas, eventos e grandes celebrações, como o Festival América do Sul e as festas de São João.
“Meu pai sempre gosta de dizer que do pé de manga não cai goiaba, cai manga”, conta Bruno.
Sopa paraguaia, paçoca de carne-seca, carreteiro e macarrão de comitiva, principal prato da casa, estão entre as receitas que preservam a tradição familiar e ajudam a apresentar a cultura pantaneira aos visitantes.
“São receitas que carregam história, tradição e o jeito pantaneiro de receber as pessoas”, afirma.
Para Bruno, a gastronomia é também uma forma de preservar a identidade regional e fortalecer o turismo. A relação com o território aparece ainda na forma como ele se apresenta: “Amo usar chapéu de palha, amo dizer que sou pantaneiro e hoje ser reconhecido como referência na culinária pantaneira é motivo de muito orgulho.”
Turismo movimenta empregos e pequenos negócios
Corumbá, considerada uma das principais portas de entrada do Pantanal sul-mato-grossense, recebe dezenas de milhares de visitantes anualmente. A cidade conta com quatro voos semanais e registrou aumento de 40% na oferta de assentos, enquanto a ocupação média chegou a 70% até o ano passado.
O turismo náutico e a pesca esportiva também movimentam milhares de embarques e geram demanda para uma cadeia que envolve alimentação, hospedagem, transporte, agências, cultura e outros serviços.
Os números de movimentação aeroportuária, porém, não correspondem necessariamente ao total de turistas únicos. Ainda assim, ajudam a dimensionar a circulação de pessoas pelo destino.
O crescimento do setor convive com desafios como dificuldades de acesso, oscilação na oferta de voos, custos elevados e necessidade de qualificação profissional. Para o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, o desafio é fazer com que o aumento do fluxo turístico se converta em benefícios mais amplos para a economia local.
“Para transformar fluxo em renda distribuída, é preciso fazer o visitante permanecer mais tempo, consumir produtos locais e encontrar serviços estruturados”, afirma.
A promoção do Pantanal em feiras e rodadas de negócios nacionais e internacionais integra essa estratégia. Paralelamente, ações previstas no Pacto Pantanal, envolvendo estradas, pistas, comunicação, saneamento e segurança, buscam melhorar a infraestrutura necessária para o desenvolvimento do turismo.
Artesanato transforma identidade regional em produtos
O turismo também abre espaço para pequenos produtores e artesãos. Em Corumbá, a Associação Pantanal Corumbá Produz reúne 22 artesãos e busca ampliar a comercialização de produtos que carregam referências do território.
Segundo Suzianny, que está à frente da associação, o apoio do Governo do Estado tem contribuído para aumentar a visibilidade dos produtos regionais e criar novas oportunidades para os profissionais.
“Esse apoio valoriza nosso trabalho e amplia as oportunidades para que o turismo sustentável seja, de fato, um motor de desenvolvimento para Corumbá e para todo o Pantanal”, afirma.
Além do artesanato, Suzianny trabalha com produtos apícolas e transforma o mel em sabonetes e velas. A iniciativa agrega valor à matéria-prima e amplia as possibilidades de comercialização.
“É maravilhoso ver a oportunidade que o turista tem de conhecer, viver e ainda poder levar um pedacinho do Pantanal consigo”, diz.
Bioeconomia aproxima comunidades e mercado
Para o especialista em biodiversidade e serviços ecossistêmicos Fabio Roque, o Pantanal apresenta oportunidades para conciliar conservação, produção sustentável e geração de valor a partir da natureza.
Pecuária em pastagens nativas, pesca, ecoturismo e turismo de base comunitária são algumas das atividades já presentes no território. Ao mesmo tempo, existe potencial para ampliar cadeias relacionadas a alimentos, cosméticos e outros produtos derivados da biodiversidade.
A transição, porém, depende da participação de diferentes setores. Governos, empresas, comunidades tradicionais, povos indígenas, pesquisadores e organizações da sociedade civil precisam atuar na criação de regras, tecnologias, capacitação, infraestrutura e mecanismos de financiamento.
“A bioeconomia não se limita a laboratórios ou créditos de carbono. Ela aparece quando comunidades transformam alimentos, artesanato, conhecimentos e experiências culturais em produtos capazes de gerar renda sem destruir o ambiente”, afirma Riedel.
Um dos exemplos é a Bruaca, negócio social apoiado pelo Programa Centelha, executado pela Fundect. A iniciativa atua com comunidades indígenas, ribeirinhas, pequenos produtores e assentados, combinando turismo de base comunitária, comercialização de produtos tradicionais e capacitação em gestão, empreendedorismo e formação de preços.
Inicialmente criada como plataforma digital, a iniciativa passou a trabalhar também com um centro de distribuição e um núcleo de inovação social, diante de dificuldades relacionadas à logística, conectividade e organização.
A proposta é agregar valor aos produtos e conhecimentos das comunidades, transformando-os em alimentos, artesanato, roteiros turísticos, oficinas e experiências culturais.
Para ampliar esse mercado, no entanto, ainda são necessários investimentos em transporte, internet, embalagens, regularização sanitária e acesso a compradores. Sem essa estrutura, produtos com potencial podem permanecer restritos a mercados pontuais e feiras.
Para Bruno Wendling, diretor-presidente da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul, a procura por destinos com identidade, propósito e responsabilidade pode aproximar o turismo dos produtos da bioeconomia e dos conhecimentos tradicionais. Segundo ele, a geração de renda depende de políticas públicas contínuas e da participação da população local na cadeia de valor.
Ciência transforma biodiversidade em inovação
A biodiversidade pantaneira também começa a chegar ao mercado por meio da pesquisa científica. Em Aquidauana, a Pantabio surgiu a partir de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul e criou um bioinsumo agrícola produzido a partir de fungos nativos do bioma.
O produto busca atuar no controle de doenças, estimular o crescimento das plantas e reduzir impactos ambientais. Com apoio do Programa Centelha, a startup venceu, em 2025, a etapa Centro-Oeste do Prêmio Finep de Inovação, na categoria de empresas de base científica.
“Este caso mostra uma cadeia que começa na biodiversidade, passa pela universidade e chega ao mercado. O recurso natural não é apenas extraído: gera pesquisa, tecnologia e um produto de maior valor agregado”, afirma Riedel.
Em 2025, o Desafio Pantanal Tech selecionou três propostas nas áreas de bioeconomia, biodiversidade, turismo e agronegócio. Cada projeto recebeu previsão de bolsa mensal de R$ 6,5 mil durante 12 meses para desenvolvimento das pesquisas e aproximação com aplicações práticas.
Outro edital estadual destinou R$ 10 milhões a 11 empresas dos setores de biofármacos, biocosméticos, alimentos funcionais e outras áreas. Embora os recursos contemplem todo Mato Grosso do Sul, a iniciativa contribui para fortalecer um ambiente de inovação que pode aproveitar pesquisas relacionadas ao bioma.
Entre a descoberta científica e a chegada de um produto ao mercado, ainda existem etapas como certificação, proteção intelectual, produção em escala e acesso a compradores.
Mercado de carbono ganha espaço
A conservação também começa a ser tratada como ativo econômico. Florestas, solos e áreas restauradas desempenham funções relacionadas ao armazenamento e à retirada de carbono da atmosfera, além de contribuírem para a proteção da água e da biodiversidade.
Em dezembro de 2025, Mato Grosso do Sul criou a MS Ativos Ambientais, companhia voltada à estruturação de projetos relacionados a carbono, restauração, biodiversidade e outros serviços ambientais.
Em junho de 2026, a empresa publicou o primeiro chamamento para selecionar um parceiro com experiência nos mercados voluntário ou regulado de carbono. A proposta é estruturar, certificar e negociar créditos gerados por projetos de restauração, soluções baseadas na natureza e redução do desmatamento.
O edital estabelece que os créditos não podem ser comercializados antes da certificação e emissão e prevê mecanismos de transparência, integridade ambiental e repartição de benefícios com povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, quando aplicável.
A estrutura busca enfrentar desafios do mercado de carbono, como a comprovação dos resultados, dupla contagem e permanência das áreas conservadas. A lógica é que o crédito represente um resultado ambiental verificável e que os benefícios alcancem também aqueles envolvidos na conservação.
Desafio é fazer o valor chegar a quem preserva
Turismo, bioeconomia e mercado de carbono partem de uma mesma premissa: um território preservado pode gerar valor sem que seus recursos sejam consumidos de forma definitiva.
Uma experiência turística, um produto artesanal, um conhecimento tradicional, uma pesquisa científica ou uma área conservada podem movimentar diferentes cadeias econômicas. Mas transformar essa possibilidade em desenvolvimento sustentável exige regras, infraestrutura, fiscalização e participação das comunidades.
O turismo, por exemplo, pode gerar empregos e renda, mas também aumentar a pressão sobre áreas ambientalmente sensíveis. A exploração comercial da biodiversidade precisa considerar a repartição de benefícios e a proteção dos conhecimentos tradicionais. No mercado de carbono, a geração de créditos precisa estar acompanhada de mecanismos que garantam resultados ambientais efetivos.
A consolidação desse modelo dependerá, portanto, da capacidade de medir resultados, garantir transparência e fazer com que uma parcela maior da riqueza gerada permaneça no território.
Na prática, isso significa ampliar as oportunidades para o guia turístico, o artesão, o cozinheiro, o pesquisador, o pequeno produtor e as comunidades que vivem no Pantanal.
Na cozinha de Bruno Arruda, essa transformação já pode ser percebida. Cada prato servido preserva uma receita familiar e apresenta ao visitante uma parte da identidade pantaneira. O desafio agora é fazer com que histórias como a dele se multipliquem e que a riqueza natural e cultural do bioma se transforme, cada vez mais, em trabalho e renda para quem vive no território.

